quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Palavras de sangue


Chegaste
com a tua tesoura de jardineiro
e começaste a cortar:
umas folhas aqui e ali
uns ramos
que não doeram...
Eu estava desprevenida
quando arrancaste a raiz.

Yvette Centeno, "A Árvore"

sábado, 12 de dezembro de 2015

Mar. Silêncio.


Naquela época eu tinha medo do silêncio e não percebia que não havia mal nenhum em ficar a meio de uma conversa, ou mesmo em não haver conversa entre duas pessoas que vão lado a lado. O silêncio é como o mar. Envolve-nos, e pode submergir-nos, se não soubermos lidar com ele, mas pode também embalar-nos, se perdermos o medo e nos deixarmos ir. Em ambos, mar e silêncio, nada pior do que esbracejar de pânico.

Rui Zink, in A Espera

domingo, 6 de dezembro de 2015

Às vezes


Aceitar o dia. O que vier.
Atravessar mais ruas do que casas,
mais gente do que ruas. Atravessar
a pele até ao outro lado. Enquanto
faço e desfaço o dia. O teu coração
dorme comigo. Agasalha-me as noites
e as manhãs são frias quando me levanto.
E pergunto sempre onde estás e porque
as ruas deixaram de ser rios. Às vezes
uma gota de água cai ao chão
como se fosse uma lágrima. Às vezes
não há chão que baste para a enxugar.

Rosa Alice Branco, in Soletrar o Dia

sábado, 28 de novembro de 2015

Resposta branca


De que me serve tudo quanto me aconteceu, se me não aconteceres tu?

Vergílio Ferreira, in Para Sempre

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

A mesma canção


A sensação que tens
é de que tudo
quanto dizes já o leste
noutros livros. Mas
depois consideras: também
o sol e os pássaros
repetem todos os dias
a mesma canção.

Albano Martins, in As Escarpas do Dia

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Palavras roubadas


Eras a razão do poema. Caminhavas sobre as águas e procuravas uma ilha. Talvez fosses uma metáfora, talvez soubesses o nome das árvores e o destino do mundo. Pode ser que fosses a sombra de um sonho. Ou serias um farol numa praia, uma imagem roubada ao começo dos dias?

Bernardino Guimarães, in Facebook - Página Pessoal

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Lisboa


Se está por Lisboa, venha conversar connosco... Prometemos fazer com que valha a pena :)

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Um adeus em setembro


Quebrou-se a máquina azul do tempo
a que por vezes trazia
por dentro das metáforas
as folhas de Setembro.
Não resta mais do que melancolia.
Os anjos não descem das árvores
nem há duendes nos minutos.
As aves de arribação começam a partir
e deixam nas névoas da manhã
as últimas penas do Verão.

Manuel Alegre, "Elegia de Setembro" in Bairro Ocidental

sábado, 26 de setembro de 2015

Mareantes do vento


Crescemos na nudez das rochas

crescemos e desmaiamos
conforme as marés

Vertemo-nos líquidos
em caudais de sons
ardidos no sal
no delírio da espuma
por todo o corpo

Crescemos na substância das pedras
com asas muito leves

Não somos barco de carregar velas
somos mareantes do vento


Eufrázio Filipe, in Mar Arável (mararavel.blogspot.pt)

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Da espera


Esperar que voltes é tão inútil como o
sorriso escancarado dos mortos na
necrologia dos jornais

e no entanto de cada vez que
a noite se rasga em barulhos no elevador e
um telefone se debruça de um sexto andar

sinto que ficou ainda uma palavra minha
esquecida na tua boca

e que vais voltar
para
a
devolver

Alice Vieira, in Os Armários da Noite

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

OUTONO


De que lado viste chegar
o Outono? Por que janela
o deixaste entrar? És tu quem
canta em surdina, ou a luz
espessa das suas folhas?
Em que rio te despes para sonhar?
É comigo que voltas
a ter quinze anos e corres
contra o vento até te perderes
na curva da estrada?
A quem dás a mão e confias
um segredo? Diz-me,
diz-me, para que possa habitar
um a um os meus dias.

Eugénio de Andrade, in Obra Poética

Palavras de água


Através do teu coração
passou um barco
Que não pára de seguir sem
ti o seu caminho.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Navegações

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Obrigada!




Foi uma noite cheia de uma magia inesquecível... Recebi beijos, abraços dados com lágrimas nos olhos e vontade de não largar, flores e poemas. Recebi os amigos que vieram cheios de risos e encheram a sala de perfume e de cor... Obrigada a todos os que estiveram presentes, e aos que queriam estar mas não puderam... Obrigada pela festa tão linda, em volta do meu livro.
Entrego-vos O Guardião do Silêncio, com todos os espaços em branco que eu quis deixar, com todas as entrelinhas para onde podem escorregar, onde podem aninhar-se a sonhar os vossos sonhos...
Os direitos de autor deste livro reverterão integralmente para o IPO do Porto. Porque sim.
O Guardião do Silêncio é vosso. Eu não tenho mais nada para oferecer.

Ana Paula Mateus

sábado, 12 de setembro de 2015

É hoje...!


Nunca um convite foi uma obrigação. Mas a sua presença será uma honra e uma alegria. 
As portas estão abertas, venha conversar connosco.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Ver por dentro


Nós temos olhos que se abrem para dentro. Esses que usamos para ver os sonhos.

Mia Couto, in Estórias Abensonhadas

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Às vezes aqui faz frio


Contar-te que a chuva parou, e deixou o chão da cidade submerso num brilho escorregadio... Parou de mansinho, no entardecer quieto e quase frio deste outono já encostado ao fim dos dias, cada vez mais breves. Contar-te que a luz rasgada do sol poente - o último raio de sol - rompeu a medo os céus escuros e chegou dourada, numa maciez que trouxe de volta os pássaros. Contar-te nadas, pequenos nadas, - como tu dizias. Como terias repetido, se eu te tivesse telefonado só para te contar a morte da chuva. E terias rido, e terias perguntado se eu me tinha molhado, se tinha andado à chuva como uma miúda irresponsável... 
Ainda não apaguei o teu número de telefone. Continuo a querer contar-te: os pequenos nadas. A chuva miudinha, fria, batida pelo vento norte - que me encharcou até aos ossos, que me gelou a pele e me entrou no coração... Uma chuva igual, tão igual, igualzinha à do dia em que morreste... 
E é sempre esta chuva fria e triste que me faz regressar a ti, nos dias em que não sei de mim.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Da Solidão



Porque eu trazia rios de frescura
E claros horizontes de pureza
Mas tudo se perdeu ante a secura
De combater em vão

E as arestas finas e vivas do meu reino
São o claro brilhar da solidão.


Sophia de Mello Breyner Andresen, "Poema Perdido" in Obra Poética

sábado, 29 de agosto de 2015

O Guardião do Silêncio


O Guardião do Silêncio  é um trabalho amadurecido a que chamei "um quase-romance sobre Saudade".  É uma narrativa que espreita o avesso dos seres humanos, os sentimentos que se calam ou que só se confessam em solidão, que desnuda os fantasmas do passado e os olha de frente, sem medo.
Gosto de tudo, neste livro: da capa (um lindíssimo desenho a aguarela e tinta-da-china que ilustra na perfeição a história dentro das páginas), do formato e dimensões invulgares que terá, das personagens, do enredo, das estórias dentro da história... Gosto de tudo - este livro é o meu rosto e é o livro que eu sabia que teria de escrever.
O lançamento é no dia 12 de setembro, às 21.30h, na Biblioteca Diana-Bar da Póvoa de Varzim. Se estiver perto, se lhe apetecer e puder, passe por lá... Eu vou gostar de conversar consigo.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Palavras roubadas


Esta noite preciso de outro verão sobre a boca
crescendo nem que seja de rastos.

Eugénio de Andrade, in Obra Poética

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Vox populi, vox Dei


Envelhecer não é para cobardes.

(Ditado norte-americano)

Do Amor


- Como são os livros de amor?
- Disso receio não te poder falar. Não li mais que um ou dois.
- Não interessa. Como são?
- Bem, contam histórias de duas pessoas que se conhecem, que se amam e lutam por vencer dificuldades que as impedem de ser felizes.

Luís Sepúlveda, in O Velho que Lia Romances de Amor

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Cá dentro


Podemos subir a pé uma escarpa, uma duna, uma montanha, uma falésia, sei lá eu, um penhasco no fim do mundo, qualquer coisa que nos deixe mais perto do azul... E depois eu posso dizer palavras belas à toa: ave, peixe, árvore, mar. Ou talvez não chegue a dizer nada. E esse silêncio entre nós será a música  com que pousas as nuvens no meu colo. 

domingo, 26 de julho de 2015

Vento de verão


Penso que podia ser livre e descer descalça esta avenida em direção ao mar, sandálias na mão e o azul do céu preso nos cabelos molhados. Fecho os olhos ao brilho do sol refulgindo no granito que piso devagar, tento desvendar os segredos na voz das gaivotas e caminho neste verão ventoso e morno de cidade costeira. Os dedos do vento prendem-se ao meu vestido e tecem-me entrançados misteriosos nos fios do cabelo. Sorrio: agarro esta promessa de chuva no céu do verão e não paro, caminho sem pressa e sem destino no coração da cidade.
Entro dentro do vento com o entardecer pousado nos ombros e a luz única do ocaso brilhando-me por dentro dos olhos. Sorrindo porque é verão. Sorrindo ao vento do verão.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

No véu da noite


as mãos pousadas sobre o peito.
só o silêncio se ouve.
no véu da noite,
o silêncio dos amantes de olhar suspenso
cresce pelos seus corpos
como trepadeiras nas paredes
das casas em ruínas.
o desejo acontece e os olhos,
brilhantes e cúmplices,
aguardam que as mãos escondidas se toquem,
que explorem o corpo,
como pequenos pássaros inquietos.

de mãos pousadas sobre o peito,
só a solidão se sente,
quando no véu da noite
os amantes se entregam num só corpo.


Paulo Eduardo Campos, "O Quarto" in A Casa Dos Archotes

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Palavras possíveis


Podes dizer ao mundo inteiro que estas letras são tuas. Assim como os desenhos que fiz, os espaços que deixei. Podes dizer a toda a gente que um dia te amei e que foste tu quem me fez poeta. Podes nadar em orgulho ao saber que todos os copos que bebi foram por ti. Que os cigarros que fumei ansiosa e apressadamente foram pela saudade do teu corpo. 
Quando falarem de raios e relâmpagos, de trovões e de tufões, vais poder dizer que fui eu quem fez a China, quem ergueu muralhas e deitou lágrimas de sangue. Quando te perguntarem se um dia me conheceste, diz que sim.
Responde um afirmativo de poder e de vontade. Podes deixar o medo do conhecimento alheio, agora que te sou completamente alheia. Quando um dia o mundo se desfizer verdadeiramente em estações trocadas - o Verão pelo Outono ou o Inverno pela Primavera - aí podes descansar. Podes contar à galáxia e aos seus sobreviventes que, meu eterno desconhecido, um dia me fizeste rainha.

José Eduardo Agualusa, in Revista Egoísta, nº 32

sábado, 4 de julho de 2015

Palavras roubadas


Mas já não tenho mais tanta pressa. Comecei a aprender a ser mais gentil com o meu passo. Afinal, não há lugar algum para chegar além de mim. Eu sou a viajante e a viagem.


Ana Jácomo

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Palavras perfeitas


por vezes
caídos do nada
acomodam-se
no ninho
da minha comoção

são chilreios
do tempo
em que nasciam pássaros
nos teus olhos

Lídia Borges, "Pássaros" in Searas de Versos (www.searasdeversos.blogspot.com)

quarta-feira, 17 de junho de 2015

No teu olhar


pobres
dos que nenhuma vez olharam
ou foram olhados
assim

gil t. sousa, in falso lugar

sexta-feira, 12 de junho de 2015


Somos feitos da poeira das estrelas.

Carl Sagan, in As Ligações Cósmicas - Uma Perspectiva Extraterrestre

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Orgulho Poveiro


Sofreu-se muito, muito... Mas apesar de reduzido a dez jogadores, no minuto 80 o meu Varzim subiu à II Liga...! 
E a cidade, pintada de fogo, adormeceu tarde.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Polónia


A encerrar o ano letivo, parto para a Polónia onde alunos e professores me esperam na imperial cidade de Varsóvia.

Até já :)

quarta-feira, 27 de maio de 2015

A primeira vez


E tu...? Quando foi a última vez que fizeste uma coisa pela primeira vez?

Tudo o que eu te dou


Por vezes forte, coragem de leão
Às vezes fraco, assim é o coração
(...)

Pedro Abrunhosa, in "Tudo o que eu te dou"

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Da Morte


Deixei de ouvir-te. E sei que sou
mais triste com o teu silêncio.

Preferia pensar que só adormeceste; mas
se encostar ao teu pulso o meu ouvido
não escutarei senão a minha dor.

Deus precisou de ti, bem sei. E
não vejo como censurá-lo

ou perdoar-lhe.


Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Crónicas do Vento Salgado


Lentamente, a praça enche-se de sol e de ruído. No único banco sem sombra só estou eu, nas mãos - aninhados - os poemas de Herberto Helder, nos olhos o mel dourado das suas palavras... De repente uma bola azul e branca tomba-me no colo, umas mãos pequeninas vêm reclamá-la e uma voz tímida sussurra um Obrigado! quando a devolvo. Regresso aos poemas já menos concentrada: junto do banco pombas e pardais bicam restos de pão, lutam por um quinhão de croissant com chocolate que abandonam em fuga espavorida, tentando pôr-se a salvo da rota da correria doida de um cão... Devolvo a bola ao miúdo outra vez e outra e mais uma ainda... E agora os Obrigados trazem gargalhadas que rebrilham à luz morna da manhã como cascatas de água cristalina. 
Desisto: fecho o livro e abro o caderno dos apontamentos... Na folha branca nasce-me, sem avisar, um poema parolo onde sol rima com bola, com criança e com ave... Tenho a certeza que, de dentro do seu maravilhoso livro, com um sorriso condescendente, o Herberto Helder me perdoa o mau gosto... 
Fecho os olhos e viro o rosto para o sol. Pela quinta vez, tenho uma bola azul e branca nas mãos. Sorrio. Decididamente, gosto de praças cheias de sol e pombas, com cães a correr e crianças a jogar à bola.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Cá dentro


Sonhei contigo esta noite. Vestias uma camisa branca de linho e eu via, caído sobre o teu peito, o fio de prata oferecido pela tua madrinha e que uso às vezes, quando sinto muito, muito a tua falta. Estávamos sentados, lado a lado e de mãos dadas, no cimo da montanha da casa da avó, em Trás-os-Montes. Tínhamos os pés descalços sujíssimos de pó e a terra estava morna, macia. Ríamos muito, felizes. Entardecia sobre o rio e tu puseste o teu braço sobre os meus ombros enquanto sorrias o teu sorriso de sol. Só nós, abraçados, atirando gargalhadas à montanha, os pés na terra, os olhos perdidos na correnteza escura do rio. Eu quase ouvia - juro! - muito forte, o bater do meu coração.

(Gosto de sonhar contigo, como se fosse a única forma de te resgatar na minha vida... Às vezes também sonho com a saudade infinita que tenho de ti... e é um sonho feliz, mesmo assim).

quarta-feira, 6 de maio de 2015

As coisas que se dizem


Almoçavam na mesa ao lado da minha: fatos escuros de bom corte, gravatas clássicas, relógios caros, telemóveis topo de gama. Executivos, arriscaria dizer. Falavam baixinho e era talvez essa a nota dissonante naquele restaurante barulhento e apinhado de jovens estudantes, que cheira a gordura e despacha o baratíssimo prato do dia à velocidade da luz. Não, não foi o aspeto deles que me atraiu mas a forma como conversavam... E eu que adoro roubar conversas - e almas, às vezes - tentei escutar o que diziam por entre o tinir dos talheres, o ruído da televisão, o gargalhar contínuo e os berros dos estudantes. Não era de negócios que falavam e de vez em quando eu apanhava uma palavra, pedaços de frases, retalhos da conversa que me fazia companhia... - Mas ela disse-te mesmo isso??!! - e o olhar do outro pousado na mesa coberta com uma toalha de papel, onde as mãos cegas e à toa rabiscavam misteriosos desenhos infantis... A desolação nos olhos do desenhador, o consolo nas palavras do primeiro - Ó pá, deixa lá, não fiques assim, isso são coisas que se dizem... Veio o café, veio o silêncio antes de o homem que desenhava responder devagar: - Não são as coisas que se dizem, é a maneira como se dizem as coisas, entendes?
Dei comigo a dar-lhe razão. A pensar que as palavras podem ser balas e despedaçar peitos, esbofetear violentamente, se as atiramos furiosas ao rosto de quem nos ouve; pensei que as palavras, muitas vezes, são murros que abatem os que nos escutam, são pedras que ferem e rasgam e fazem feridas que cicatriz nenhuma fechará... Pensei que as palavras, quando embrulhadas em rancor ou desprezo, cuspidas com ódio, são um poderoso armamento na mais injusta das guerras: a guerra do verbo.
Levantei-me para sair e o homem que desenhava rabiscos na toalha olhou-me por ligeiríssimos segundos que o seu relógio caro teria registado, um instante apenas, que espero fosse suficiente para ele ter conseguido ler nos meus olhos a única coisa que me apetecia dizer-lhe: - Sim, eu entendo.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Andorinha...


E tu, conheces alguma palavra mais bela...?

domingo, 3 de maio de 2015

Crónicas do Vento Salgado


Tirei a senha de atendimento e fiz as contas: a lista de espera era de 38 pessoas. Hesitei. Desesperei. Sabia que não podia virar costas e ir-me embora, tinha mesmo de esperar para ser atendida. A sala abarrotava de gente tristonha, ensimesmada, conformada até... O ar era irrespirável, abafado, cheirava a roupa molhada, a chuva e a mofo. Ouvia-se tossir, o choro impaciente de crianças, de vez em quando rasgado pela voz dura e metálica dos funcionários ao balcão... Não havia um único lugar sentado e as pessoas encostavam-se às paredes, de olhar vazio. Olhei o relógio, calculei mentalmente o tempo de espera e decidi sair, esperar lá fora, à chuva, com o vento a bater-me no rosto. 
Ela estava junto à porta, cosida com o vidro, embrulhada num xaile de lã cinzento que fazia cruz no peito e se prendia com uma laçada sobre os rins. Era velha, muito velha. Tinha o rosto e o cabelo molhados pela chuva miudinha atirada pelo vento frio, as mãos enrugadíssimas seguravam um molhe de rosas brancas, tristes e já a desfolhar... Ela olhou-me e sorriu ao ver que eu ficava parada junto à porta: Leva rosinhas, amor. Leva que são baratinhas, são as últimas, faço-te um desconto...! Que idade teria? Olhei-a com atenção e reparei nos olhos azuis, tão azuis...!, no avental desbotado, nas meias de lã velhas e gastas, no sorriso com poucos dentes... A seus pés, jaziam mais dois molhos de rosas entristecidas e com ar selvagem... E ela continuava a cantilena, o pregão, impingindo-me as últimas rosas que lhe dariam o direito de regressar a casa: Compra linda, amanhã é o dia da mãe, ela vai gostar...!  Já só tenho estas e as mães gostam de rosas brancas! Sorri-lhe e expliquei-lhe que não podia dar flores à mamã, o gato cisma com elas, come-as todas, derruba as jarras e ela enerva-se muito... Calou-se, desconsolada. Leva-as para ti amor, tens filhos? - tentou sem se render. Sim, falei-lhe dos meus filhos. E ela falou-me da mãe morta há mais de quarenta anos - Não há dia nenhum que não chore pela minha mãezinha! - dos filhos que não teve e do homem que a deixou. Falou-me das rosas e dos legumes que tem no quintal - Eu não ando a pedir menina, eu ganho o meu dinheiro! -  da chuva e do vento que lhe partiu tudo, da bicicleta com o pneu furado que a tinha obrigado a vir a pé, da vida que vivia sozinha - Enterrei a minha família toda, já só falto eu... Não sei quem me vai enterrar a mim... E dentro do meu peito nasceu uma tristeza infinita porque no meu país há velhos a sobreviver nas ruas à chuva, que vivem sozinhos em casas vazias, desprotegidos, à mercê deles mesmos... Velhos que morrem sozinhos, desamparados, e ninguém dá pela falta deles até que o cheiro dos cadáveres denuncia a morte aos vizinhos... Leva amor, são as últimas... As flores estavam feias e ela pedia uma ninharia por elas... Estendi-lhe uma nota e vi o desalento: Não tenho troco, amor... Não fazia mal, ficava assim, era para ela tomar um leite quente, comer qualquer coisa e ir de autocarro para casa - Ainda mais azuis, os olhos brilharam: Obrigada amor, a mãezinha vai gostar, vais ver, agora só se dá perfumes e jóias, é um disparate! - As mães gostam é de rosas!!! 
Deixei as rosas no jazigo da minha avó. Ela não se importaria por estarem velhas e desfolhadas... Também ela - eu sei - teria ficado com um nó no peito se conhecesse aquela velhinha que há quarenta anos chora pela mãe, que neste domingo não tem a quem abraçar, e no meio do silêncio em que vive, nunca ouviu nem ouvirá ninguém dizer-lhe que é a melhor mãe do mundo.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Quase...


deixei-te fugir por entre
os dedos de uma só mão

aquela com que te
prendia de encontro à alma

Jorge Reis-Sá, in quase e outros poemas de querença

sábado, 25 de abril de 2015

A sétima onda


Na minha cidade, uma mulher matou-se. Durante toda a semana, por todo o lado se falava, se comentava, se tentava descobrir que razões teria para desistir da vida... Tinha 63 anos, e matou-se. No mercado, nas bancas da fruta e do peixe, as vendedeiras com voz consternada diziam só que ela andava mais triste, mais calada... Ninguém podia supor, uma mulher tão calma, tão simpática, tão serena, a casa sempre num brinquinho, comidinha a horas, roupinha do homem e da filha num primor que dava gosto...  Chocadas, as pessoas que a conheciam não encontram motivo algum para um ato tão desesperado. Sabe-se apenas que deixou um bilhete em cima da mesa da cozinha: Se eu me atrasar, recolham a roupa. 
Conta-se que no telemóvel da mulher que se matou, havia três mensagens, enviadas pouco antes da decisão tomada - para três amigas, todas com o mesmo texto: Posso ir aí a casa? Os relatórios deram as sms como entregues, mas ninguém lhe respondeu. Tenho pensado se o silêncio das amigas terá pesado na decisão da mulher que se sentou no cais, sozinha, à chuva e ao vento, a contar as ondas à espera da sétima, que a guardaria para sempre no ventre gelado e escuro do mar... Tenho pensado nisto, em quantas vezes olhamos os outros, os que amamos, e não reparamos que andam mais tristes, mais calados, talvez a controlar o ritmo das marés, quem sabe, também à espera da sétima onda... 
A casa da mulher que se matou está fechada, abandonada. Somente no estendal da varanda, a roupa que ninguém apanhou enrodilhou-se com o vento, encharcou-a a chuva, e lá continua cosida com o arame, fina como a lâmina de uma faca, branca como uma mordaça... - Tão abandonada, tão gelada, tão só, como se fosse o único testemunho da mulher que se matou, sem ninguém saber porquê.   

terça-feira, 14 de abril de 2015

Partir


A mulher olhou em volta toda a sua vida, guardada dentro de caixas. Empacotados, empilhados, todos os anos que vivera, tudo aquilo que a tornara na pessoa que era. A marcador vermelho, legendara os segredos da escuridão dentro das caixas: os linhos da avó; as porcelanas da casa de Trás-os-Montes; as bonecas; os livros; os enfeites de Natal; os cd's e os dvd's; os livros do pai; as coleções do avô; os brinquedos dos miúdos... Caixas e caixas, lembrando-lhe a vida que vivera, tudo aquilo que acumulara... Memórias, a maior parte dos caixotes. Tralha encerrada dentro de móveis, de gavetas, coisas destinadas à noite dos olhos, ocultas, condenadas ao avesso da claridade. Sentiu-se de repente cansada do silêncio que transportava, que arrastava consigo pela vida fora... Cansada do espaço ocupado por coisas que nunca via, por livros que não lia, cd's que não ouvia, copos por onde não bebia, pratos onde não comia... Cansada da sua tralha.
A mulher levantou-se, acendeu um cigarro e saiu para o jardim. Tanta coisa ficaria...! Não havia caixas onde guardar as rosas que alinhara nos canteiros, o cipreste imponente apontando o céu, orgulhoso da sua verticalidade serena, as azáleas rubras e perfumadas, a oliveira que resistia à secura de todos os verões, à neve de todos os invernos, o rododendro explodindo em novelões de sangue... Tinha de os deixar para trás e continuar o caminho mais vazia. Depois olhou o céu que anoitecia, sentiu os seus olhos tristes e percebeu: sim, para além da tralha, havia mais coisas que levava consigo - o cheiro do amanhecer, o olhar fiel dos seus cães, o trinado das aves na ensurdecedora orquestra ao morrer da luz, o cheiro da terra molhada e da relva acabada de cortar, a maciez das rosas, o piar do mocho no aqueduto em ruínas, a voz do vento, o som da chuva molhando as árvores que plantara, as lebres assustadas atravessando a estrada... Tudo isso que não ocupava espaço, não ficaria para trás, iria com ela, nas caixas empilhadas por trás do olhar, caídas num vão da memória - dentro do coração.   

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Da leitura


Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo... Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

Clarice Lispector, in A Descoberta do Mundo

quarta-feira, 8 de abril de 2015

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Da Saudade


Porque é sempre de nós que nos separamos quando deixamos alguém,
É sempre de nós que partimos quando deixamos a costa,
A casa, o campo, a margem, a gare, ou o cais.

Álvaro de Campos, "Saudade" (excerto) in Livro de Versos

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Páscoa Feliz


É tempo de ressurreição e de mudança - Reinvente-se. Renove-se. Renasça.
Seja feliz!

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Claridade


É um pequeno milagre, esta claridade.
Os telhados acendem-se como fornalhas,
permanece vermelha uma parte do céu.
A noite, se existiu, foi para nós um erro
de perspectiva, uma ilusão, um ardil de
sombras e estrelas perdidas no escuro.

Agora é de um azul sem mácula, o céu;
a cidade, um corpo branco a levantar-se;
e esta luz — rasa, rosa, crua — já não um
pequeno milagre, mas uma evidência.

José Mário Silva, "Manhã" in Luz Indecisa

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Palavras de brincar


Brinca comigo à procura
de uma estrela noutro céu
Brinca e leva a noite escura
com os sonhos que Deus te deu

Começa devagarinho
- por favor, não tenhas medo,
que meu coração fez ninho
dentro do teu em segredo

Acorda os anjos que formem
com a luz do teu sorriso
Faz com que não se conformem
e saiam do paraíso

Deixa-os entrar de repente
no teu quarto, a esta hora
em que a verdade mais quente
é o sono que te devora.

Brinca comigo às escuras,
ensina-me o que não sei
Onde estás? Porque procuras
o coração que te dei?

Fernando Pinto do Amaral, "Brincadeira" in Poemas Escolhidos