De novo a morte. Inesperada, brutal, derrubando os pilares da felicidade, esventrando até sangrar as paredes do coração. Não, tens razão, não consigo lidar com a morte... Talvez isso tenha um nome, talvez os psiquiatras saibam, li algures que a não aceitação da morte é apenas imaturidade emocional. Seja. Crescerei, algum dia? Deixarei alguma vez de os sonhar, aos meus mortos, de lhes ouvir os passos e os risos, de os encontrar na rua, subitamente, ao virar de uma esquina? De lhes sentir o cheiro, como uma brisa suave que passa ao de leve sobre a pele despida? Alguma vez deixarão de regressar numa fotografia esquecida, numa música que irrompe de repente, na silhueta de alguém parecido, numa palavra que só eles diziam...? A morte é um murro no estômago que nos obriga a continuar a caminhar curvados porque há uma dor que nos parte a meio e que só nós vemos, só nós sabemos. É só nossa e não sabemos contá-la. Odeio-a, sabes? Porque rouba sonhos e muda vidas, num instante, no derradeiro instante da batida do coração que desiste. Odeio-a porque é definitiva. Irreversível. Porque leva os que amamos mas leva-nos a nós também, aos pedaços, destruídos, seres humanos em farrapos que têm que continuar de pé, a caminhar mais vazios, mais sós e mais tristes. A morte é nunca mais. A morte é o fim definitivo. O último ato, o ponto final, a porta que se fecha, a luz que se apaga, a nota final da melodia da vida. O escuro. E o silêncio. A eterna saudade. E dói. A morte dói-nos no coração apertado que parece querer rebentar, dói na garganta, no sítio onde nascem as palavras... Talvez seja por isso que cala, que para sempre silencia tanta coisa dentro de nós...
DE PROFUNDIS
"Que dias há que na alma me tem posto/ um não sei quê, que nasce não sei onde,/ vem não sei como, e dói não sei porquê." - Luiz Vaz de Camões
Sexta-feira, 16 de Março de 2012
Segunda-feira, 12 de Março de 2012
Metade
Metade anémona metade névoa
Metade água metade mágoa
Metade silêncio metade búzio
Metade manhã metade fogo
Metade jade metade tarde
Metade mulher metade sonho
Jorge de Sousa Braga, Ferida aberta
Domingo, 11 de Março de 2012
Da espera
Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.
Não florescem no inverno os arvoredos,
Nem pela primavera
Têm branco frio os campos.
Fernando Pessoa
Quarta-feira, 7 de Março de 2012
África
E então baixei os olhos para que não visses as lágrimas e sussurrei-te ao ouvido, a meio do abraço Vou regressar a África e tu sorriste e não me acreditaste. Que sou do mar e a minha alma é um peixe, vai sufocar no chão quente de terra vermelha, disseste. Mas é que tu não sabes que tenho sonhado com céus de fogo ardendo em horizontes infinitos e dentro da minha memória há um cheiro que não reconheço... Estará em África, junto da lama morna e do cacimbo que me escorria nos cabelos, na chuva de bátegas grossas como pedras ou nos amanheceres luminosos de pássaros enormes riscando o azul? Tenho que ir, repeti, e tu sorriste outra vez, o beijo meigo a tentar amparar-me a loucura que me lançará de novo nesta mania de ser ave atirada em rota incerta... Quero regressar a África para descobrir se conseguiria ser feliz atrás das montanhas, vou deitar-me no pó do chão para ouvir os bichos rastejarem, vou caminhar descalça pelos atalhos e roubar os frutos às árvores, como quando era menina... Vou tentar encontrar o que lá ficou de mim. Mas eu volto, mãe. Volto para te contar se pertenço à terra, como as árvores, ou se sou apenas o que tu dizes, um peixe que se julga ave e se despenha em voos picados nos fundos abismos do mar salgado.
Terça-feira, 6 de Março de 2012
Assim...
Raiz de pedra.
Corpo de vento,
Olhos de água.
Assim sou
Entre pássaro, flor e mágoa.
Luísa Dacosta
Segunda-feira, 5 de Março de 2012
Planta-me no teu jardim...
É quase primavera, reparaste? Planta uma árvore no teu jardim, uma árvore bela que rebente em flor e se encha de frutos, onde as aves façam ninho e que seja a casa dos bichos... E depois, baixinho, a sós contigo, dá-lhe o meu nome. Quero ser uma cerejeira cor de rosa e envelhecer num canto abrigado do teu chão, quero conhecer-te pelo riso e saber de cor o som dos teus passos, quero que te sentes à sombra de mim e encostes o cansaço ao meu tronco, com os olhos fechados... Planta-me no teu jardim, quero enterrar-me na terra que abrirás com as tuas mãos, quero ser a árvore serena que só tu cuidarás, regarás, podarás, adubarás, quero ser uma árvore que sobreviva para além de nós... Talvez possas escolher o canto mais silencioso, porque eu gosto de silêncio... Só tu saberás que sou eu, tomarás conta de mim, não deixarás que a tempestade me derrube e colherás os frutos que eu der, que serão doces, cor de sangue, o sangue da nossa saudade. E talvez possas, quando a árvore for forte e tiver o tronco rijo, colocar num dos ramos mais altos um espanta-espíritos feito de conchas e de búzios. E quem sabe, quando o vento a agitar ao fim da tarde, talvez ouças a voz do mar na cerejeira com o meu nome. Talvez ouças as ondas, ainda as minhas ondas a bater em ti.
Sábado, 3 de Março de 2012
Porque hoje estou feliz... Fica feliz comigo
Buda
Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012
Palavras imortais
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram
Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram (…)
Ary dos Santos
29
Desde miúda que me fascina o dia 29 de fevereiro. Nunca percebi, continuo a não perceber porque razão ele existe, desconcerta-me a fugacidade da sua aparição, a sua não repetibilidade todos os anos, como os demais dias do calendário. Não conheço ninguém que tenha nascido neste dia e no entanto devem nascer bebés em todo o mundo nas próximas 24 horas, gente vai morrer, casar, divorciar-se, fazer operações cirúrgicas, assinar grandes tratados ou tomar decisões definitivas. Penso em datas mágicas, que gostamos de ver gravadas na memória e no estranho que será terem de ser celebradas com veracidade apenas de quatro em quatro anos. Amanhã viveremos uma espécie de bónus que a vida nos concede, um dia a mais neste ano de 2012. E depois, só em 2016 o mês de fevereiro será maior. É uma espécie de dia fantasma onde supostamente nada de especial deve acontecer, onde o mundo rodará normalmente sobre o seu próprio eixo sem deixar marcas ou vestígios, para não perturbar recordações futuras. Que assim seja, um dia que passe sem deixar pegadas no chão do ano, um dia que não comprometa os já tão emaranhados labirintos da memória.
Este ano é bissexto e faltam 305 dias para terminar, diz-me o Google. Por isso, a todos os meus visitantes e amigos, desejo um dia sereno.
Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012
Aqueles que andam por aí
As pessoas não morrem: andam por aí. Quantas vezes sinto à minha volta, não apenas a presença, o cheiro, a cumplicidade silenciosa, palavras que saem da minha boca e me não pertencem, penso
- Não fui eu quem disse isto
e realmente não fui eu quem disse isto, foram as pessoas mortas, exprimem opiniões diferentes das minhas, aproximam-se, afastam-se, vão-se embora, regressam, não me abandonam nunca. Em que parte da casa moram, qual o lugar onde dormem, devíamos deixar pratos a mais na mesa, talheres, copos, almoço que chegasse, os guardanapos nas argolas, um lugar no sofá, metade do jornal, dado que não se sumiram: andam por aí, invisíveis (invisíveis?) densas de humanidade, tão próximas.
Os cemitérios são lugares vazios, só árvores, sem defuntos, só a gente, que arranjamos as campas, sem entendermos que não existe ninguém lá em baixo. Uns pardais nos choupos, nada. Que sítios tranquilos, os cemitérios, que inútil a palavra defunto.
Segredam-nos
- Não faleci, sabes?
e não faleceram, é verdade, continuam, na nossa lembrança, continuam de facto, pertinho. Quase sem ruído mas tomando atenção, percebem-se, quase não ocupando espaço mas, reparando melhor, ali, iguais a nós, tão vivos. Andam por aí, pertencem-nos, pertencemos-lhes, não deixamos de estar juntos: Quando é necessário poisam-nos a palma no ombro. E agora, na mesa a escrever isto, espreitam o papel, sabem, melhor do que eu, as palavras que se seguem.
Há palmas tão bonitas quanto os pássaros. Daqui a nada, sem que ela dê por isso, começa a cantar. E, ao cantar, começo a escutar as ondas. Uma após a outra. Para mim. Atrás destas janelas e destas árvores há-de haver uma praia. Reparem.
António Lobo Antunes, "Aqueles que andam por aí" in Revista Visão (19 a 25 de janeiro 2012)
Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012
Na rota do silêncio
Esta noite dou-te a minha mão...
leva-a
e deixa que os meus dedos
encontrem
sozinhos
a serenidade e o silêncio
no mapa dos teus olhos.
Sábado, 25 de Fevereiro de 2012
Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012
Crónicas do Vento Salgado
Aposto que nunca ouviram falar da Troika ou do IVA, da política de contenção, do desemprego ou da crise. O futuro não os preocupa e nenhum sonho os assusta. Têm quinze anos e todas as certezas. São grandes, são enormes. São donos do mundo. São donos de todos os mundos.
Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012
Para que serve o Amor? Para perder o medo.
Ele agarrou-lhe na mão, e ela agarrou-lhe na mão, e ficaram de mãos agarradas, primeiro a olharem para as mãos, depois levantando lentamente os olhos, que por fim se encontraram, perdendo-se uns nos outros, sem já saber quem via ou era visto, os olhos ao mesmo tempo a verem e a serem vistos, nus, sem qualquer pudor, como se tudo fosse possível uma vez mais, uma última vez, sem esquecer que o que lhes estava a acontecer é impossível, quanto mais esquecer.
Pedro Paixão, Muito, Meu Amor
Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2012
O Primeiro Beijo
Naquela noite, fiquei a esperá-la, encostado ao muro, alguns metros depois da entrada da pensão. As pessoas que passavam eram alegres. Eu pensava em qualquer coisa que me fazia sentir maior por dentro, como a noite. As folhas de hera que cobriam o cimo do muro, e que se suspendiam sobre o passeio, eram uma única forma nocturna, feita apenas de sombras. Primeiro, senti as folhas de hera a serem remexidas; depois, vi os braços dela a agarrarem-se ao muro; depois, o rosto dela parado de encontro ao céu claro da noite. E faltou uma batida ao coração.
O mundo parou. Sombras pousavam-lhe, transparentes, na pele do rosto. O ar fresco, arrefecido, moldava-lhe a pele do rosto. E o mundo continuou. Ajudei-a a descer. Corremos pelo passeio de mãos dadas. A minha mão a envolver a mão fina dela, a força dos seus dedos dentro dos meus. Na noite,os nossos corpos a correrem lado a lado. Quando parámos, as nossas respirações, os nossos rostos admirados um com o outro: olhámo-nos como se nos estivéssemos a ver para sempre. Quando os meus lábios se aproximaram devagar dos lábios dela e nos beijámos, havia reflexos de brilho, como pó lançado ao ar, a caírem pela noite que nos cobria.
José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos
Domingo, 19 de Fevereiro de 2012
Sábado, 18 de Fevereiro de 2012
Post Secret
Ser pedra, raiz, muro. Invisível aos olhos dos passantes. Ser qualquer coisa debaixo do chão, terra ou bicho, onde nenhum olhar me encontre. Escuridão ou fantasma ou silêncio. Ser pó sobre os móveis. Esconder-me do mundo, escorregar para o vazio e encontrar um corredor entre a luz e o sonho. Ser apenas uma memória longínqua, personagem esquecida de uma história sem final feliz. Ser um resto de nada, entre ruínas e estilhaços. Poder fechar os olhos... Chorar.
Ou fugir.
Quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2012
As palavras mais belas
do teu corpo: cabelos, lábios, ombros, seios,
até o ventre, e o que entre as coxas se esconde.
Escrevo-as devagar, como se lhes tocasse; e
cada uma delas é como um espelho, de onde
se libertam as tuas mãos, os dedos, um joelho,
olhos que beijo num murmúrio de segredos.
E pedes-me significados, símbolos, primeiros
e segundos sem idos. Não te sei dizer senão que
corpo é o teu corpo, centro um secreto umbigo,
pele a mais branca neve no horizonte desta
subida leve. Se me estendes os braços, entro
num abrigo de floresta: se me abres os ramos,
é na mais doce gruta que entramos.
Precipitam-se sinónimos, adjectivos sem
objectivo, pronomes enfáticos e possessivos,
sílabas perdidas na falésia do desejo. Mas
fecho o livro. Estou farto de palavras, é a ti
que eu quero. E faço-as voltar até de onde
nasceram: cabelos, lábios, ombros, seios, até
o ventre, e o que entre as coxas se esconde.
Nuno Júdice, Dicionário
Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012
Até ao fundo do mundo que me deste
Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fundo do mundo que me deste.
Nuno Júdice
Domingo, 12 de Fevereiro de 2012
Alma gémea
As pessoas pensam que uma alma gémea é o seu encaixe perfeito, e é isso que toda a gente quer. Mas uma verdadeira alma gémea é um espelho, é a pessoa que te mostra tudo aquilo que te prende, a pessoa que te chama a atenção para que possas mudar a tua vida. Uma verdadeira alma gémea é, provavelmente, a pessoa mais importante que alguma vez conhecerás porque irá derrubar os teus muros e despertar-te à força. Mas viver com uma alma gémea para sempre? Não. Demasiado doloroso. As almas gémeas entram na nossa vida apenas para nos revelar outras camadas de nós próprios, e depois vão embora.
in Eat, Pray, Love
Subscrever:
Mensagens (Atom)
















