quarta-feira, 24 de maio de 2017

Tu sorriste


Não te vou aborrecer com mais poemas.
Digamos que te disse
nuvens, tesouras, pássaros, lápis
e que alguma vez
tu sorriste.

Júlio Cortázar, in Cinco últimos poemas para Cris

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Amar pelos dois


Ouvi pela primeira vez a música do Salvador Sobral no sábado, durante a final do Festival da Canção. A canção é bela e pregou-me uma partida - abriu de par em par as portas da minha memória, trouxe-me de novo, com a mesma força de outrora, o Paulo, as lágrimas e a dor viva do meu primeiro desgosto de amor.
Ele era o rapaz mais bonito do nosso grupo, o mais alegre, o mais alto, o mais simpático, o único com os olhos negros, negros, tão negros... Eu tinha treze anos. Amava-o até à loucura, julgava que em segredo, até ao dia em que um jogo de Verdade ou Consequência me traiu desastrosamente... (O rapaz que amas está aqui? É o Paulo? O teu sonho é namorar com ele?) A tudo fui respondendo que sim, com a verdade - aos treze anos não sabemos ainda que há amores que se devem calar, albergar no peito, só porque sim, só porque nunca acontecerão... Envergonhadíssima, com o rosto em brasa, ia lendo as emoções do Paulo perante as minhas inesperadas verdades: desconforto, mal-estar, esfriamento. O grupo ria, queria a Consequência, o beijo na boca que eu daria ao Paulo depois daquele amor desnudado em praça pública, esventrado, dissecado, exposto do avesso aos olhos do mundo. Mas, inocentemente eu escolhi sempre a Verdade, sem saber na altura que se podia mentir num jogo jogado ao fim da tarde com amigos, num jardim da cidade. Sem saber que a verdade me tornaria alvo do riso e da troça da minha roda de amigos.
Nesse entardecer distante, o Paulo fez questão de me acompanhar a casa, num passo rápido - para despachar o assunto. Foi incisivo e breve: não gostava de mim, não sentia nada por mim, não queria que eu alimentasse sonhos impossíveis. À porta da minha casa, deu-me um beijo piedoso na face, virou-me as costas, desapareceu na esquina da rua. E eu fiquei ali, desfeita em lágrimas, o coração partido em mil pedaços pequenos, pequeninos, pequeníssimos, o pó e as cinzas do meu primeiro desgosto de amor, pensando desesperadamente que não importava se ele não sentia nada por mim - eu seria capaz de amar por nós os dois. 
Durante o festival torci muito pelo Salvador, gostei dele, da candura, da emoção, da verdade que parecia cantar de olhos fechados. E enquanto decorria a votação, pensava com os meus botões: Espero que seja só uma canção o que trazes no peito, porque se não for, deixa-te disso, Salvador. Não queiras nunca amar ou ser amado pelos dois, se numa relação existe um que ama pelos dois, o que não consegue amar partirá, mais cedo ou mais tarde, como partiu o meu Paulo naquele entardecer dos meus treze anos. Tu és jovem, Salvador, mas pela vida fora vais ver, aquele que não ama, inevitavelmente virará as costas, desaparecerá para sempre numa esquina da vida deixando o coração do que ama pelos dois partido em mil pedaços pequenos, pequeninos, pequeníssimos. Acredita em mim - não queiras cair nessa, Salvador.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Inventa-me um Final Feliz


Inventa-me um final feliz. Se quiseres, podes fazer-me acreditar - como diz a canção -, que afinal de contas, os rios nascem no mar... Inventa-me um final feliz, sem vilões nem lobos nem trovões nem facadas... Talvez uma guerra de perfumes, de flores, como a revolução dos cravos, tão linda, que incendiou um abril longínquo... Faz-me acreditar que há histórias que não arranham, não magoam, não fazem sangrar, sequer chorar... Inventa-me um final feliz, que ando tão cansada de enredos tristes... Arranca-me do peito este peso que me queima a vontade e fala-me na língua do mar, eu sei que tu consegues...
Conta-me uma história, uma qualquer, mesmo que falsa, pouco importa... desde que escrevas, para mim, um final feliz.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Crónicas do Vento Salgado


Estavam à minha frente na fila das caixas para pagamento num hipermercado da cidade. A criança ia sentada no fundo do carrinho, mordia com prazer uma chupeta amarela e tinha um livro colorido, de capa dura, entre as mãos. Os pais, com lentidão, descarregavam os produtos para o tapete rolante e falavam discretamente entre si. À medida que os produtos eram despejados, a criança ia ganhando espaço dentro do carrinho e acomodava-se, com o livro aberto e os olhos felizes... O registo dos produtos começou, a mãe da criança pediu-lhe o livro - Só um bocadinho querida, para a senhora ver quanto custa - e a menina, obediente e confiante, entregou o seu tesouro nas mãos da mãe. 
O carrinho passou. Pai e mãe começaram a ensacar as coisas já registadas, a criança tinha os olhos presos no tapete e no seu tesouro... O livro foi a última coisa a ser registada. Não esquecerei a felicidade que vi no rosto da criança no momento em que as pequeninas mãos lhe tocaram de novo... Sorri, consolada - uma criança que gostava de livros; uns pais que ofereciam livros à filha e com toda a certeza, que liam para ela... Que bonito sinal de primavera...!
E foi então que o pesadelo começou. A menina da caixa fez as perguntas do costume, anunciou as promoções do dia, apelativas, enfileiradas sobre a caixa e, finalmente, anunciou o total em dívida - São 78 euros. A mulher empalideceu, abriu o porta-moedas, tirou algumas notas. O homem cochichou, procurou nos bolsos, estendeu-lhe mais algum dinheiro. A mulher contou. Contaram ambos. Olharam em volta, envergonhadíssimos, sumidos. Conferenciaram. Depois, enquanto a mulher abria os sacos, o homem disse baixinho - Importa-se de anular alguns produtos? A funcionária olhou-me, atrás de mim não havia ninguém, pediu desculpa - Vai demorar um pouco -, carregou no botão para chamar a supervisora de loja e começou a anular os produtos que mãos trementes lhe estendiam: detergente de roupa, shampô, duas embalagens de leite com chocolate, fiambre. O casal pediu o total - ainda não chegava. Debruçaram-se então sobre a criança e pediram baixinho, com ternura, as notas da culpa na voz embaciada - Temos que entregar o livro à senhora, meu amor - a criança começou a chorar, depois gritava, alto, como quem não compreendia porque lhe roubavam o tesouro colorido. Pai e mãe tinham os olhos cravados no chão, consolavam a menina, esperavam a supervisora que viesse validar as anulações para poderem correr, fugir dali a sete pés. Vi-os partir com o coração apertado, ao colo da mãe a menina gritava, inconsolável, os pais caminhavam apressados de olhos no chão, o peso do mundo sobre os ombros jovens, esmagando-os...
Quando já todos os meus produtos estavam registados, pedi uma saca e disse à funcionária que levaria também os artigos que o casal tinha deixado. Ela ficou a olhar para mim, aparentemente sem compreender, depois encolheu os ombros e fez o que eu lhe tinha pedido.
Foi fácil encontrá-los numa das ruas paralelas... A criança ainda chorava quando encostei o carro à beira deles e os interpelei. Saí e pousei a saca no chão, junto dos seus pés - Peço desculpa, mas deixaram estas compras esquecidas no supermercado. Olharam-me espantados, incrédulos... Iam dizer qualquer coisa mas eu despedi-me e saí dali o mais rápido que pude. Pelo retrovisor ainda vi as três cabeças juntas, espreitando para dentro da saca... Uns quilómetros à frente, encostei o carro numa rua cheia de sol... As pernas tremiam-me... Respirei fundo, muito fundo. Depois, escondi o rosto nas mãos e chorei.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Nunca me esqueci de ti


E tu? Que palavras dirias a alguém, se soubesses que eram as últimas...?

segunda-feira, 6 de março de 2017

O Lume nos Dedos


Acende os dedos, um por um
Concebe a tua mão assim luminosa
para que os tendões sejam tocados
e a nudez se mova lentamente
através das pálpebras.

Acende os dedos e os ombros
e respira a força interna de um nome
para que a água estale nos lábios.
Acende o lugar e a sombra
e mergulha o rosto no segredo do espelho.

Acende os dedos, um por um,
esses afinal os degraus que conduzem
à morada dos astros e das raízes.


Vasco Gato, "O Lume nos Dedos" in IMO

quarta-feira, 1 de março de 2017

O outro lado do espelho


Não tenho tempo para mais nada, ser feliz me consome muito.

Clarice Lispector

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Do voo


De que adianta ser pássaro se não se tira os olhos do chão?

Valter Hugo Mãe, in Contabilidade

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

(...)


São tão frios os dias em que a poesia não me encontra.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Palavras Roubadas


Você é livre para fazer as suas escolhas, mas é prisioneiro das consequências.

Pablo Neruda

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Cá dentro


Digo-te que tenho medo. Tu sorris e abraças-me com aquele abraço teu de nuvem azul onde me escondo toda, onde me guardas inteira. Perguntas-me pelo meu silêncio e eu hesito (entenderás tu?) antes de te responder. Depois atrevo-me e conto-te do mar do meu silêncio onde há criaturas medonhas e venenosas com tentáculos de polvo que sempre me agarram. Digo-te que sonhei com a mulher que foi levada pelo mar e não voltou... Digo-te que às vezes o mar é assim, guarda no ventre criaturas que toma como suas e não as devolve nunca mais. Também o meu silêncio é um mar roubador - explico-te. Também eu sou prisioneira de vagas de silêncio, dias e dias sem vozes dentro de mim, afogada, enrolada numa onda negra silenciosa. No meu sonho, a mulher que o mar não devolveu tem os olhos abertos de terror e um rosto quase igual ao meu. 
Tenho medo - repito. O teu abraço ainda não acabou mas eu tenho medo, mesmo assim. Fecho os olhos e por momentos sou menina de bibe outra vez, jogo à macaca no recreio da escola, as tranças quase desfeitas saltam e batem-me nos ombros como chicotes. Sou pequenina outra vez... - tenho nódoas negras nas pernas e um sorriso infinito na boca pegajosa do pão com marmelada que a mamã pôs na lancheira. Rio, rio muito e muito alto... Porque sei nadar em todos os mares e ainda nenhuma onda me levou ao fundo, aos abismos silenciosos nos confins do mar mais profundo. 
Conto-te tudo em voz baixa e o abraço desfaz-se. Desfaz-se a rede na nuvem que me guardava e de novo sou arrastada, outra vez regresso ao fundo do medo do meu silêncio, onde ninguém me agarra. E onde me afogo.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Nem sempre os pinheiros são verdes


Grata à Poética Edições pelo convite, é uma honra integrar esta coletânea ao lado de tão caros amigos!
O meu conto chama-se "MEL"... Porque nenhum Natal devia ser triste. Nenhum Natal devia ser amargo.
Venha daí conversar connosco, afinal, é quase, quase Natal...

domingo, 13 de novembro de 2016

Penas


Não queiras do voo
somente o coração aflito

Entende que é teu por direito
também
o turbilhão de penas
que o vento revolta.

Obrigada!

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

As vozes de Isaque


É o meu regresso à Poesia. Ou melhor, é a minha reconciliação com a Poesia.
É possível um mundo sem poemas e sem poetas? - Se está por perto, venha conversar connosco.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Tudo ou nada


E tantas vezes uma palavra, uma só, arruína um texto, o devassa com vulgaridade... 
Tantas vezes, numa frase que parecia perdida, uma palavra - uma só - é a salvação.
Hoje, com uma palavra - uma única palavra - encontrei sem querer a perfeição.
Ofereci-a aos meus alunos: a palavra luz.

domingo, 9 de outubro de 2016

Aquela hora certa aquele lugar


Era tudo tão simples quando te esperava

Ruy Belo in Muriel

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

(...)

Às vezes
perigosamente
as veias coagulam
Não percebem:
viver é uma hemorragia calculada.

Ana Hatherly, in Fibrilações

domingo, 28 de agosto de 2016

Sem filtro


Encontrei a Amélia por acaso, enquanto deambulava pela feira medieval da cidade. Ela estava sozinha, junto de uma banca de artesanato e parecia indecisa na escolha de uma coroa de flores. Reconheci-a pelos magníficos cabelos, pelo porte altivo, pela tatuagem no braço. Tantos anos depois, a inconfundível Amélia estava ali, na minha frente, na minha cidade.
Conhecemo-nos na faculdade, caloiras ambas, curiosas ambas, estrangeiras ambas numa cidade que nos acolhia a solidão. E já nessa altura a Amélia era diferente de todas as raparigas: lindíssima, tinha os cabelos longos, longos, um corpo elegante e musculado e movia-se silenciosamente, com passos felinos. Era super popular entre os rapazes e, a brincar, dizíamos que para arranjarmos namorado tínhamos que deixar a Amélia em casa, porque ela nos ofuscava sem piedade... Ela ria e desprezava todos os pretendentes: os mais suplicantes, os arrogantes, os tímidos, os galanteadores, os convencidos. Na verdade, a Amélia usava os homens. Saía com todos, dormia com alguns, beijava a maior parte, não se comprometia com nenhum. Dizia que nunca se apaixonaria. Que o amor era uma treta e que ela não ia em tretas. No primeiro encontro, punha as cartas na mesa e definia as regras do jogo, que todos aceitavam, talvez na esperança de a fazer mudar de ideias. Mas a Amélia nunca mudou.
A história dela é triste e conta-se em duas palavras: filha única, tinha o pai na cadeia por ter assassinado a mãe à pancada; amava de paixão os avós maternos que a tinham criado e a quem devia tudo; e a tatuagem no braço encobria queimaduras de cigarro feitas pelo pai quando ela era ainda menina. Tudo isto era contado sem voz embargada, sem lágrimas nos olhos, sem tremuras nas mãos, como se fosse a coisa mais natural deste mundo. E aquela Amélia aparentemente dura e insensível, merecia de todas nós um profundo respeito - porque ela era genuína, porque a Amélia não tinha filtros.
Fomos comer um gelado, perguntei-lhe pelo F. - Acreditas que ele me encontrou no facebook e mesmo com dois divórcios em cima, ainda não desistiu??!! Diz que quer casar comigo! - e havia tristeza nos olhos da Amélia enquanto recordava aquele amor louco do F., que o levava a fazer serenatas à sua janela, a deixar presentes debaixo da cadeira onde ela se sentava, a montar-lhe infinitas esperas e perseguições pelas ruas da cidade...
A Amélia continua sozinha, o ventre firme e liso denunciando a ausência de gravidezes, o anelar despido de qualquer aliança que a prenda a um amor de treta. Continua bela, genuína e sem filtros. Depois de nos termos despedido, fiquei a vê-la afastar-se, com o cabelo coroado de flores, o passo felino debaixo do vestido solto e quase vi de novo o F., de joelho no passeio, uma mão sobre o coração, cantando tristemente de olhos fechados: Anda comigo, Amélia vem / que eu sou sozinho / não tenho ninguém...

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Da solidão


(...) a solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma árvore no meio duma planície onde só ela esteja, é a distância entre a seiva profunda e a casca, entre a folha e a raiz.

José Saramago, in O Ano da Morte de Ricardo Reis