terça-feira, 3 de março de 2020

Preparar a solidão


Perceber que já se perdeu tudo o que um dia mais se amou,
fazer ordinariamente horas extraordinárias,
ir a diário ao ginásio, esgotar o corpo,
andar frequentemente de bicicleta,
regressar a casa pelo caminho mais longo,
prestar atenção ao que acontece dentro da copa das árvores,
não ter animais de estimação, nem mesmo plantas,
ter coragem para não recolher um cão abandonado,
nas tardes de sol visitar jardins, dar milho aos pombos,
ser amante de livros, de música e de cinema,
guardar longe da vista todas as fotografias,
dançar pela casa, a vontade não precisa de par,
evitar pensar no sentido da vida,
ter um não sei quê de ave migratória,
manter a casa limpa, mudar os lençóis, fazer a cama,
ter em casa chá, chocolate e livros de poesia,
peças de fruta, álcool e cigarros nenhuns,
ter cola, tesoura, agulha, linha, pregos,
o necessário para pequenas reparações,
ter uma caixa de primeiros socorros,
cozinhar em pequenas quantidades,
investir numa chaleira,
numa botija para água quente,
num congelador,
viajar sempre para países distantes,
não ter medo da chuva nem do choro,
não ligar a televisão só para ter luz no escuro.

Raquel Cerejo Martins, "Exercícios de preparação para a solidão", in Página do Facebook

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Palavras roubadas


Passamos metade da vida à espera daqueles que amamos e a outra metade a deixar os que amamos.

Victor-Marie Hugo

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Por vezes

Por vezes,
de um dia que vivemos,
de um filme, de um poema,
por vezes de alguém,
conservamos uma palavra.
Não saberemos explicar porquê,
mas essa palavra aloja-se dentro do nosso
pensamento,
atravessa vagarosamente os nossos silêncios,
fecha-se à chave dentro de nós.

José Tolentino de Mendonça, in O hipopótamo de Deus e outros textos

terça-feira, 22 de outubro de 2019

O Mundo Todo


vou buscar-te ao fim da tarde,
porque a noite só escurece contigo ao
meu lado, porque a noite aprende por ti
o caminho aberto das estrelas

vou buscar-te ao fim da tarde,
e verás como preparei a casa, como
escolhi a música, como, enfim, espalhei
os objectos mais impressionados contigo,
os que ganharam vida por se interporem
na espessura estreita que vai do meu
ao teu coração

e não mais te devolvo, correndo todos os
riscos de não amanhecer nunca
numa loucura propositada por ti

não mais te devolvo,
ocuparás o mundo debaixo e sobre mim,
e não haverá mais mundo sem que seja assim.

valter hugo mãe, in Contabilidade


segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Palavras Roubadas


Esta ciência selvagem de investigar a força
por dentro dos olhos
(...)


Herberto Helder, in Ofício Cantante

terça-feira, 11 de junho de 2019

"Toda a Água que Nos Une"


Novinho em folha, o meu novo livro: Um pianista. Uma escritora. A história de um improvável amor na cidade onde é bom viver.

No dia em que entra o verão, sintam-se todos convidados!

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Escreve (me)


(...)
Talvez sejamos mais
do que pessoas, temos tamanhos diferentes
e não servimos nos lugares que nos foram destinados.

Escreve sempre que precisares de uma porta
onde caibas,
nunca trago chaves comigo.

Margarida Ferra, in Sorte de Principiante

segunda-feira, 8 de abril de 2019

SEI


Sei ao chegar a casa
qual de nós 
voltou primeiro do emprego

Tu

se o ar é fresco

Eu

se deixo de respirar
subitamente.


António Reis, in Novos Poemas Quotidianos

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Pretexto


Tudo no teu sorriso diz
que só te falta um pretexto 
para seres
feliz.

Mário Cesariny

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Não há machado que corte...!


Durante várias semanas tive o meu blogue censurado. Conseguia aceder à página, visualizar os conteúdos, mas não podia fazer publicações. A mensagem que me surgia deixou-me, este tempo todo, perplexa: Site malicioso, com origem desconhecida: conteúdos pornográficos.

A primeira vez que li a mensagem, passei o blogue a pente fino à procura de nudez explícita, linguagem indecorosa, qualquer coisa escandalosa e ofensiva - não encontrei nada. Não que eu não soubesse o que aqui tinha escrito, que imagens tinha escolhido, mas podia ter-se dado o caso de um ataque qualquer informático e um vírus ter corrompido os meus textos. Obviamente, aqui não existe nada de ofensivo, de indecoroso, de escandaloso, de violento, racista, xenófobo... Aqui sou só eu, sem fel nem azedume.
Tive muito trabalho, muita chatice, para poder recuperar este meu cantinho. Informaram-me os senhores invisíveis que houve uma denúncia e em caso de denúncia, que fazem os senhores corretíssimos que mandam nisto tudo? Vedam o acesso ao bloguer, pura e simplesmente. Não vão confirmar, não vão verificar, não vão ler: cortam. Ponto. Final.

Agora que tudo está, aparentemente, resolvido, espero regressar com normalidade à escrita, quando me apetecer, sempre que me apetecer. Aproveito para agradecer aos leitores que teimosamente ainda por aqui passam, e desejar-lhes um ano feliz. Ao anónimo que me denunciou e me arranjou uma carga de trabalhos, deixo também um abraço amigo e um desejo sincero: seja muito feliz, está bem?

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

2019...!


(Em 2019...),
Não devemos permitir que alguém saia da nossa presença sem se sentir melhor e mais feliz.

Madre Teresa de Calcutá


A todos os que me visitam, desejo um Feliz Ano Novo! 

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Ó Stora...


- Ó Stora, sabe porque é que o professor de Física terminou o namoro com a professora de Biologia?

E eu, que nem sequer sabia que eles namoravam, fiquei aparvalhada com a pergunta e respondi-lhes que não fazia a mais pálida ideia... Desmancharam-se a rir e lá responderam:

- Porque não havia Química!

(Danadinhos... Às vezes acho-lhes mesmo graça...!)

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Post-Scriptum


Que interessa quem amei mais? A minha mãe casou para se amparar, o tio Alberto amou toda a vida a cunhada e nem no leito de morte lho revelou, e a minha tia Inês negou-se ao rapaz por quem se apaixonou por estar prometida ao tio Alberto. Todos cumpriram as suas obrigações. Não terem acordado ao lado do objeto amado, não terem iniciado os gestos ou as palavras do amor não amputou a paixão. Amaram na presença e na ausência. É assim que se faz. O amor não anda ao nosso lado, o amor anda à solta nos peitos, como um pássaro engaiolado. Adormece-nos. Desperta-nos. Faz-nos sair e voltar a casa. Chorar. Rir. E se isto não é viver, o que é a vida?

Isabela Figueiredo, in A Gorda

sábado, 15 de setembro de 2018

Anda comigo ver o mar...


É sábado e digo-te Anda comigo ver o mar, que é a única coisa que conheço tão revolta como o meu coração. Anda comigo ver o mar, porque hoje é um sábado desigual, - não um sábado a mais nas nossas vidas, mas um sábado a menos. Anda comigo ver o mar, que atira as vagas enormes do seu corpo líquido contra os rochedos até que se desfaçam em espuma, sem um queixume - como eu. Anda comigo ver os azuis do mar em todos os entardeceres de veludo que ainda nos faltam e escuta com as mãos entre as minhas a canção das ondas - selvagem, sofrida, serena e silenciosa. Como eu. É sábado e quero ir contigo ver o mar salgado que sempre me espanta, tão igual ao meu coração... 
É sábado e eu pergunto aos teus olhos: Quem te disse que o mar é gelado...?

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Vox populi, vox Dei


Não importa quantos passos deste para trás; o que importa, é quantos passos agora vais dar para a frente.

(Provérbio chinês)

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Viva a vida...!


Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais... 
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.
Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.
As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...
P'ra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...

Sebastião da Gama, "Pequeno Poema"

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Palavras roubadas


A vida é uma hora,
mal nos dá tempo de amar tudo,
de ver tudo.
A vida sabe a musgo,
sabe a pouco a vida se não tiveres
mais mãos nas mãos que te deram.
No fim escolhemos um sítio perigoso,
um parapeito, uma via,
a ponta de um punhal onde passar a noite.

Gloria Fuertes, "A vida é uma hora", in Como cantava maio

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Fernando Pessoa - 130 anos de labirinto

Imagem: "Velho guitarrista cego", Pablo Picasso
Cheguei à janela,
Porque ouvi cantar.
É um cego e a guitarra
Que estão a chorar.
Ambos fazem pena,
São uma coisa só
Que anda pelo mundo
A fazer ter dó.
Eu também sou um cego
Cantando na estrada,
A estrada é maior
E não peço nada.
Fernando Pessoa, in Poesias Inéditas (1930-1935) 

Cá dentro


Conto a idade dos meus velhos: 90, 88, 83, 82 anos. Conto-lhes as rugas dos rostos, as fraldas que mudo, as vezes que faço nestum com mel ou cerélac, em quantos pedacinhos parto a pêra, a maçã, a laranja, o kiwi. Conto os banhos que dou, os medicamentos que coloco ao lado dos pratos: 17, 13, 9, 7 comprimidos. Conto as pomadas. Conto as voltas que dou à chave do relógio da sala de jantar para que a corda não pare: uma, duas, três, quatro... Conto as colheres de sopa, as camisas de dormir, os pijamas molhados e os vomitados, as babetes. Conto os sorrisos, quando chego ao fim do dia: um, dois. Conto os olhos vazios à minha volta, as tremuras das mãos engelhadas, os cabelos brancos ralos, cada vez mais ralos. Conto os terços, os pai-nossos, as avé-marias. Conto os sacos de compras. Conto as batidas do meu coração quando chego lá acima a correr, porque estou atrasada: pum-pum, pum-pum, pum-pum. Conto-as para saber se ainda estou viva. Para acreditar que ainda estou viva.
Às vezes também conto cansaços. E insónias. E solidões. E tantas tristezas, que lhes perco a conta se tento somá-las - arreganham-me os dentes e mordem-me a memória... E deixam rastozinhos de sangue. Já não conto lágrimas - a soma seria só um lago muito fundo, de águas paradas negras, negras, negras.