terça-feira, 22 de novembro de 2016

Nem sempre os pinheiros são verdes


Grata à Poética Edições pelo convite, é uma honra integrar esta coletânea ao lado de tão caros amigos!
O meu conto chama-se "MEL"... Porque nenhum Natal devia ser triste. Nenhum Natal devia ser amargo.
Venha daí conversar connosco, afinal, é quase, quase Natal...

domingo, 13 de novembro de 2016

Penas


Não queiras do voo
somente o coração aflito

Entende que é teu por direito
também
o turbilhão de penas
que o vento revolta.

Obrigada!

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

As vozes de Isaque


É o meu regresso à Poesia. Ou melhor, é a minha reconciliação com a Poesia.
É possível um mundo sem poemas e sem poetas? - Se está por perto, venha conversar connosco.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Tudo ou nada


E tantas vezes uma palavra, uma só, arruína um texto, o devassa com vulgaridade... 
Tantas vezes, numa frase que parecia perdida, uma palavra - uma só - é a salvação.
Hoje, com uma palavra - uma única palavra - encontrei sem querer a perfeição.
Ofereci-a aos meus alunos: a palavra luz.

domingo, 9 de outubro de 2016

Aquela hora certa aquele lugar


Era tudo tão simples quando te esperava

Ruy Belo in Muriel

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

(...)

Às vezes
perigosamente
as veias coagulam
Não percebem:
viver é uma hemorragia calculada.

Ana Hatherly, in Fibrilações

domingo, 28 de agosto de 2016

Sem filtro


Encontrei a Amélia por acaso, enquanto deambulava pela feira medieval da cidade. Ela estava sozinha, junto de uma banca de artesanato e parecia indecisa na escolha de uma coroa de flores. Reconheci-a pelos magníficos cabelos, pelo porte altivo, pela tatuagem no braço. Tantos anos depois, a inconfundível Amélia estava ali, na minha frente, na minha cidade.
Conhecemo-nos na faculdade, caloiras ambas, curiosas ambas, estrangeiras ambas numa cidade que nos acolhia a solidão. E já nessa altura a Amélia era diferente de todas as raparigas: lindíssima, tinha os cabelos longos, longos, um corpo elegante e musculado e movia-se silenciosamente, com passos felinos. Era super popular entre os rapazes e, a brincar, dizíamos que para arranjarmos namorado tínhamos que deixar a Amélia em casa, porque ela nos ofuscava sem piedade... Ela ria e desprezava todos os pretendentes: os mais suplicantes, os arrogantes, os tímidos, os galanteadores, os convencidos. Na verdade, a Amélia usava os homens. Saía com todos, dormia com alguns, beijava a maior parte, não se comprometia com nenhum. Dizia que nunca se apaixonaria. Que o amor era uma treta e que ela não ia em tretas. No primeiro encontro, punha as cartas na mesa e definia as regras do jogo, que todos aceitavam, talvez na esperança de a fazer mudar de ideias. Mas a Amélia nunca mudou.
A história dela é triste e conta-se em duas palavras: filha única, tinha o pai na cadeia por ter assassinado a mãe à pancada; amava de paixão os avós maternos que a tinham criado e a quem devia tudo; e a tatuagem no braço encobria queimaduras de cigarro feitas pelo pai quando ela era ainda menina. Tudo isto era contado sem voz embargada, sem lágrimas nos olhos, sem tremuras nas mãos, como se fosse a coisa mais natural deste mundo. E aquela Amélia aparentemente dura e insensível, merecia de todas nós um profundo respeito - porque ela era genuína, porque a Amélia não tinha filtros.
Fomos comer um gelado, perguntei-lhe pelo F. - Acreditas que ele me encontrou no facebook e mesmo com dois divórcios em cima, ainda não desistiu??!! Diz que quer casar comigo! - e havia tristeza nos olhos da Amélia enquanto recordava aquele amor louco do F., que o levava a fazer serenatas à sua janela, a deixar presentes debaixo da cadeira onde ela se sentava, a montar-lhe infinitas esperas e perseguições pelas ruas da cidade...
A Amélia continua sozinha, o ventre firme e liso denunciando a ausência de gravidezes, o anelar despido de qualquer aliança que a prenda a um amor de treta. Continua bela, genuína e sem filtros. Depois de nos termos despedido, fiquei a vê-la afastar-se, com o cabelo coroado de flores, o passo felino debaixo do vestido solto e quase vi de novo o F., de joelho no passeio, uma mão sobre o coração, cantando tristemente de olhos fechados: Anda comigo, Amélia vem / que eu sou sozinho / não tenho ninguém...

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Da solidão


(...) a solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma árvore no meio duma planície onde só ela esteja, é a distância entre a seiva profunda e a casca, entre a folha e a raiz.

José Saramago, in O Ano da Morte de Ricardo Reis

terça-feira, 26 de julho de 2016

Palavras Roubadas


- Andamos a regar flores de plástico, é isso que fazemos. Temos coisas que não servem para nada. É tudo plástico. E nós regamos essas flores e esperamos que cheirem a coisas boas. Mas é plástico. Temos coisas, em vez de tentarmos ser felizes, substituímos a vida por plástico, a felicidade por plástico e o próprio plástico, por plástico. Trabalhamos para regar uma vida destas.

Afonso Cruz, in O Cultivo de Flores de Plástico

sábado, 16 de julho de 2016

Viva a vida...!


Um diplomata é alguém que se lembra sempre do aniversário de uma mulher, mas nunca da sua idade.
Robert Frost

(...52, sim senhor. E daí...???? Viva a vida!!!!)

quarta-feira, 6 de julho de 2016

O céu de julho


É mais azul, o céu de julho. É um céu mais sereno, com brandos aguaceiros que nos pousam nos ombros sem pedir casacos sobre a pele despida. Debaixo do céu de julho, sou sempre mais feliz, mais calma, mais calada... Debaixo do céu de julho, abro gavetas que só são escancaradas nesta altura do ano, e é em julho que visito sem medo o cemitério onde sepultei os sonhos perdidos, onde pousei os de asas cortadas... 
Em julho acredito que tudo é possível, porque um azul tão azul, não existe em vão...
Caminho debaixo do céu de julho, dentro de um vestido que não usava há quatro anos. O vestido continua a ser belo. É julho e eu continuo a sentir-me bela dentro do meu vestido que esvoaça à volta do meu corpo com asas de algodão macio. É um vestido azul - de um azul único -, como só o consegue ser o céu de julho. Dentro do meu vestido de nuvem, penso que por mais que me custe a acreditar, julho regressa. E quase sempre, ainda que tão estranho pareça, a vida resolve-se sozinha.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

20 anos de silêncio


A sedutora, quando envelhece,
é como a água parada de certos tanques:
sob o Sol ou sob a chuva, ainda orgulhosa
de ser água.

David Mourão-Ferreira, "LXV" in Jogo de Espelhos

domingo, 29 de maio de 2016

Palavras Roubadas


Deixa-te ficar comigo à beira do rio.
Entardeceu. Não procures o vulgar brilho da beleza
nem a sedução da mocidade.
Se te falarem dos deuses, finge entender.
E se chamarem poeta ao dono do circo,
concorda gravemente.

Luís Filipe Castro Mendes, in Os Dias Inventados

domingo, 22 de maio de 2016

Crónicas do Vento Salgado


Do outro lado da rua - num 1º andar  soalheiro -, mora uma velha cega. Daqui só consigo ver a porta e talvez metade da cozinha, através dos vidros da varanda marquizada onde há uma janela que nunca se fecha. 
À tarde, a velha senta-se numa cadeira baixa e, durante horas, sega as couves que alguém lhe deixa ficar dentro de enormes alguidares de alumínio. E, de alguidar em alguidar, mecanicamente, as couves são segadas devagar, por mãos engelhadas cujo tino não é ditado pelo rumo dos olhos. Quando termina um alguidar, a velha cega enche saquinhos de plástico com as tirinhas finas de couve que alguém comprará apressadamente no mercado da cidade e servirá depois, à mesa de um restaurante ou talvez em casa, transformadas em caldo verde saboroso. Findas as couves, a velha cega lava as mãos na torneira de um pequeno tanque, debruça-se sobre a janela que nunca se fecha, bate palmas e chama: "Faísca! Faísca...!". E se ele se demora, bate palmas de novo, de novo volta a chamar: Ó Faíscaaaaa...!". Mas quase nunca ele tarda, aparece correndo, salta os telhados e as varandas e entra pela janela que nunca se fecha. Então a velha recebe-o com sorrisos, senta-se na cadeira pequenina e fica com o gato no colo, passando-lhe a mão pelas costas, demoradamente, com os olhos cegos atirados para o sol do dia que se põe, os lábios movendo-se em prece, ou quem sabe, cantarolando uma canção triste... 
Na semana passada, quando cheguei a casa, reparei na janela fechada. Reparei na cadeira vazia. Reparei no silêncio da varanda... E era um silêncio tumular. Depois apareceu o Faísca, negro como breu, e durante horas miou desconsoladamente no peitoril da varanda do lado, chamando talvez a sua velha cega, reclamando da janela fechada. 
Hoje contaram-me na padaria que a velha cega não voltará mais. E não se fala noutra coisa, diz-se que há já muitas noites que o Faísca chora tristemente, ignorando a comida que lhe atiram os vizinhos apiedados, recusando responder ao chamado do seu nome, rejeitando outras janelas abertas na noite. Eu mesma o vi agora há pouco... Rondando o silêncio num choro triste, procurando a sua janela e o colo meigo, o Faísca brilhava na escuridão como uma centelha de dor imensa, chamando a sua velha, teimando entrar na casa que ainda não sabe que já não tem.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Ainda assim, mesmo assim




Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor.

Carlos Drummond de Andrade, in As Impurezas do Branco

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Quando as palavras falham




Aqui o mar é sono perpétuo,
câmara para o mais terrível segredo.
Entro nele de mãos trémulas, certo
das minhas cedências. Recordo o sabor
salino de outras perdas, casas tombadas
das quais sou solitária ruína.
Eu, que tanto tenho dado à insónia,
embebo-me agora nas águas de outro dialecto
– as palavras falham, e essa é a comunicação.

Vasco Gato, in Napule

terça-feira, 3 de maio de 2016

Vem comigo


vem comigo
praticar essa arte imemorial de quem espera
não se sabe o quê junto à janela
encolho-me
como se fechasse uma gaveta para sempre
caminhasse onde caiu um lenço
mas levanto os olhos
quando o verão entra pelo quarto e devassa
esta humilde existência de papel

vem comigo
as palavras nada podem revelar
esqueci-as quase todas onde vislumbro um fogo
pegando fogo ao corpo mais próximo do meu


Al Berto, "Vem comigo" (excerto), in O Medo

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Do ódio


O amor acrescenta-nos com o que amarmos. O ódio diminui-nos. Se amares o universo, serás do tamanho dele. Mas quanto mais odiares, mais ficas apenas do teu. Porque odeias tanto? Compra uma tabuada. E aprende a fazer contas.

Vergílio Ferreira, in Pensar

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Da Escolha


Todas as vitórias ocultam uma renúncia.

Simone de Beauvoir

quarta-feira, 13 de abril de 2016

No dia de um beijo


Se partiste, não sei.
Porque estás,
Tanto quanto sempre estiveste.

Moras dentro,
Sem deus nem adeus.

Mia Couto, in Vagas e Lumes

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Teoria Geral do Afastamento


E depois, o tempo. A música ao longe, dentro dos ouvidos, ecoando ininterruptamente nas escadas dos dias: A vida é sempre a perder... - não é assim que diz a canção? 
Contava-te, não me esqueci: o tempo. A rir-se de nós, das nossas ideias inocentes de que o amor e a amizade são mais fortes do que o afastamento. Do que a morte. Mas - dizia eu -, o tempo. Esse sábio professor: o tempo. A provar que não há dor maior do que a do afastamento. E não, não falo de distância física... É da outra que eu falo, da distância daqueles que defenderíamos com unhas e dentes, daqueles que amamos mesmo, mesmo, só porque sim, apesar dos defeitos, das imperfeições, das escolhas erradas. Falo dos amigos que amamos na cegueira das semanas, dos meses, dos anos, daqueles que contamos sempre quando contamos a família, daqueles cujo nome dizemos dentro de nós no momento em que sopramos as velas do bolo no nosso aniversário. É desses de quem eu falo. Dos que nos fariam mover montanhas, se preciso fosse. Mas depois, o tempo. Um dia, sem o esperarmos, o afastamento - e alguém deixa de dizer o nosso nome, deixamos de contar na lista de presenças do coração. 
A vida é sempre a perder... - dizia-te. E percebemos que estamos sós, quando na lista do nosso coração, ninguém responde à chamada. Porque ninguém nos ouve, ninguém nos vê - pois, vê lá tu, por causa do tempo...

terça-feira, 5 de abril de 2016

Ó Stora...


Para isso existem as escolas: não para ensinar as respostas, mas para ensinar as perguntas. As respostas nos permitem andar sobre a terra firme. Mas somente as perguntas nos permitem entrar pelo mar desconhecido.

Rubem Alves

(Alguém tem dúvidas, meus senhores...?)


sábado, 19 de março de 2016

Os afectos


Porque o quadrado da hipotenusa
é igual a já não sei quê dos catetos
a traça do passado é tão confusa
mas tão límpida a lembrança dos afectos
são fartos e temíveis
são as cordas sensíveis
quietos irrequietos
pra sempre
politicamente incorrectos
os afectos, os afectos.

Sérgio Godinho, in Os Afectos 

segunda-feira, 7 de março de 2016

Palavras roubadas


Eu nem sequer gosto de escrever. Acontece-me às vezes estar tão desesperado que me refugio no papel como quem se esconde para chorar. E o mais estranho é arrancar da minha angústia palavras de profunda reconciliação com a vida.

Eugénio de Andrade

(Roubo-te as palavras, Eugénio. Roubo-tas e faço de conta que acredito no que dizes, meu grandessíssimo mentiroso... Faço de conta e minto eu também.
Eu, que nem sequer gosto de escrever...).

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Sebastião


Era o mais pequenino da ninhada. O mais frágil. O mais feio. Quando os fui ver, os irmãos correram para mim numa alegria felina, queriam-me o colo, os afagos, encheram a sala de miados ruidosos. E ele ficou encostado no canto em que estava, fitando-me de longe com os seus olhos de mar, estrábicos, mas límpidos. O mais feioso, o mais pequeno, o mais triste dos gatinhos, aquele que ninguém escolheria, - suponho eu -, foi o que eu trouxe para viver connosco. Chamei-lhe Sebastião, mas para nós acabou por ficar apenas Sebi.
Era um gato doce e meigo como nunca soube de nenhum. Conhecia-me os humores, adivinhava-me os medos, consolava-me as lágrimas deitando-se ao meu lado, só ronronando e olhando-me com os seus olhos de mar. Talvez por isso, dei o nome dele ao gato do protagonista do meu livro - de certo modo, queria eternizar num livro uma criaturinha que amei tanto, que me amou - incondicionalmente - tanto.
Hoje, o meu Sebastião soube que dezasseis anos era uma vida longa, muito longa para um gato, e decidiu partir. Estava ao meu colo quando o coração deixou de bater e não me ofereceu o azul líquido dos seus olhos... Talvez porque ele soubesse, tão bem como eu, que às vezes o mar escurece, desiste do azul, se cobre de negro, de luto, de infinita tristeza...
Como os corações humanos. 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Palavras roubadas


Amar é dar o que não se tem.

Jacques Lacan

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Vale a pena pensar nisto


Foi então que tocaram à campainha. Resmunguei qualquer coisa do género "quem será o chato que vem a esta hora bater-nos à porta?". Lembrei-me do conselho da minha tia Clara, "atende sempre a porta com a carteira pendurada no braço: se for algum chato, dizes olha que pena, vou já sair!; se for algum amigo, largas a carteira e dizes: olha que bom, cheguei agora mesmo!".

Alice Vieira, in Bica Escaldada

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016


Lembro-me sempre dela no Carnaval. Ou melhor, lembro-me mais dela no Carnaval... Talvez porque ambas o odiávamos pelos mesmos motivos.
Vivemos juntas durante três anos, companheiras de quarto num lar feminino rigoroso, ambas universitárias na mesma faculdade, em cursos diferentes. Eu gostava dela por todas as razões e o que nos tornou inseparáveis era inexplicável, talvez a solidão, talvez as vivências que trazíamos, talvez uma igual sensibilidade. Mas nada disso importa, agora.
Há trinta anos que não encontro a Té, que não sei nada dela, que não conheço ninguém que a conheça. Mas vejo-a ainda com toda a nitidez, com o rosto verde por causa da máscara de argila que punha todas as quartas-feiras à noite. A Té tinha o cabelo oleoso e fino e lavava-o todos os dias; escovava os dentes com carvão uma vez por semana para que ficassem mais brancos... - e ficavam; a Té era mais velha do que eu um ano e protegeu-me de todas as praxes, de todos os doutores, de todas as maldades; foi com a Té que eu fui ver ao cinema "O Império dos Sentidos" e a "Emmanuelle", entrámos e saímos coladas com as paredes para que ninguém nos visse, desatámos a correr pela avenida acima até nos sentirmos em segurança no nosso quarto, a rir como tolinhas da transgressão feita; a Té conseguia secar e esticar o meu cabelo como mais ninguém conseguiu; quando vinha de fim de semana, a Té trazia bolachas amanteigadas numa lata azul redonda, que comíamos pela noite fora na véspera das frequências; a Té conseguiu namorar o rapaz mais bonito e desejado do grupo e ele partiu-lhe o coração em mil pedaços muito pequeninos...; a Té aparava-me as saídas ilícitas aos fins de semana, falava com a minha mãe ao telefone, e tinha sempre uma desculpa credível para justificar a minha ausência; a Té fazia-me perguntas sobre a matéria antes dos exames e às vezes, faltava às aulas comigo; a Té tinha os olhos verdes, lindíssimos, e as pestanas enormes; e foi com a Té que eu vi nevar pela primeira vez, o chão da cidade branquinho e nós na rua, com os olhos a brilhar muito, muito...
Chamava-se Teresa, mas para mim era apenas a Té.
Um dia, alguém do quarto ao lado inventou que eu disse coisas que não disse, ela acreditou, nunca mais me falou e eu sofri horrivelmente.
A Té terminou o curso primeiro do que eu, voltou para a cidade dela e não me procurou nas vezes em que voltou à universidade. Os anos passaram, a vida passou, e eu continuo a lembrar-me dela sempre. Nos últimos dez anos procurei-a em todo o lado: nas listas de professores a que tenho acesso, nos congressos, no Facebook e outras redes sociais, pergunto às pessoas que sei que são ou que vão à cidade onde ela morava... Nunca a encontrei. Parece-me incrível e assustador que na era digital, na era da comunicação e da transmissão da informação à velocidade da luz, na sociedade do Big Brother onde deixamos rasto por todo o lado onde passamos, eu não consiga, de forma nenhuma, encontrar a minha Té.
Onde mais te procuro, Té? Diz-me: onde é que te encontro?

sábado, 6 de fevereiro de 2016

O nó das sombras


Ninguém sabe ao certo quando foi que ela começou a entristecer. Ninguém se deu conta, porque foi acontecendo devagar, tão devagar como o sol quando desce e lentamente vai cobrindo de sombras as copas das árvores nas montanhas... E se primeiro ficam escuras as montanhas, depois são os prados, os rios, e de repente, mar e céu, tudo são sombras da mesma cor da sombra da noite. Da sombra da morte.
Foi assim que aconteceu com ela, como um sol que se põe. Devagar. Sem ninguém perceber. 
Um dia deixou de cantar, mas a família não notou. Os amigos não notaram. Tempos mais tarde (quando...?), davam com ela de olhos parados, colados no vazio, ou lendo para dentro (quem sabe...?) as histórias que guardava no peito... Chegou uma altura (qual...?) em que percebiam já todos que ela se assustava quando falavam com ela, como se habitasse num outro lado do tempo onde o ponteiro das horas girava em sentido inverso... Depois, deixou de sorrir. E de ter coisas para contar. Deixou de falar. E cobriu os olhos de sombras escuras, da cor da noite. Cobriu o rosto de véus de tristeza e de silenciosas solidões. Talvez tenha sido então (seria...?) que todos notaram - e era tarde. 
Impossível resgatar do breu da noite a luz de um sol que se apagou para sempre. 

domingo, 31 de janeiro de 2016

Como uma árvore


Como uma árvore, às vezes penso, o homem pode subir alto, mas as raízes não sobem. Estão na terra, para sempre, junto da infância e dos mortos.

Vergílio Ferreira, in Alegria Breve

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Arrependi-me sempre das palavras


Nunca me tinha apaixonado verdadeiramente. A partir dos dezasseis anos, conheci muitas mulheres, senti algo por todas. Quando lhes lia no rosto um olhar diferente, demorado, deixava-me impressionar e, durante algumas semanas, achava que estava apaixonado e que as amava. Mas depois, o tempo. Sempre o tempo como uma brisa. Uma aragem suave, mas definitiva, a empurrar-me os sentimentos, a deixá-los lá ao fundo e a mostrar-me na distância que eram pequenos, muito pequenos e sem valor. E sempre só a solidão. Sempre. Eu sozinho, a viver. Sozinho, a ver coisas que não iriam repetir-se; sozinho, a ver a vida gastar-se na erosão da minha memória. Sozinho, com pena de mim próprio, ridículo, mas a sofrer mesmo. Nunca me tinha apaixonado verdadeiramente. Muitas vezes disse amo-te, mas arrependi-me sempre. Arrependi-me sempre das palavras.

José Luís Peixoto, in Uma Casa na Escuridão

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Insomnia


Pregada no silêncio como uma estrela quieta, no céu escuro.
Dançam incêndios na insónia da minha noite e na praça o relógio bate as horas, lentamente.
Não as conto.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Feliz 2016!


O futuro está cheio de momentos impossíveis à espera de acontecerem.

José Luís Peixoto, in Galveias

(Em 2016, que todos os impossíveis sonhados nos aconteçam...
A si que me visita, obrigada por continuar por aqui, desejo-lhe um Feliz Ano Novo!)