quarta-feira, 7 de março de 2018

E quando tu depois


E quando tu depois
chegaste, surpreso
e dobraste as esquinas do tempo
como quem chega sem contar
a uma rua cheia de sol
era ainda o vento áspero
das marés vivas.
Mas nós sabíamos

Era já tão tarde nos teus olhos
era tão tarde já dentro dos meus.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Crónicas do Vento Salgado


Mudei de casa há pouco mais de um ano. Foi amor à primeira vista, esta casa pequena, cheia de sol, encravada num bairro tranquilo e moderno. Não conheço os meus vizinhos. Nem os da frente, nem os de cima, nem os de baixo. Temos horários diferentes e nunca nos cruzamos no elevador ou nas garagens. O meu conhecimento dos meus vizinhos resume-se a sons, coisas que oiço e que, um ano depois, me vão sendo familiares. Sei que por cima de mim vive um casal com duas filhas, é o pai quem dá banho às crianças enquanto a mãe faz o jantar. Ouço-lhes as vozes, os risos, as correrias com os pés descalços, os brinquedos que caem ao chão, a banheira a encher-se de água ao fim do dia, a televisão no canal Panda. Mas não lhes conheço os rostos. 
O apartamento por baixo de mim está fechado durante a semana. Só à sexta-feira à noite se enche de vozes, duas, por vezes três vozes diferentes. Ao fim de semana há portas a bater, persianas que se levantam ruidosamente, muito barulho com as louças na cozinha por baixo da minha. Quem são estas pessoas que chegam à sexta e partem ao domingo à tarde, permanece um mistério para mim, neste ano em que cá vivo. No entanto, noto-lhes a ausência se em algum fim de semana o apartamento permanece silencioso, como a boca negra de uma gruta fria.
E depois há o vizinho da frente, aquele sobre quem eu sei mais coisas, de todos os meus vizinhos. Chega tarde, muito tarde, e compensa o ruído do elevador com um bater a porta de mansinho. Vive só. Janta quando chega, mas está pouco tempo na cozinha, e não vê televisão. O meu vizinho da frente ouve música clássica, baixinho, sem interrupção. Está muito tempo na varanda encostada à minha, e sinto-lhe o cheiro do cigarro. Ouço as mensagens que lhe entram no telemóvel e muito raramente, fala ao telefone - conversas rápidas e tardias. O meu vizinho da frente faz-me sempre evocar o poema "Regras do Esquecimento", em especial o verso Não esqueças sobretudo de olhar devagar. Não sei porquê. Talvez porque o ache uma ilha distante, ou um náufrago numa ilha distante, não sei bem... Talvez porque o meu vizinho da frente é misterioso no seu viver, sempre igual, mesmo aos fins de semana quando os de cima cantam a quatro vozes e os de baixo abrem janelas com vigor. 
Todos os dias eu tento, como no verso do Vasco Gato, ouvir devagar o que me chega para além das minhas paredes pintadas de amarelo clarinho: às vezes escrevo histórias sobre os meus vizinhos. Mas ao vizinho da frente dei um nome que não sei se ele tem, um rosto com rugas que talvez não existam; aprisionei-o numa estória bonita, por onde ele anda com passos lentos e serenos, ao som de uma música suave e com o luar pousado nos ombros, como o homem eternamente preso na lua - das histórias que a minha avó me contava como segredos.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Teu Nome


(...)
A cidade está deserta,
E alguém escreveu o teu nome em toda a parte:
Nas casas, nos carros, nas pontes, nas ruas.
Em todo o lado essa palavra
Repetida ao expoente da loucura!
Ora amarga! ora doce!
Pra nos lembrar que o amor é uma doença,
Quando nele julgamos ver a nossa cura!


(A ouvir até à exaustão) Ornatos Violeta, "Ouvi Dizer" (excerto)

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Palavras maravilhosas

Bem podias
trazer-me uma flor,
uma fatia de lua ainda morna,
algumas notas afinadas 
de violino ou piano…
Não me saem bem os versos
sem estas coisas
reservadas aos sonhos.
Bem podias
entrar no poema, agora
antes que seja tarde
e me encontres acordada.

Lídia Borges, in Seara de Versos (http://searasdeversos.blogspot.pt/)

domingo, 28 de janeiro de 2018

Um minuto


Dizia-te do minuto certo. Do minuto certo do amor. Dizia-te que queria olhar para os teus olhos e ter a certeza que pensavas em mim. Que me pensavas por dentro. Que era eu a tua fantasia, o teu banco de trás. O teu desconforto de calças caídas, de pernas caídas, da rua que não estava fechada porque nenhuma rua se fecha para o amor.
Na cidade do meu sono, havia palmeiras onde alguns repetiam putas e charros e atiravam pedras ao rio. Mas eu nunca gostei de clichés. Nem de quartos de hotel. Nem de camas que não conheço. Eu nunca abri as pernas, entendes? Nunca abri as pernas no liceu. Nunca abri as pernas aos dezassete anos, de cigarro na mão. Eu nunca me comovi com o sonho de ser tua. Eu nunca quis que ficasses, entendes? Que viesses. Queria que quisesses de mim esse minuto certo, essa rua húmida de ser norte. Queria que me quisesses certa, exacta, como o minuto onde me pudesses encontrar. Eu nunca quis de ti uma continuidade, mas um alívio, uma noção de ser gente, entendes? Eu nunca quis de ti o sonho do sono ou da viagem. Nunca te pedi o pequeno-almoço, a ternura. Nunca te disse que me abraçasses por trás, que adormecesses. Eu nunca quis que me desses casa e filhos e lógica. Que me convidasses para dançar. Queria os teus olhos a fecharem-se comigo por dentro e tu por dentro de mim.
Queria de ti um minuto. Um minuto.

Filipa Leal, "O Minuto Certo" in, «Egoísta n.º 32», Setembro 2007

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Espelho meu


Há-de haver um espelho onde os meus olhos voltem a ser os meus olhos. Onde o brilho espelhado seja o da minha alegria, tão igual à de quando era menina e corria para a escola com a pasta apertada contra o peito para sentir o cheiro do pão com queijo e marmelada, que haveria de comer no recreio de todas as ilusões. Há-de haver um espelho que me devolva o norte e a luz. Não sei onde, talvez atrás dos montes da minha infância, com as tangerineiras carregadas de frutos inchados, rubros, que me manchavam as mãos e as perfumavam de sumo para todo o dia. Há-de haver numa noite, um espelho onde eu não faça contas à vida nem às rugas. Um espelho redondo, sem princípio nem fim, como os dias de esperas eternas. Há-de haver um espelho onde eu não escreva o teu nome com o dedo, devagar, como só devagar se pode falar das profundezas do mar sem fim, de poesia e de sonhos, de castelos e de deuses. Há-de haver um espelho, algures, um qualquer dia, que responda. Que não me mostre os meus fantasmas. Um espelho de água que engula o rasto das minhas lágrimas. E me devolva o arrepio.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Na Mágoa Maior do Tempo


Fica ao menos o tempo de um cigarro, evita
comigo que este tempo ande. Lá fora são
as casas, vive gente à luz de um candeeiro,
o som que nos chega apagado pela distância
só denuncia o nosso silêncio interrompido.
Ajuda-me, faremos o inventário das coisas
menos úteis, mágoas na mágoa maior do tempo.
Fica, não te aproximes, nenhum dia
é menos sombrio, quando anoitecer vamos ver
as árvores cercando a casa.

Helder Moura Pereira, in Entre o Deserto e a Vertigem