terça-feira, 9 de outubro de 2018

Post-Scriptum


Que interessa quem amei mais? A minha mãe casou para se amparar, o tio Alberto amou toda a vida a cunhada e nem no leito de morte lho revelou, e a minha tia Inês negou-se ao rapaz por quem se apaixonou por estar prometida ao tio Alberto. Todos cumpriram as suas obrigações. Não terem acordado ao lado do objeto amado, não terem iniciado os gestos ou as palavras do amor não amputou a paixão. Amaram na presença e na ausência. É assim que se faz. O amor não anda ao nosso lado, o amor anda à solta nos peitos, como um pássaro engaiolado. Adormece-nos. Desperta-nos. Faz-nos sair e voltar a casa. Chorar. Rir. E se isto não é viver, o que é a vida?

Isabela Figueiredo, in A Gorda

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

sábado, 15 de setembro de 2018

Anda comigo ver o mar...


É sábado e digo-te Anda comigo ver o mar, que é a única coisa que conheço tão revolta como o meu coração. Anda comigo ver o mar, porque hoje é um sábado desigual, - não um sábado a mais nas nossas vidas, mas um sábado a menos. Anda comigo ver o mar, que atira as vagas enormes do seu corpo líquido contra os rochedos até que se desfaçam em espuma, sem um queixume - como eu. Anda comigo ver os azuis do mar em todos os entardeceres de veludo que ainda nos faltam e escuta com as mãos entre as minhas a canção das ondas - selvagem, sofrida, serena e silenciosa. Como eu. É sábado e quero ir contigo ver o mar salgado que sempre me espanta, tão igual ao meu coração... 
É sábado e eu pergunto aos teus olhos: Quem te disse que o mar é gelado...?

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Vox populi, vox Dei


Não importa quantos passos deste para trás; o que importa, é quantos passos agora vais dar para a frente.

(Provérbio chinês)

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Viva a vida...!


Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais... 
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.
Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.
As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...
P'ra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...

Sebastião da Gama, "Pequeno Poema"

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Palavras roubadas


A vida é uma hora,
mal nos dá tempo de amar tudo,
de ver tudo.
A vida sabe a musgo,
sabe a pouco a vida se não tiveres
mais mãos nas mãos que te deram.
No fim escolhemos um sítio perigoso,
um parapeito, uma via,
a ponta de um punhal onde passar a noite.

Gloria Fuertes, "A vida é uma hora", in Como cantava maio

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Fernando Pessoa - 130 anos de labirinto

Imagem: "Velho guitarrista cego", Pablo Picasso
Cheguei à janela,
Porque ouvi cantar.
É um cego e a guitarra
Que estão a chorar.
Ambos fazem pena,
São uma coisa só
Que anda pelo mundo
A fazer ter dó.
Eu também sou um cego
Cantando na estrada,
A estrada é maior
E não peço nada.
Fernando Pessoa, in Poesias Inéditas (1930-1935) 

Cá dentro


Conto a idade dos meus velhos: 90, 88, 83, 82 anos. Conto-lhes as rugas dos rostos, as fraldas que mudo, as vezes que faço nestum com mel ou cerélac, em quantos pedacinhos parto a pêra, a maçã, a laranja, o kiwi. Conto os banhos que dou, os medicamentos que coloco ao lado dos pratos: 17, 13, 9, 7 comprimidos. Conto as pomadas. Conto as voltas que dou à chave do relógio da sala de jantar para que a corda não pare: uma, duas, três, quatro... Conto as colheres de sopa, as camisas de dormir, os pijamas molhados e os vomitados, as babetes. Conto os sorrisos, quando chego ao fim do dia: um, dois. Conto os olhos vazios à minha volta, as tremuras das mãos engelhadas, os cabelos brancos ralos, cada vez mais ralos. Conto os terços, os pai-nossos, as avé-marias. Conto os sacos de compras. Conto as batidas do meu coração quando chego lá acima a correr, porque estou atrasada: pum-pum, pum-pum, pum-pum. Conto-as para saber se ainda estou viva. Para acreditar que ainda estou viva.
Às vezes também conto cansaços. E insónias. E solidões. E tantas tristezas, que lhes perco a conta se tento somá-las - arreganham-me os dentes e mordem-me a memória... E deixam rastozinhos de sangue. Já não conto lágrimas - a soma seria só um lago muito fundo, de águas paradas negras, negras, negras. 

terça-feira, 29 de maio de 2018

Crónicas do Vento Salgado


Soube hoje, finalmente, todos os pormenores. É uma daquelas histórias que preferimos que não nos contem, que gostamos de ignorar para que não nos roube o apetite, a alegria de cantar em tom desafinado uma canção da moda enquanto esperamos, no meio da cidade, que o sinal fique verde para arrancarmos finalmente, para irmos às nossas vidinhas - o salto rápido à peixaria, à frutaria, à lavandaria, antes de entrarmos no conforto dos nossos pequenos mundos. É uma história que nos esbofeteia e faz com que o café de repente se torne amargo, que desvaloriza o facto de a nossa equipa de futebol ter ganho o campeonato, de termos acertado três números no totoloto, de o preço da gasolina ter baixado e de o detergente da roupa estar com uma promoção imbatível. Dura, esta história que hoje transformo em crónica, pôs-me uma pedra no coração. E é uma pedra pesada, pesada, pesada.
Soube hoje que afinal de contas, ele não era russo, mas sim moldavo. De uma cidade cujo nome ninguém consegue pronunciar. Um nome, apenas. Distante. Um nome de cidade cheio de consoantes fricativas sibilantes. Ele, pelo contrário, tinha um nome simples: Yuri. Tinha um rosto redondo e uns olhos azuis tímidos, mas cheios de uma luz bondosa. Trinta e tal anos, cabelos louros quase brancos. Toda a gente gostava do "russo". Sabia-se que tinha vindo para Portugal há pouco mais de um ano, numa primavera cheia de promessas. O "russo" só tinha um objetivo: ganhar dinheiro para trazer para cá a mulher e acabarem juntos os dias neste cantinho à beira-mar. Trabalhava como um mouro a aceitava tudo o que lhe davam - roupa, comida, mobílias velhas que recuperava com esmero e mestria. Toda a gente o adorava - repito - e chamavam-no frequentemente para arranjar uma torneira que pingava, para cortar relva num jardim, para arranjar uma persiana, para mudanças e bricolage de toda a espécie. O "russo" sabia fazer tudo. E o tudo que sabia fazer, fazia-o sorrindo e cantarolando, respondendo num português claro, num tom de voz suave, como se pedisse desculpa a todo o instante. 
Foi a vizinha do lado que deu o alerta, num dia de chuva ao fim da tarde. Na casa do "russo", o rádio tocava ininterruptamente desde a noite anterior e ele ainda não tinha saído à rua nem atendia a campainha. Entraram os bombeiros depois da porta arrombada, mas já não havia nada que alguém pudesse fazer por ele. Na banheira cheia de água, o corpo do "russo" estava azul e, preso ao chuveiro, havia um cinto a esganar-lhe a garganta. Os olhos maravilhosos estavam escancarados e fitavam um céu que já só ele via.
Soube hoje os pormenores. O "russo" tinha juntado um dinheirinho e tinha chamado a mulher. Mas um ano e tal é muito tempo e ela tinha-lhe dito que não, que não viria. Ela tinha-lhe dito que já não queria ser a mulher dele. 
Quem o conheceu, não se conforma com esta partida silenciosa e solitária do "russo". Quem o conheceu, gostou daquela doçura, daquela timidez de quem vive clandestinamente num país que não lhe deu um cartão de cidadão. Em Portugal, o Yuri não existia. Era apenas mão de obra barata, pau para todo o serviço, e agora é um corpo na morgue que ninguém reclama. O Yuri merecia um pedaço de terra onde o seu corpo se deitasse. Merecia saber que no país onde sonhou envelhecer e onde escolheu morrer, todos o adoravam. Merecia que lhe contassem que não fazia mal se a mulher já não o queria - o mundo está cheio de mulheres que sabem amar, que saberiam amá-lo. O Yuri merecia saber que os vizinhos estão inconsoláveis e quase juram que ainda ouvem o rádio tocar dentro da casa dele pela noite dentro. O Yuri não contou quase nada da vida dele e o que contou não foi o suficiente para se perceber a sua dor, a sua solidão, o desespero do túnel negro em que entrara. E com a sua partida, enegreceu os olhos de muita gente boa que lhe queria bem - disse-me o dono do café, que me contou tudo isto. 

(Deixo-lhe flores... estas flores. Ao que sei, eram as que ele achava as mais belas).

quarta-feira, 7 de março de 2018

E quando tu depois


E quando tu depois
chegaste, surpreso
e dobraste as esquinas do tempo
como quem chega sem contar
a uma rua cheia de sol
era ainda o vento áspero
das marés vivas.
Mas nós sabíamos

Era já tão tarde nos teus olhos
era tão tarde já dentro dos meus.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Crónicas do Vento Salgado


Mudei de casa há pouco mais de um ano. Foi amor à primeira vista, esta casa pequena, cheia de sol, encravada num bairro tranquilo e moderno. Não conheço os meus vizinhos. Nem os da frente, nem os de cima, nem os de baixo. Temos horários diferentes e nunca nos cruzamos no elevador ou nas garagens. O meu conhecimento dos meus vizinhos resume-se a sons, coisas que oiço e que, um ano depois, me vão sendo familiares. Sei que por cima de mim vive um casal com duas filhas, é o pai quem dá banho às crianças enquanto a mãe faz o jantar. Ouço-lhes as vozes, os risos, as correrias com os pés descalços, os brinquedos que caem ao chão, a banheira a encher-se de água ao fim do dia, a televisão no canal Panda. Mas não lhes conheço os rostos. 
O apartamento por baixo de mim está fechado durante a semana. Só à sexta-feira à noite se enche de vozes, duas, por vezes três vozes diferentes. Ao fim de semana há portas a bater, persianas que se levantam ruidosamente, muito barulho com as louças na cozinha por baixo da minha. Quem são estas pessoas que chegam à sexta e partem ao domingo à tarde, permanece um mistério para mim, neste ano em que cá vivo. No entanto, noto-lhes a ausência se em algum fim de semana o apartamento permanece silencioso, como a boca negra de uma gruta fria.
E depois há o vizinho da frente, aquele sobre quem eu sei mais coisas, de todos os meus vizinhos. Chega tarde, muito tarde, e compensa o ruído do elevador com um bater a porta de mansinho. Vive só. Janta quando chega, mas está pouco tempo na cozinha, e não vê televisão. O meu vizinho da frente ouve música clássica, baixinho, sem interrupção. Está muito tempo na varanda encostada à minha, e sinto-lhe o cheiro do cigarro. Ouço as mensagens que lhe entram no telemóvel e muito raramente, fala ao telefone - conversas rápidas e tardias. O meu vizinho da frente faz-me sempre evocar o poema "Regras do Esquecimento", em especial o verso Não esqueças sobretudo de olhar devagar. Não sei porquê. Talvez porque o ache uma ilha distante, ou um náufrago numa ilha distante, não sei bem... Talvez porque o meu vizinho da frente é misterioso no seu viver, sempre igual, mesmo aos fins de semana quando os de cima cantam a quatro vozes e os de baixo abrem janelas com vigor. 
Todos os dias eu tento, como no verso do Vasco Gato, ouvir devagar o que me chega para além das minhas paredes pintadas de amarelo clarinho: às vezes escrevo histórias sobre os meus vizinhos. Mas ao vizinho da frente dei um nome que não sei se ele tem, um rosto com rugas que talvez não existam; aprisionei-o numa estória bonita, por onde ele anda com passos lentos e serenos, ao som de uma música suave e com o luar pousado nos ombros, como o homem eternamente preso na lua - das histórias que a minha avó me contava como segredos.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Teu Nome


(...)
A cidade está deserta,
E alguém escreveu o teu nome em toda a parte:
Nas casas, nos carros, nas pontes, nas ruas.
Em todo o lado essa palavra
Repetida ao expoente da loucura!
Ora amarga! ora doce!
Pra nos lembrar que o amor é uma doença,
Quando nele julgamos ver a nossa cura!


(A ouvir até à exaustão) Ornatos Violeta, "Ouvi Dizer" (excerto)

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Palavras maravilhosas

Bem podias
trazer-me uma flor,
uma fatia de lua ainda morna,
algumas notas afinadas 
de violino ou piano…
Não me saem bem os versos
sem estas coisas
reservadas aos sonhos.
Bem podias
entrar no poema, agora
antes que seja tarde
e me encontres acordada.

Lídia Borges, in Seara de Versos (http://searasdeversos.blogspot.pt/)

domingo, 28 de janeiro de 2018

Um minuto


Dizia-te do minuto certo. Do minuto certo do amor. Dizia-te que queria olhar para os teus olhos e ter a certeza que pensavas em mim. Que me pensavas por dentro. Que era eu a tua fantasia, o teu banco de trás. O teu desconforto de calças caídas, de pernas caídas, da rua que não estava fechada porque nenhuma rua se fecha para o amor.
Na cidade do meu sono, havia palmeiras onde alguns repetiam putas e charros e atiravam pedras ao rio. Mas eu nunca gostei de clichés. Nem de quartos de hotel. Nem de camas que não conheço. Eu nunca abri as pernas, entendes? Nunca abri as pernas no liceu. Nunca abri as pernas aos dezassete anos, de cigarro na mão. Eu nunca me comovi com o sonho de ser tua. Eu nunca quis que ficasses, entendes? Que viesses. Queria que quisesses de mim esse minuto certo, essa rua húmida de ser norte. Queria que me quisesses certa, exacta, como o minuto onde me pudesses encontrar. Eu nunca quis de ti uma continuidade, mas um alívio, uma noção de ser gente, entendes? Eu nunca quis de ti o sonho do sono ou da viagem. Nunca te pedi o pequeno-almoço, a ternura. Nunca te disse que me abraçasses por trás, que adormecesses. Eu nunca quis que me desses casa e filhos e lógica. Que me convidasses para dançar. Queria os teus olhos a fecharem-se comigo por dentro e tu por dentro de mim.
Queria de ti um minuto. Um minuto.

Filipa Leal, "O Minuto Certo" in, «Egoísta n.º 32», Setembro 2007

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Espelho meu


Há-de haver um espelho onde os meus olhos voltem a ser os meus olhos. Onde o brilho espelhado seja o da minha alegria, tão igual à de quando era menina e corria para a escola com a pasta apertada contra o peito para sentir o cheiro do pão com queijo e marmelada, que haveria de comer no recreio de todas as ilusões. Há-de haver um espelho que me devolva o norte e a luz. Não sei onde, talvez atrás dos montes da minha infância, com as tangerineiras carregadas de frutos inchados, rubros, que me manchavam as mãos e as perfumavam de sumo para todo o dia. Há-de haver numa noite, um espelho onde eu não faça contas à vida nem às rugas. Um espelho redondo, sem princípio nem fim, como os dias de esperas eternas. Há-de haver um espelho onde eu não escreva o teu nome com o dedo, devagar, como só devagar se pode falar das profundezas do mar sem fim, de poesia e de sonhos, de castelos e de deuses. Há-de haver um espelho, algures, um qualquer dia, que responda. Que não me mostre os meus fantasmas. Um espelho de água que engula o rasto das minhas lágrimas. E me devolva o arrepio.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Na Mágoa Maior do Tempo


Fica ao menos o tempo de um cigarro, evita
comigo que este tempo ande. Lá fora são
as casas, vive gente à luz de um candeeiro,
o som que nos chega apagado pela distância
só denuncia o nosso silêncio interrompido.
Ajuda-me, faremos o inventário das coisas
menos úteis, mágoas na mágoa maior do tempo.
Fica, não te aproximes, nenhum dia
é menos sombrio, quando anoitecer vamos ver
as árvores cercando a casa.

Helder Moura Pereira, in Entre o Deserto e a Vertigem