quarta-feira, 13 de junho de 2018

Cá dentro


Conto a idade dos meus velhos: 90, 88, 83, 82 anos. Conto-lhes as rugas dos rostos, as fraldas que mudo, as vezes que faço nestum com mel ou cerélac, em quantos pedacinhos parto a pêra, a maçã, a laranja, o kiwi. Conto os banhos que dou, os medicamentos que coloco ao lado dos pratos: 17, 13, 9, 7 comprimidos. Conto as pomadas. Conto as voltas que dou à chave do relógio da sala de jantar para que a corda não pare: uma, duas, três, quatro... Conto as colheres de sopa, as camisas de dormir, os pijamas molhados e os vomitados, as babetes. Conto os sorrisos, quando chego ao fim do dia: um, dois. Conto os olhos vazios à minha volta, as tremuras das mãos engelhadas, os cabelos brancos ralos, cada vez mais ralos. Conto os terços, os pai-nossos, as avé-marias. Conto os sacos de compras. Conto as batidas do meu coração quando chego lá acima a correr, porque estou atrasada: pum-pum, pum-pum, pum-pum. Conto-as para saber se ainda estou viva. Para acreditar que ainda estou viva.
Às vezes também conto cansaços. E insónias. E solidões. E tantas tristezas, que lhes perco a conta se tento somá-las - arreganham-me os dentes e mordem-me a memória... E deixam rastozinhos de sangue. Já não conto lágrimas - a soma seria só um lago muito fundo, de águas paradas negras, negras, negras. 

5 comentários:

Anónimo disse...

Ó " Stora" conte também com meu apreço e admiração...
Às vezes tenho vontade de deixar de comentar para não me tornar chato, mas depois a "Stora" faz questão de escrever "estas coisas" e "prontos" lá se vai a intenção...

Continuo na dúvida se gosto mais da forma como escreve ou de como sente...

;) Respeitoso beijinho
PS: Espero que continue a contar sorrisos. Os seus e os dos "seus Velhos". ;)

Anónimo disse...

contas os respirares como eu?

Anna disse...

Caríssimo,
É a conta maior, a dos sorrisos dos meus velhos :)

Beijinhos :)

Anna disse...

Quem sabe...?

Gustavo disse...

A Anna está bem viva, tão viva quantos os pedacinhos em que lhes parte - aos seus velhos - a pêra, a maçã, a laranja, o kiwi; é esse amor visceral que, resistindo aos cansaços, às insónias, às solidões e às tristezas, a mantém palpitante.
Abraço.