quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016


Lembro-me sempre dela no Carnaval. Ou melhor, lembro-me mais dela no Carnaval... Talvez porque ambas o odiávamos pelos mesmos motivos.
Vivemos juntas durante três anos, companheiras de quarto num lar feminino rigoroso, ambas universitárias na mesma faculdade, em cursos diferentes. Eu gostava dela por todas as razões e o que nos tornou inseparáveis era inexplicável, talvez a solidão, talvez as vivências que trazíamos, talvez uma igual sensibilidade. Mas nada disso importa, agora.
Há trinta anos que não encontro a Té, que não sei nada dela, que não conheço ninguém que a conheça. Mas vejo-a ainda com toda a nitidez, com o rosto verde por causa da máscara de argila que punha todas as quartas-feiras à noite. A Té tinha o cabelo oleoso e fino e lavava-o todos os dias; escovava os dentes com carvão uma vez por semana para que ficassem mais brancos... - e ficavam; a Té era mais velha do que eu um ano e protegeu-me de todas as praxes, de todos os doutores, de todas as maldades; foi com a Té que eu fui ver ao cinema "O Império dos Sentidos" e a "Emmanuelle", entrámos e saímos coladas com as paredes para que ninguém nos visse, desatámos a correr pela avenida acima até nos sentirmos em segurança no nosso quarto, a rir como tolinhas da transgressão feita; a Té conseguia secar e esticar o meu cabelo como mais ninguém conseguiu; quando vinha de fim de semana, a Té trazia bolachas amanteigadas numa lata azul redonda, que comíamos pela noite fora na véspera das frequências; a Té conseguiu namorar o rapaz mais bonito e desejado do grupo e ele partiu-lhe o coração em mil pedaços muito pequeninos...; a Té aparava-me as saídas ilícitas aos fins de semana, falava com a minha mãe ao telefone, e tinha sempre uma desculpa credível para justificar a minha ausência; a Té fazia-me perguntas sobre a matéria antes dos exames e às vezes, faltava às aulas comigo; a Té tinha os olhos verdes, lindíssimos, e as pestanas enormes; e foi com a Té que eu vi nevar pela primeira vez, o chão da cidade branquinho e nós na rua, com os olhos a brilhar muito, muito...
Chamava-se Teresa, mas para mim era apenas a Té.
Um dia, alguém do quarto ao lado inventou que eu disse coisas que não disse, ela acreditou, nunca mais me falou e eu sofri horrivelmente.
A Té terminou o curso primeiro do que eu, voltou para a cidade dela e não me procurou nas vezes em que voltou à universidade. Os anos passaram, a vida passou, e eu continuo a lembrar-me dela sempre. Nos últimos dez anos procurei-a em todo o lado: nas listas de professores a que tenho acesso, nos congressos, no Facebook e outras redes sociais, pergunto às pessoas que sei que são ou que vão à cidade onde ela morava... Nunca a encontrei. Parece-me incrível e assustador que na era digital, na era da comunicação e da transmissão da informação à velocidade da luz, na sociedade do Big Brother onde deixamos rasto por todo o lado onde passamos, eu não consiga, de forma nenhuma, encontrar a minha Té.
Onde mais te procuro, Té? Diz-me: onde é que te encontro?

4 comentários:

Rogerio G. V. Pereira disse...

Por vezes acontece
quando deixamos de procurar
pouco depois aparece

ou será melhor que não?

(por vezes, mais vale uma boa memória...)

Anna disse...

Eu vou encontrá-la, Rogério.
Não sei como, não sei quando, mas sei que vou encontrá-la.

(e sim, por vezes é melhor não procurarmos e ficarmos apenas com as memórias)

Abraço :)

Lídia Borges disse...


Já me tinhas falado da Té.

Neste texto ficou mais delineada a imagem que tinha dela.
Mas sabes... Só se encontra quem se procura, em simultâneo. É tempo mal gasto procurar quem não nos procura.

Um beijo

Lídia

Anna disse...

Palavras sábias, como sempre...!

Beijo, minha Lídia :)