terça-feira, 31 de maio de 2011

Na fogueira da memória


A memória é uma fogueira, quando a julgamos extinta,

reacende-se, para entendermos que nada se perdeu
Ainda escrevo, não para que regresses, mas porque acredito
que, sem o dizeres, sabes que no tecto da noite
guardo o poema que sempre escreverei para ti,
não importando se o irás ler ou se menti
dizendo que o escrevi. Ainda moras aqui

E escrevo poemas

Ivo Machado, O Tecto da Noite (Texto com supressões)

domingo, 29 de maio de 2011

Da felicidade

O cúmulo da felicidade é uma gota de felicidade a mais. Acontece ao morrer.

(Disseste. Disseste sem que uma sombra de medo te turvasse os olhos tão tristes. Disseste com as tuas mãos entre as minhas, os teus dedos manchados do sangue doce das cerejas que te levei. Disseste que querias ser feliz. Finalmente feliz, disseste-o. E sem que o tivesses visto, algo desabou dentro de mim... e eu chorei.)

sábado, 28 de maio de 2011

Do nada

Centro-me no teu abraço, a casa do meu corpo.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Da espera

O principezinho voltou no dia seguinte.

- Era melhor teres vindo à mesma hora - disse a raposa. - Por exemplo, se vieres às quatro horas, às três, já eu começo a estar feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sinto. Às quatro em ponto hei-de estar toda agitada e toda inquieta: fico a conhecer o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca vou saber a que horas hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito... Precisamos de rituais.

- O que é um ritual? - disse o principezinho.

- Também é uma coisa de que toda a gente se esqueceu - disse a raposa. - É o que torna um dia diferente dos outros dias e uma hora diferente das outras horas.

Antoine de Saint-Exupéry, O Principezinho

sábado, 21 de maio de 2011

Silêncio

Talvez seja da chuva que se aproxima... Fui lá fora olhar o céu e uma aragem gelada bateu-me no rosto, como as asas silenciosas duma ave nocturna... É talvez da chuva, ou deste vento que me enrola a roupa nos varais e faz bater as portas e gemer as vidraças da casa, que faz vergar as hortências nos canteiros floridos e empurra a bola do meu filho numa jogada doida e fantasmagórica pelo pátio vazio. Talvez seja da chuva este frio que sinto... Um estranho frio colado à pele, preso aos pés, que arrasto pelos aposentos, que me entra pelos bolsos, pelas mangas da camisola, que pousou nos meus livros e invadiu os armários e as gavetas... Este frio que me magoa, só pode vir da chuva... Ou do silêncio.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Sem rede

Um dia a vida deixou-me sem chão. Arrancou-me o tapete de debaixo dos pés, roubou-mo, devagarinho e sorrindo como quem rasga as pétalas a uma flor pequenina. Um dia a vida deixou-me sem rede... E só ficou o silêncio do nada inundando todos os vazios. Só o nada... E os meus olhos molhados, teimosos de sonhos.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Algo estúpido

Por vezes não dizemos. Porque achamos que o outro já sabe... Porque nos parece evidente que assim seja... Ou só porque nos parece ridículo repeti-lo todos os dias. Mas sabes, não queria deixar terminar o dia neste siêncio, sem te dizer que te amo... Sem te repetir o quanto te amo. Deixar que isso acontecesse, teria sido uma coisa muito estúpida.


segunda-feira, 16 de maio de 2011

Aprender a solidão

Porque curiosamente, onde menos te encontro é onde tu exististe. Desprendeste-te donde estiveste e é em mim que mais me acontece tu estares. Mas nem sempre. Quantos dias se passam sem tu apareceres. E às vezes eu penso que é bom que assim seja para eu aprender a estar só. Mas de outras vezes rompes-me pela vida dentro e eu quase sufoco da tua presença. Ouço-te dizer o meu nome e eu corro ao teu encontro e digo vai-te, vai-te embora. Por favor. E eu sinto-me logo tão infeliz. E digo-te não vás. Fica. Para sempre. Há em mim uma luta entre o desejo de que te esqueça e o de endoidecer contigo.

Vergílio Ferreira, Cartas a Sandra

sábado, 14 de maio de 2011

Vendavais

Como se fosse um vendaval... o Amor andou à solta fechado no meu peito.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

O sal do teu vento

Às vezes dói-me, sim. Dói-me do lado de dentro de mim, na água parada, escura, profunda, dos abismos mais insondáveis do meu peito. Nessas alturas brinco com a dor, escondo-a dos olhos dos outros para que ninguém ma descubra... Porque eu sei, nas suas voltas intermináveis, o mundo não é culpado... E a quem mais pode interessar isto que sinto, a não ser a ti? Por isso calo esta dor, lentamente e com ternura, como se adormecesse um filho no colo vazio... Não digo nada, embrulhada só no meu silêncio... Até que nada mais reste dessa lágrima, senão o sal que secou no teu vento.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

As palavras possíveis

É possível que eu esqueça a liquidez da lua
o sono dessa rua às três da madrugada
a longa caminhada orquestrada pela chuva
a sombra de uma luva em cima de uma vaga

É possível que eu esqueça o dia em que nasceste
Em que depois da luva apareceram as mãos
É possível que eu esqueça Ou me seja indiferente

É possível que sim É preciso que não

David Mourão-Ferreira, Sotto Voce

sábado, 7 de maio de 2011

Das estrelas...

Para que percorres inutilmente o céu inteiro, à procura da tua estrela? Põe-na lá...

Vergílio Ferreira

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Palavras poderosas

As águias deixam que os passarinhos cantem, sem nenhuma preocupação com o seu trinado alegre, certas de que com a sombra das suas asas poderão reduzi-los ao silêncio.

William Shakespeare

terça-feira, 3 de maio de 2011

Rente ao silêncio

Ao largo ao longe
um barco passa
rente ao silêncio...
E há nesta calma travessia
uma espera serena e dolorida
como quem olha um pôr-do-sol
sabendo nele
um ritual tão tranquilo
como a confirmação inelutável
de uma sentença de morte.

domingo, 1 de maio de 2011

Mãe

Na porta da direita do teu roupeiro, encostado ao fundo, quase invisível, guardas o teu vestido mais bonito. Vais voltar a vesti-lo um dia, disseste, para ires comigo ver o mar. Sempre gostei dele, do tecido macio de ramagens azuis caindo-te num évasé suave que desce pelas linhas da anca e num movimento elegante te acompanha o caminhar. Sei que ainda o guardas, na porta da direita do teu roupeiro. Cobriste-o com um comprido plástico transparente para que a humidade não o estragasse e esqueceste-o no canto mais escuro, mas eu sei-o lá... E hoje quando me perguntaste se eu estava triste, era nele que pensava, no vestido de ramagens azuis que queria que tivesses vestido... Pensava que hoje, ao menos hoje, os teus ossos te permitiriam ficar de pé o tempo suficiente para te levar a passear, a encher os pulmões de mar e de vento, para que sentisses na pele o sol que já é quente... Comeríamos um gelado e riríamos muito, conversaríamos em francês e iríamos ver as montras, como dantes fazíamos... Mas sabes mãe, não te contei nada disto porque não te queria ver triste, só te abracei com tudo aquilo que sinto a ferver-me dentro do peito e te disse Amo-te muito, mamã...!

Lambendo as crias

Eles descem as escadas ruidosamente e os seus risos são a música mais antiga que reconheço. O sol entra pela janela, bate-me nos pés numa carícia morna e a cozinha cheira a café acabado de fazer, a torradas com manteiga e a canela. Pousadas nos beirais da casa, as aves fazem-se ouvir em revoadas alegres... Um de cada lado, eles abraçam-me ao mesmo tempo, pegam-me ao colo, cantam para mim e beijam-me e dizem-me tudo aquilo que eu sei... E neste momento único, sei que morreria por eles e que por eles mataria, no cumprimento das leis e do código deste amor mais velho do que o universo e que faz mover todos os mundos... Neste momento único, não tenho idade, nem medos, nem fraquezas, não há fantasmas ou terrores que me fragilizem... Sou apenas uma fêmea, lambendo as minhas crias.