sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Crónicas do Vento Salgado


Chegam num bando ruidoso arrasando o silêncio, arrastam cadeiras e mesas, procuram espaço no café pequenino e escuro. São seis, duas raparigas e quatro rapazes. Elas vestem pouca roupa, parecendo negar o frio cortante como facas, os piercings no umbigo espreitando com o olho metálico gelado e brilhante. Falam muito alto, indiferentes ao resto do mundo. Uma das raparigas tem uma tatuagem no pescoço. Uma tarântula. Ri muito e fuma nervosamente, expelindo o fumo em círculos perfeitos e grossos. Falam do facebook, das fotos do dia dos namorados e da avalanche de comentários dos amigos. A rapariga da tatuagem diz palavrões, atira a beata para o chão, reclina-se na cadeira e olha provocantemente os rapazes. Um deles, vestido de negro, com o cabelo dentro de uma bóina de lã que lhe tomba sobre a nuca, tem os olhos presos ao ventre redondo onde o piercing o desafia, num absoluto fascínio. Depois pega no telemóvel e a música aos gritos invade o café. Todos riem e dançam nas cadeiras, felizes.
Aposto que nunca ouviram falar da Troika ou do IVA, da política de contenção, do desemprego ou da crise. O futuro não os preocupa e nenhum sonho os assusta. Têm quinze anos e todas as certezas. São grandes, são enormes. São donos do mundo. São donos de todos os mundos.

3 comentários:

Lídia Borges disse...

Têm 15 anos e não veem ainda o mundo que já vai abrindo a boca disposto a devorar-lhes os sonhos.
Mas têm 15 anos e, para já, isso basta-lhes.

Gosto deste jeito de dizer, imparcial, porque há temas em que frente e o verso estão do mesmo lado.

Um beijinho

Anna disse...

Ontem nas Correntes d'Escritas, o Onésimo dizia que a juventude é um desperdício nos jovens. Que é preciso chegar aos 50 para se perceber o que se desperdiçou aos 15... Tão certo que ele está. Tão bom ter 15 anos...!

Beijo, bom fds :)

Pedro Gaivota disse...

Por falar em miúdos de 15 anos e do Correntes d'Escritas, ontem o meu filho de 15 anos disse-me que havia passado por lá. Como devem compreender encheu-me de orgulho esta curiosidade literária e esta verdadeira busca pelo conhecimento...Acreditei que era um sinal de que o estava a educar convenientemente...Só mais tarde acrescentou que a sua(e de alguns amigos) visita ao referido evento se deveu ao facto de estarem a oferecer bolos no Coofee break...Bem, não será propriamente um Fernão Capelo Gaivota, mas voa o suficiente para se alimentar...Filosofias de vida...

Cumprimentos
;)