quarta-feira, 21 de maio de 2008

Nos corredores da nostalgia


Dos objectos cuja memória transporto desde a infância, a recordação que guardo mais preciosa e mais vívida, é a da máquina de escrever do meu pai.
Era uma máquina enorme e lindíssima, de teclado HCESAR, que eu venerava descaradamente. O meu pai chamava-lhe carinhosamente "Olívia", entre outras razões, porque tinha sido caríssima e a sua aquisição, pensada e repensada, representara um rombo profundo no orçamento familiar. A máquina, tão desejada, merecera um nome de pessoa... e assim ficou. Lembro-me sobretudo do som que se desprendia do teclado e da espécie de sininho que avisava quando a margem de escrita se aproximava do fim. Eu adorava-a e ficava a olhá-la com fascinação quando o meu pai se sentava a escrever as suas poesias, geralmente no dia em que não dava consultas. Sem ousar perturbá-lo, sentava-me à porta do consultório, com as pernas à chinês, e ficava a pentear as minhas bonecas ao som melodioso daquela máquina que me enfeitiçava, sob o olhar disfarçado e carinhoso do meu pai. Eu nem sequer sabia escrever e talvez isso fosse o mais fascinante de tudo... A minha curiosidade de criança despertava e alimentava em mim o desejo de saber como arrancar todas aquelas páginas escritas de um objecto tão misterioso.
Depois da morte do meu pai, inevitavelmente a máquina permaneceu connosco. Sempre em lugar de destaque, sempre numa mesa onde todos a víssemos. E depois cresci, cresci o suficiente para aprender a ler e a escrever e chegou um dia em que a minha mãe me comunicou que eu podia, finalmente, aprender a escrever à máquina. Lembro-me da excitação, do nervosismo, do medo de estragar... que foi amansando à medida que ela me ensinava com muita paciência e um sorriso, a usar a velha máquina de escrever. Primeiro ensinou-me a meter o papel (tarefa árdua, acertar a folha para que não ficasse mais subida dum lado do que do outro!), depois a usar o teclado (as maiúsculas, as minúsculas, os acentos, os algarismos, os sinais de pontuação...), a corrigir os erros (com umas fitinhas de papel corrector que se encostavam à letra a eliminar e depois de se teclar por cima, ocultavam o preto da tinta) e finalmente a fazer rodar a fita de tecido azul, para que a escrita mantivesse sempre um negro brilhante e bonito. Foi um dia glorioso para mim e jamais o esquecerei... Durante horas, martelei na velha máquina, primeiro timidamente, à procura dos caracteres, e depois com mais segurança e agilidade à medida que os meus dedos pequeninos iam aprendendo o caminho das letras. Desde esse dia, fiquei com a sensação de que a máquina me pertencia mais a mim do que a qualquer outro elemento da família e confesso, tinha-lhe um amor um pouco egoísta...
Mas os anos passaram, a velhinha máquina foi ganhando ferrugem, emperrando e soltando as teclas, até que um dia foi substituída por outra mais pequena, mais elegante, mais bonita e muito mais moderna... que eu desprezei desde o primeiro olhar e a quem nunca reconheci o encanto e o companheirismo da Olívia do meu pai.

5 comentários:

Luana disse...

Tu escreves com alma e coração e o resultado só podia ser um texto maravilhoso que me comove como tudo o que tu dizes.És uma pessoa muito bonita, muito profunda...
Beijinho

F. Semedo disse...

Uma narrativa belíssima, cheia de sensibilidade e com um simpático tom coloquial, a aproximar-me da autora. Muitos parabéns pela doçura das palavras!
Um abraço

Anónimo disse...

A nostalgia está lá, e a magia das palavras também.

Um beijinho:)

Manela disse...

A imagem é linda e o texto...espectacular!Eu também tive uma máquina assim,e também gostava de escrever embora não sinta grandes saudades.Felizmente os computadores salvaram-nos a vida!
Beijoca

Anónimo disse...

O texto encheu-me a alma e confortou-me o coração...esse é um dom que possui a tua escrita...