sábado, 3 de maio de 2008

Nada melhor do que a vida


Era Verão mas chovia, lembro-me ainda hoje tão bem... Saímos para lanchar, só nós duas, felizes porque tinha terminado a época de exames e estávamos quase, quase de férias. Tu conduzias devagar e íamos apreciando os banhistas ávidos de sol, exibindo indumentárias frescas e coloridas, enfrentando despreocupados o cortante vento norte.Cheirava a maresia, um odor imperioso a sargaço trazido pelas ondas iradas de um mar plúmbeo carregado de chuva, uma chuva leve e miudinha que não chegava a atravessar as roupas. Uma deliciosa chuva de Verão. E ríamos como loucas, como duas garotas, a propósito de tudo e de nada... Tu dizias nessas alturas que era a hora da insanidade, e a onda de riso voltava e crescia e tornava-se imparável no teu jeito tão próprio de atirar a cabeça para trás e soltar a alegria num gargalhar ruidoso. Vestias uma camisola amarela que adoravas e que contrastava com os teus cabelos negros que usavas quase sempre soltos. Eras tão bonita, tão feliz! Nessa tarde, lanchámos num café sobre o areal, comemos um gelado à chuva e ficámos sem gasolina no centro da cidade... sempre a rir como se a vida nos pertencesse e nada de mal pudesse acontecer-nos...
Não sei porque razão a minha memória te trouxe, assim, tão inusitadamente nesta noite de sábado e me permite recordar momentos tão felizes como os que vivemos juntas... Talvez seja porque amanhã seria um dia muito especial para ti, um dia que adoravas e que preparavas com carinho e uma antecedência escandalosa. Querias que corresse tudo bem, lembro-me ainda. Por isso sei que amanhã os teus te evocarão com muita saudade e o mesmo amor...
Quanto a mim, eu vou ouvir-te perguntares-me com os olhos a brilhar, entre risos e gargalhadas: "E há alguma coisa melhor do que a vida?".

1 comentário:

Maria Campos disse...

É ou não verdade que ela continua viva?

BJCA GRND, m.c: