sábado, 10 de maio de 2008

A Amizade não se agradece

Ontem foi uma noite muito importante para mim. Profissionalmente falando, era uma daquelas noites que demoram meses a preparar, são pensadas e trabalhadas até ao mais ínfimo pormenor e nos absorvem a atenção e a energia enquanto nos roubam também, horas de tranquilidade. Assim era a noite passada. Aliada a tudo isto, a agravante de a mim me custar imenso falar em público, de eu detestar ser o centro das atenções enquanto rosto de uma actividade, enquanto anfitriã de uma noite cheia de formalidades. Nesta última semana andei amargurada, com um estranho frio a coser-me a barriga e o pensamento recorrente de que algo iria correr muito mal... Invadia-me o medo de esquecer-me das palavras, ter um ataque de tosse, cair nos degraus, trocar o nome aos convidados, errar o alinhamento, perder as cábulas... tudo me ocorreu. Andei a falar sozinha a semana toda, procurando a segurança na solidez do trabalho. E elas sabiam. Tentavam sossegar-me, brincavam comigo, troçavam da minha insegurança... e prometeram estar lá. Apesar de eu saber que a actividade não lhes interessava tanto assim, que era fim de semana e mereciam o descanso de uma sexta à noite sem compromissos ou correrias... Apesar disso, elas foram e sentaram-se na primeira fila. Pertinho de mim, para que eu lhes sentisse a solidariedade em primeira mão, a confiança nos olhares que me enviavam. E soube-me tão bem, vê-las ali! Mesmo sabendo que uma delas tinha abdicado do jantar semanal com o pai, que cumpre religiosamente há já uns anos, e a outra não tinha vestido o pijama ao filho mais novo e não lhe tinha lido uma história antes de o adormecer num abraço quentinho. Mesmo assim, a presença de ambas reconfortou-me e deu-me segurança. Eu sabia que tinha ali duas amigas que acreditavam em mim e não queria desiludi-las, queria que elas aproveitassem a noite e que tudo corresse pelo melhor... E acho que correu... Talvez a assistência não se tenha apercebido de que a minha voz tremia e ninguém reparou que houve uma ligeira alteração no alinhamento... Por esquecimento meu, claro está, que às vezes os nervos põem-me obtusa... Mas não caí, não tossi, não troquei o nome aos meus ilustres convidados, não perdi as cábulas nem tive nenhuma branca... E a noite terminou num ápice, como termina tudo o que demora meses a preparar... apenas em algumas horas exigentes e tensas que se esfumam rapidamente.
Eu sei que a Amizade não se agradece, mas esta noite é para as Anas, com o meu beijo sincero e toda a ternura em que eu conseguir embrulhar as palavras.

3 comentários:

Anónimo disse...

Eu também estive lá...E tu estiveste fantástica!Fica descansada, não se notava que a tua voz tremia...
Um bjinho

Anónimo disse...

Estavas linda, como sempre...Com a tua doçura natural, o teu sorriso sincero e montes de bom profissionalismo!

Ana Vaz disse...

Obrigada! Mas entende bem: para que servem os amigos se não estiverem presentes nos momentos mais importantes? Para que servem os amigos se não encorajarem nem derem carinho, conforto e alento, quando mais precisamos?
Só são, realmente amigos, se o fizerem.

Bj, com toda ternura que eu conseguir embrulhar nas palavras e. . . na amizade real, sempre concretizada em actos,Ana Vaz.