terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

O Império das Lágrimas


Hoje apetece-me falar de lágrimas...é um assunto como outro qualquer. Aliás, nunca percebi bem porque é que as pessoas não gostam de ver alguém chorar. Ficam constrangidas, incomodadas, desviam o olhar, mudam de assunto, fingem não perceber ou então, aflitas, dizem "Estás a chorar? Não chores!". Mas não chores, porquê? Afinal, qual é o problema das lágrimas?
Eu sou de lágrima fácil... sempre fui. Uma chorona sem emenda. Isso não significa que eu seja uma pessoa triste, infeliz ou deprimida, nada disso. Só que há defeitos e feitios e eu sou assim. Que hei-de fazer? Talvez as pessoas devessem entender (as que nunca choram, bien sûr!), que há lágrimas e lágrimas... Podemos chorar em variadíssimas situações: a ver um filme que nos arranha a alma, a ouvir uma música que nos transporta, a rever fotografias que nos espelham a vida, a recordar os mortos que perdemos, a ler um livro que nos acaricia cá dentro, o coração, a escrever um qualquer texto, a relembrar momentos que a memória teima em não deixar apagar e que não voltarão jamais, a evocar alguém de quem andamos perdidos, quando recebemos um presente, quando ouvimos uma voz que já não esperávamos, quando nos oferecem inesperadamente um elogio, um carinho, quando nos saboreiam o ser... E essas são lágrimas boas, borboletas meigas num voar de alegria, de doce conforto. Essas não nos importamos de partilhar, de mãos dadas com os que amamos, deixando que o silêncio seja a única voz possível. Mas há as outras, as só nossas, as que ocultamos, escondemos do mundo e de nós próprios, engolimos como fel até que o cair se torne imperioso. As que nos desnudam. Nos ferem. Nos matam por dentro. Mas até essas têm que ser libertas... e por vezes somos apanhados a chorar quando não desejaríamos que acontecesse. Nesse momento, a pior coisa que pode ser dita é "Não chores". É que o império das lágrimas não se compadece com a altura certa e a hora exacta... e se alguém é subitamente surpreeendido a chorar, talvez a melhor coisa a fazer seja respeitar quem chora... e esperar que passe. Porque sempre acaba por passar.
É como disse: não tenho nada, absolutamente nada contra as lágrimas. As minhas, todas elas, todos os rastos salgados de dor e amor, ofereço-os e partilho-os com seres únicos e especiais apontados a dedo pela porta da minha alma.
Mas esta noite são só meus. Porque sim.

2 comentários:

Anónimo disse...

É por estas e por outras que eu passo sempre por aqui...

Um beijinho

Maria Campos disse...

Lindo, lindo, liiiiiindo !

SUBLIME!