sábado, 9 de janeiro de 2010

O coração vai


Volto muitas vezes. Volto a lugares quentes, de terra vermelha, onde as imponentes figueiras explodiam em figos doces, os pingos de mel rasgando-lhes os ventres saborosos e ouço ainda a dança das abelhas zumbindo felizes, o roçagar dos bichos invisíveis na vegetação rasteira, abanando o capim queimado... Revejo os lagartos dormindo ao sol nos muros de pedra, respirando quietude na eternidade dos verões infinitos... Volto aos cheiros. Os cheiros fazem-me falta... o cheiro da água arrastando a terra, cantarolando alegre na descida dos montes redondos como rostos, o cheiro da madeira carcomida no sotão para onde subia devagar, os degraus rangendo sob os meus pés descalços, só para espreitar a amêndoa aninhada a secar... O cheiro morno dos cavalos pestanejando desassossegados, resfolegando alto o desejo de liberdade... Volto ao cheiro do sabonete liso como um seixo, de alfazema azul, com que eu esfregava a pele do rosto besuntado da compota de tomate que adormecia em frascos rotulados na cave, vigiada pelos presuntos que endureciam, pelas alheiras penduradas nas traves mestras, soldados vigilantes de um exército guloso... Volto. Ao galinheiro onde entrava a medo, prendendo as pontas do vestido, invadindo a paz das aves poedeiras para lhes roubar os ovos de gemas amarelas como sóis com que se fazia o pudim caramelizado... Volto às noites únicas, de céus negros e abobadados refulgindo em estrelas infinitas, espelhos de luz de um universo sagrado... Aos campos de trigo loiro que debruavam os enormes lavadouros onde a água gelada e quieta se enchia de espuma fresca ao som do cantar das lavadeiras que batiam a roupa no granito como se espantassem os fantasmas que lhes moravam no peito...
Acho que todos voltamos, de vez em quando... Porque o corpo é escravo e fica... mas o coração é livre... O coração vai.

2 comentários:

Anónimo disse...

Nem todo o corpo foi feito para ser escravo, por mais livre que o coração possa ser. Voar pela metade? Mereces bem mais que isso...

D.

De Profundis disse...

Toda a gente merece voar por inteiro, D. E as asas do coração permitem-nos isso.

Beijinho