domingo, 3 de maio de 2009

Post Secret


Está decidido. Amanhã não vou trabalhar. Bem cedinho, ligo para a escola e invento uma desculpa qualquer: Ai e tal, não vou, não posso ir, estou paralisada, o corpo não me obedece... Estou sem voz... (onde já se viu um professor trabalhar sem voz?), sinto-me tonta, é a vesícula a queixar-se do número escandaloso de bombons que devorei no fim de semana... Tenho uns livros para ler que os meus filhos me ofereceram... Uma consulta médica marcada há meses... uma viagem urgente... uma audiência no tribunal... Talvez acreditem. Além disso, ninguém dará pela minha falta. Um professor é substituível, as fichas de trabalho estão prontinhas e ao dispor do colega que dará as aulas aos miúdos, ninguém terá trabalho em excesso, a minha preguiça não fará mossa no mundo. Está decidido, não vou. Nunca faltei, fui sempre trabalhar, doente, triste, desmotivada, arrastando o cansaço de noites mal dormidas... Vão acreditar. E assim posso ficar em casa a dormir, ir passear à beira-mar, ler o meu livro numa esplanada batida pelo sol, beber um refresco colorido, daqueles que têm uma rodelinha de uma qualquer fruta ácida presa na borda do copo gelado... Ou talvez fique a ouvir música dançando descalça na sala, a ver filmes sentada com as pernas à chinês, agarrada às pipocas doces, sujando o sofá e as almofadas... Agarro nos patins, (vão gostar de sair da escuridão do armário) e vou patinar ao lado do vento... Tiro a bicicleta da garagem e exercito as pernas nas estradas de terra batida, o coração acelerado e a pele coberta pelo pó dos caminhos... Não vou. Prefiro caminhar pela cidade, ao sol da manhã, encontrar conhecidos e parar a conversar, ver montras, ir às compras... Ainda por cima, tenho assuntos inadiáveis a tratar... o banco, a frutaria, os sapatos há tanto tempo esquecidos no sapateiro, a roupa na lavandaria, as contas para pagar, a farmácia... a vida normal, igualzinha à de toda a gente... e esta vontade louca de não ir trabalhar amanhã.
Não vou. Está decidido. Amanhã não vou trabalhar.

5 comentários:

Anónimo disse...

Estás enganada, alguém sentiria a tua falta.

Henrique disse...

Tou curioso:afinal faltaste, ou foste trabalhar?

De Profundis disse...

Sim, Henrique, fui trabalhar.
:)

WOLKENGEDANKEN disse...

Ohhhhh, nao terias de ter ido. As veces precisa-se dum dia de revolucao, de sentir-se livre de todas as obligacoes, de nao ser nem responsavel, nem seria nem .......

Bom, bom, já sei, eu tambem vou sempre :)))

De Profundis disse...

Pois é, WOLKENGEDANKEN, acabamos por ir sempre...
:)