terça-feira, 16 de dezembro de 2008

O relatório


É oficial: estou a ficar demente. Insana. Psicótica.
Desde que me lembro, sempre tive um medo terrível de me esquecer de datas ou documentos importantes, de não cumprir prazos, de falhar de algum modo profissionalmente... Nas alturas de muito trabalho, dou comigo a rever a agenda vezes sem conta para confirmar as datas das reuniões, a verificar até à exaustão que todos os relatórios, fichas, planos, gráficos, actas, estão prontinhos e perfeitos. E hoje, como de costume, comecei a preparar o material para a reunião de sexta-feira, para que nada falhe, para que nenhum documento seja esquecido por algum colega mais distraído. E faltava mesmo um documento, um relatório. No intervalo, abeirei-me da colega responsável pela falha e lembrei-lhe da necessidade absoluta de ter o papelito pronto até sexta-feira. Ela olhou-me visivelmente desnorteada e disse-me que já mo tinha dado na semana passada. Foi a minha vez de mostrar surpresa e garanti-lhe que não, que ela estava baralhada, talvez tivesse sido a outro Director de Turma... ou se calhar tinha sido colocado directamente no dossiê da Direcção de Turma... Talvez num errado... Entreguei-to em mãos, não te lembras?- afiançava ela, o olhar cheio de uma enervante certeza. Não, não me lembrava... Mas dei-lhe o benefício da dúvida e dediquei-me à ingrata tarefa de esvaziar a minha gorducha e pesada pasta. Verifiquei, com gestos nervosos, todos os papéis, todos os envelopes, todos os dossiês, um por um, e... nada. Nem sinal do relatório. A irritação aumentava mas tentei serenar... talvez não tivesse visto bem... repeti a busca, agora ainda com mais cuidado. Nada de novo. Do relatório nem cheiro, nem rasto. E agora? Que maçada ter de andar atrás dos colegas, pedir pelas alminhas, zelar para que sejam cumpridas todas as formalidades atempadamente, lembrar da necessidade de ter tudo pronto para que a reunião corra sobre rodas... Enfim... Voltei a falar com a colega e calmamente expliquei-lhe que não tinha o relatório e que ela teria de fazer outro. Não gostou. Não gostou nadinha. Mas eu dei-to!-reafirmava já sem ocultar os nervos. Pois, mas eu não o tinha, paciência, se calhar tinha-o perdido... (como é que se perde um relatório?) era mesmo necessário fazer outro. E com esta regressei a casa e tentei serenar. Mas não estava bem, uma inquietude áspera roçava-me a pele, desviava-me a atenção dos gestos rotineiros, sobressaltava-me a concentração. Decidi procurar de novo, esventrar a pasta e radiografá-la se necessário fosse... Mas não foi necessário... Mal a abri, quase imediatamente os meus olhos tropeçaram numa folha extremamente familiar... puxei-a e não queria acreditar...! O relatório fantasma, preso com um clip a um outro documento, sorria-me desdenhosamente, trocista, atirando-me à cara toda a minha nervosa cegueira... Ele estivera sempre ali, o tempo todo, e eu tinha passado por aquele sorriso escancarado vezes sem conta e não o tinha visto, aquele riso escarninho e desprezível de quem troça da desgraça alheia, soara com certeza alto, muito alto e eu não o tinha ouvido...
Amanhã vou pedir desculpas à colega. Muitas vezes, mil vezes, e implorar-lhe que seja paciente comigo... É que eu estou a ficar demente. Insana. Psicótica.

3 comentários:

WOLKENGEDANKEN disse...

Ah nao,querida , isso acontece todos os dias e ninguem é perfeito!! Tens que ser mais amavel e tolerante contigo :)) Um relatorio seguramente estará escrito num computador, seria só imprimir outra vez.

E nao ha que esquecer que o "caso" deu-te a oportunidade de escrever mais um texto excelente :))

Nos temos reuniao amanha, mas eu FELIZMENTE nao tenho a "honra" de ser directora de turma. De facto ser directora de turma é - pelo menos no nosso sistema - o maior horror burocratico que existe.E como eu sou do "partido" dos criativos nao excessivamente ordenados .. :))

Animo para a Sexta, até as reunioes mais longas tem um final, embora as vezes já nao acreditemos nisso :)))

De Profundis disse...

Obrigada pelo apoio, WOLKENGEDANKEN. De facto ser Director de Turma é uma carga de trabalhos mas é também um cargo de que eu gosto muito porque nos permite estreitar laços com os miúdos, com as famílias, compreender muita coisa...Mas nesta altura do ano, o "horror burocrático" como muito bem lhe chamaste,faz-me acreditar que não tenho o perfil exigido para o seu desempenho...
Ainda bem que é quase, quase Natal!
Um beijinho

Anónimo disse...

é muito facil atirar a 1ª pedra e fugir (não fui eu, cuitadinha de mim!!!), ou fazer-se de tontinha...fica sempre bem.