segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

As coisas que tu dizes...


Juras a pés juntos que o homem nunca foi à lua e não há quem te demova. Esta verdade inabalável é dita com um sorriso trocista, levantando a ponta do véu da suspeita transformada em certeza irredutível: filmagens de estúdio, montagens feitas com a ajuda de sofisticados computadores.Nada mais fácil do que simular um cenário desértico e branco, uma alunagem feita por gente envergando roupas estranhas e volumosas. E o povo néscio engole a história. Dizes tu. Eu não te contrario.
Do mesmo modo, tens a estranha teoria de que os mortos não se vão embora, de que ficam connosco e vivem a nosso lado, traindo-se no ranger das portas e dos soalhos, no estalar das vidraças, no estremecer das flores nas jarras, nas correntes de ar inesperadas e improváveis, nas sombras súbitas que se te atravessam no corredor da casa tranquila e vazia. O teu gato consegue vê-los, aos teus mortos que te povoam as assoalhadas cintilantes, quando fica estranhamente quieto, pupilas enormes e negras fixas num ponto qualquer, o pêlo eriçado e o corpo estranhamente estacado... todo ele nervos e atenção de predador selvagem. Os mortos que o teu gato vê, envelhecem, adoecem, ficam rabujentos ou alegres, riem e cantam, choram de tristeza... e não te metem medo... As coisas que tu dizes!...
Acreditas também que aqui expiamos os nossos pecados, pagamos o preço dos erros cometidos em muitas outras vidas... e que o Homem e a Mulher são apenas metades de uma laranja que Deus cortou e espalhou aos sete ventos quando criou o mundo. Por este motivo, só nos completamos com um único ser humano à face da terra. Um único. É pois missão de cada um de nós procurar a metade onde encaixamos, e quando a encontrarmos não devemos desviar o olhar, devemos lutar para a preservar, destruir todos os muros que nos separam.Quando isto não acontece, a nossa metade procurar-nos-á em outra vida, fazendo-se ouvir de modo estranho: objectos que desaparecem misteriosamente ou são trocados de lugar sem alguém lhes mexer, o rádio que subitamente toca mais alto, um cheiro estranho a perfume vindo do nada, invadindo todos os aposentos, uma luz que falha por instantes... Está sempre a acontecer e são eles. Dizes tu. São eles brincando connosco, são eles que se riem da história do Homem que foi à lua e afinal não consegue curar o cancro e a SIDA, não sabe como salvar os oceanos, como evitar as guerras, a fome, a dor e a miséria... As coisas que tu dizes! Ir à lua é tão fácil! Basta um computador e uma simulação perfeita. Difícil, difícil mesmo, é encontrar a metade da nossa laranja. Por isso os mortos de alguém nos acariciam o cabelo ou nos puxam os pés na cama em longas noites de insónia. São apenas meias laranjas que procuram a outra parte, incansavelmente, como uma sina escrita por um deus cigano que do Além tatuou palavras imortais e feitiços inquebráveis nas palmas das nossas mãos.
As coisas que tu dizes...!

2 comentários:

WOLKENGEDANKEN disse...

Olha, faz pouco vi uma reportagem sobre um grupo de pessoas que acreditam a serio que a Terra é plana. Um membro deste grupo até organizou uma expedicao no Arctico para probar que existia um ponto de onde se podia cair da planice da Terra. Se nao fosse tao ridiculo haveria que admirar a coragem da pessoa !!

Há muitos "esotericos" que sao simplesmente pessoas que ao nao aguentar a sua vida criam uma especie de universo paralelo imaginario em que vivem. Se este universo é um sitio agradavel,bom, mas quando o universo imaginario da ainda mais medo que o real.....

Detesto esta "mentalidade das meias laranjas" ! Entao uma pessoa nao é inteira, nao tem a possibilidade de crescer da sua maneira e nao pode como pessoa inteira e crescida encontra-se com outra pessoa inteira e crescida para relacionar-se duma forma adulta sem posses e dependencias ??!!

De Profundis disse...

As coisas que se dizem...não é?
Beijinho