terça-feira, 30 de novembro de 2010

Ó Stora...


Seria o Amor Português (Variações sobre um Fado)

Muitas vezes te esperei, perdi a conta,
longas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos. Que me importa
batam à porta, façam chegar
jornais, ou cartas, de amizade um pouco
- tanto pó sobre os móveis da tua ausência.

Se não és tu, que me pode importar?
Alguém bate, insiste através da madeira,
que me importa que batam à porta,
a solidão é uma espinha
insidiosamente alojada na garganta.
Um pássaro morto no jardim com neve.

Nada me importa; mas tu enfim me importas.
Importa, por exemplo, no sedoso
cabelo poisar estes lábios aflitos.
Por exemplo: destruir o silêncio.
Abrir certas eclusas, chover em certos campos.
Importa saber da importância
que há na simplicidade final do amor.

Comunicar esse amor. Fertilizá-lo.
"Que me importa que batam à porta..."
Sair de trás da própria porta, buscar
no amor a reconciliação com o mundo.

Longas manhãs te esperei, perdi a conta.
Ainda bem que esperei longas manhãs
e lhes perdi a conta, pois é como se
no dia em que eu abrir a porta
do teu amor tudo seja novo,
um homem e uma mulher juntos pelas formosas
inexplicáveis circunstâncias da vida.

Que me importa, agora que me importas,
que batam, se não és tu, à porta.

Fernando Assis Pacheco

(Contei-lhes, porque eles não sabiam, que o Fernando Assis Pacheco era jornalista. Que quando era jovem, foi actor de teatro e que desde sempre amou a poesia. Que estudava e conhecia profundamente a cultura galega. Que traduziu para português obras de Pablo Neruda e de Gabriel Garcia Márquez. Contei-lhes, porque eles não sabiam, que o Fernando Assis Pacheco escreveu um poema extraordinariamente belo e que eu sei de cor há muito tempo... Contei-lhes, porque eles também não sabiam, que este grande poeta morreu faz hoje quinze anos e que me apeteceu muito recordá-lo... Depois, devagar, saboreando as palavras, li-lhes o poema. E no fim, fez-se um silêncio sepulcral rasgado apenas pelo pedido insistente - "Ó Stora, leia outra vez..." - E eu sorri-lhes, e li de novo.)

3 comentários:

Pedro Gaivota disse...

Olá Ana Paula.

Ao que parece, desta vez atreveu-se a levar os seus alunos a visitar o "seu moinho". O "seu refúgio sonhado, o minúsculo pedaço de paraíso encostado ao mar, tão próximo das estrelas"...Parabéns!!! Pelo que a Ana Paula dá a conhecer de si neste espaço, acredito que uma postura mais auto-confiante, transparente e genuína da sua parte traduzir-se-á em claros benefícios para a Ana Paula , mas sobretudo para os seus formandos.

"O professor medíocre descreve,
O professor bom explica,
o professor óptimo demonstra,
o professor fora de série...Inspira."

Inspire-os!!!

De Profundis disse...

:)

Um beijo, Pedro.

Licínia Quitério disse...

Parabéns, Professora. Levar a Poesia aos jovens é uma urgência, uma alegria, um trabalho maior.