quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Os portões da saudade


Atravesso os portões da saudade para te encontrar. Não sei porquê. Talvez por ter sonhado contigo esta noite. Há muito que não acontecia e acordei triste e vazia, com um frio estranho encostado à pele... Ouvia ainda a tua voz, ecoando do fundo das encruzilhadas do meu sonho... Ouvi-a toda a manhã... Tu sabias como fico nervosa no primeiro dia de aulas, tu entendias o nó no meu estômago quando eu te contava e nunca rias das minhas pernas que tremiam. Depois fazias-me um chá que eu odiava mas que engolia em silêncio para não te desapontar. E tu não sabias, mas não era o chá que eu bebia, era o teu amor dentro da chávena, um amor que me estendias no peito e ia comigo para a escola, ficava dentro de mim a manhã inteirinha até as minhas pernas pararem de tremer, até o estômago se apaziguar...
Esta noite, no meu sonho, não te vi. Só lá estavam as tuas mãos, com o anel de prata que nunca tiravas, brilhando muito no anelar esquerdo... Só as tuas mãos, do tamanho da minha saudade... As tuas mãos macias e meigas, segurando no escuro que me devorava, uma chávena de chá quente, adoçado com açucar mascavado.

4 comentários:

AC disse...

Há momentos em que olhamos para o lado em busca dum gesto, dum reflexo, do tal apoio incondicional. E, quando mais precisamos, mas ele não está, a saudade encontra terreno fértil para se insinuar...

Beijo :)

Lídia Borges disse...

Reminiscências, brilhos e detalhes...
Para mim o deslumbre da tua escrita onde, por momentos, reconheci a tua voz na ternura das palavras.

Um beijo

De Profundis disse...

Sim, AC... e dói...

Beijo :)

De Profundis disse...

Obrigada, Lídia :)

Um beijo