domingo, 23 de maio de 2010

A vida é um jogo


A vida é um jogo - dizias. E eu penso no punhado de sonhos que acarinhamos no peito, naquele preciso momento em que as nossas cartas repousam em cima da mesa, de costas voltadas, e não as conhecemos. Não sabemos ainda que cartas a sorte nos deu, que escolhas fizeram os deuses, num momento de ira ou de docilidade. Mas aquele é o jogo que temos e queremos jogar bem, e há mundos e sóis nos nossos sorrisos... Depois, é com esperança que lhes pegamos e as começamos a ver, uma de cada vez. As cartas da vida, nas nossas mãos. Às vezes não temos trunfos. Às vezes não temos todos os naipes. Às vezes as nossas cartas são más e sem valor. E às vezes não temos um parceiro que segure as nossas jogadas. Vamos a jogo, mesmo assim. Teimosamente, vamos a jogo. O jogo do nada entre as mãos e a esperança de que a sorte mude... E muitas vezes desistimos, dámo-nos por vencidos à partida, antes do jogo terminar...
A vida é um jogo. Vamos jogando e contando os pontos, vamos somando vitórias, acumulando derrotas, mas jogando sempre. Procuramos o sorriso do rei de copas e a vida dá-nos espadas. Desejamos o rei de ouros, o rei de paus, e a vida deixa-nos sem trunfos...
A vida é um jogo - dizias. Tu nunca fizeste batota. E eu penso no teu rei de copas perdido nas primeiras jogadas, penso no desalento com que contas as pontos, com que somas derrotas e segues jogando, segues espreitando as cartas da vida sabendo que dificilmente ganharás este jogo. E aquele. E mais outro ainda... Tantos jogos perdidos, tantas derrotas somadas nos teus olhos molhados, tantas percas no frio das tuas mãos, tantas cicatrizes riscadas pelas espadas do azar...
A vida é um jogo - dizias. E eu ouvia-te e percebi que já não queres ir a jogo, que já pousaste as cartas com gestos calmos em cima dos dias... Eu soube que já desististe de jogar. No teu coração, jogador cansado de jogos sem trunfos, não se aninha já a esperança. No teu olhar, todos os gestos estão perdidos, todos os céus se apagaram...
A vida é um jogo - dizia-te. Sim, a vida é um jogo, de sorte e azar. Mas mesmo sem trunfos, mesmo quando só perdemos, mesmo sem fazer batota, sem enganar a vida, temos que ir a jogo. Outra vez.
E por isso te peço: Respira fundo, bem fundo, limpa as lágrimas, sacode o pó da roupa... e joga o jogo da vida, mais uma vez.

2 comentários:

Lídia Borges disse...

Uma metáfora inteira, criativa e muito ajustada.
Às vezes temos trunfos, ganhamos e, por causa disso, acabamos viciados no jogo.

Beijo meu

De Profundis disse...

Vício bom, o da vida... :)

Beijinhos, Lídia