domingo, 29 de novembro de 2009

Da amizade


Amigos são anjos que nos sustêm quando as nossas asas estão magoadas.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Da solidão


(...) Meu Deus, a pouco e pouco vamo-nos tornando sotãos onde o passado amarelece, a pouco e pouco os sotãos invadem a casa que somos, principiamos a mover-nos entre sombras truncadas de gente, emoções, memórias. Lentamente tiram-nos tudo, o presente afunila-se, o futuro uma parede. E nós, apesar de adultos, tão crianças, assustados, perdidos, juntando pedaços dispersos para nos reconstruirmos de novo, continuarmos. Na direcção de quê? Para onde? Quem nos espera ainda? (...)

António Lobo Antunes, in Livro de Crónicas

pessoas que gostam de escrever.
Há pessoas que sabem escrever.
Há escritores.
Há bons escritores.
E há o Lobo Antunes.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Dias assim


Que dias há que na alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.

Luiz Vaz de Camões

Ó Stora...


- Ó Stora... Porque é que tudo junto se escreve separado e separado escreve-se tudo junto?
- ... :(

Do sorriso


E percebi que os sorrisos servem para uma data de coisas, como por exemplo para tapar buracos que aparecem quando o mar das palavras se transforma em deserto.

Maria Teresa Maia Gonzalez, A Lua de Joana

Vox populi, vox Dei


A mais alta das torres começa no solo.

Provérbio chinês

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Quietude


Apagaram-se os pirilampos
no campo, meu amor
E as cigarras calaram a voz
numa mordaça triste.
Tudo se aquieta... meu amor
Até o bonito tronco rugoso
do castanheiro velho não geme já
na dança vadia com o vento norte.


Ficou apenas um silêncio escuro
o abraço invisível do vento
na chuva que se enterra...
E o eco ensurdecedor
dos teus passos no vazio.
Os teus passos, meu amor...
Como uma maldição
que se cumpre devagar.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

No sangue do tempo


Foste o meu passado
e serás o meu futuro
mesmo quando o futuro
já tiver acabado.

O princípio e o termo
a luz e o escuro

quando o fim do presente
já tiver terminado.

Maria Teresa Horta, Obra Poética

domingo, 22 de novembro de 2009

Arranja-me uma mentira...


Olha, fazemos assim: da próxima vez que eu perguntar tu mentes-me, arranjas uma mentira qualquer, uma mentira singela daquelas que não trazem mal ao mundo e atiras-me com ela sem hesitar, pendurada na curva do teu sorriso, como uma onda salgada... E eu finjo que acredito... Podes falar-me da alergia sazonal que nunca tiveste e eu até duvidarei das lágrimas que te vi enterrar na manga do casaco enquanto te prendia o cabelo com os ganchos e te perfumava os pulsos como tu gostas. Não foi impressão minha, havia uma angústia áspera que te embaciava o olhar, notei o tremor gelado preso à sombra dos teus gestos, por isso, inventa qualquer coisa, o que quiseres, conta-me do tempo frio, do vento e da chuva, da roupa que não seca e te enerva, amontoada na velha bacia castanha com rasgões tristes, que te custa tanto carregar... culpa o leite derramado num mar de espuma quente, agarrado às paredes do micro-ondas esquecido, o aspirador avariado, a chave partida ou uma lâmpada fundida num estouro imprevisto que te deixou o coração em sobressalto... Mas desencanta uma mentira, diz-me das catástrofes que vergam o mundo, as notícias negras e tão injustas dos telejornais, a morte inesperada do protagonista do livro que andas a ler, a noite mal dormida, a vizinha barulhenta que te sacode o silêncio, a torneira que pinga num lamento eterno... sei lá, qualquer coisa... Mas mente-me, inventa-me uma mentira que arrombe as portas do teu peito e deixa-me entrar por aí adentro... Deixa-me fazer ninho num lugar pequenino do teu coração onde eu possa ficar a contar-te histórias ou a cantarolar baixinho a tua canção preferida como tu me fazias quando eu era criança, até que o amanhecer exorcize essa dor que julgas conseguir esconder de mim.
Da próxima vez que eu perguntar, arranja-me uma mentira... Pode ser?

sábado, 21 de novembro de 2009

Da perseverança


Transportai um punhado de terra todos os dias e fareis uma montanha.

Confúcio

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Quando menos se espera


Quando menos se espera, o corpo branco de um veleiro silencioso rasga ao fundo o azul, vai ganhando o mar, deixando que a viagem apeteça. E de repente, quando já nada se espera, um brando vento que tudo clareia, empurra as paredes de rocha e desenha rotas líquidas nas estradas do mar da vida. Rotas que nos chamam de novo, caminhos luminosos sob o rosto redondo de uma lua cheia, onde apetece navegar... Inesperadamente, quando já não se acreditava, impertinente e teimoso, num riso trocista, o sonho desafiando-nos alto... outra vez. Quando menos se espera.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Silêncio


Não... não digas nada.
Eu sei ler o avesso do teu silêncio.
Conheço-o quando se faz ave presa ao chão, as asas rasgadas, ferida na impossibilidade do voo... ou quando é só uma mão fechada estrangulando a boca das palavras.
Por isso... não digas nada.
(Abraça-me apenas).

domingo, 15 de novembro de 2009

O piano


A minha vizinha comprou um piano. Quando hoje ouvi as notas tímidas pela primeira vez, parei o que fazia e escutei surpresa e encantada, a cabeça inclinada atrás da claridade do som que atravessava as paredes e se insurgia na quietude matinal, como um sorriso de sol ou um roçagar de asas de pássaro... Era mesmo um piano. E a pedra da memória soltou-se com suavidade, transportou-me a tantos anos atrás, quando era criança e fazia a pé o caminho até à praia, por uma ruazinha apertada e ventosa, sombria, onde quase ninguém passava. Eu gostava daquela rua, do empedrado que fazia soar alto os meus passos de criança e brincava com o som que ecoava do meu caminhar. A meio da rua morava uma pianista idosa que dava aulas de piano a crianças e o som daquele piano enchia o percurso de sol e alegria, de espanto e magia... Às vezes ouvia-a ralhar... mas mesmo assim, desejava poder ser uma das suas alunas e sentar-me ao piano daquela casa, arrancar melodias encantadoras, como por magia, das teclas que me chamavam. Ao cair da noite, quando regressava da praia, era já a própria pianista quem tocava, finalmente liberta da obrigação das aulas e entregue à fluidez do seu próprio sentir, a janela escancarada sobre a rua, como se quisesse generosamente oferecer a música aos passantes... A rua brilhava de luz com aquele som fantástico, tornava-se subitamente mais bonita e quente, o meu coração de criança sorrindo num turbilhão de encantamento... E então parava em frente à janela e sentava-me no passeio de pedra fingindo apertar as sandálias, os meus dedos simulando os gestos da pianista, os olhos parados nessa viagem que me acontecia dentro do peito...
Ouço-o agora, o piano da velha pianista que me encantava... ou será o da vizinha, gemendo sob os dedinhos inseguros da filha mais velha? Pouco importa... Páro de novo e escuto... Abandono o que fazia e escuto apenas... e as memórias que trazia guardadas, como se me beijassem a pele num arrepio, voltam em melodias de sorrisos e enchem-me de uma alegria calma e inesperada...

sábado, 14 de novembro de 2009

Um dia de cada vez


Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro e depois perdem o dinheiro para a recuperar. Por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem o presente, de tal forma que acabam por nem viver no presente nem no futuro. Vivem como se nunca fossem morrer e morrem como se não tivessem vivido.

Confúcio

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Da claridade dos teus passos


Falta a luz dos teus olhos na paisagem:
O oiro dos restolhos não fulgura.
Os caminhos tropeçam, à procura
Da recta claridade dos teus passos.
Os horizontes, baços,
Muram a tua transparência.
Sem transparência.
O mesmo rio que te reflectiu
Afoga, agora, o teu perfil perdido.
Por não te ver, a vida anoiteceu
À hora em que teria amanhecido...

Miguel Torga, Obra Poética

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Muros


Há pessoas que erguem muros. Pacientemente, pedra sobre pedra, sobem-nos até ao céu e sentem-se finalmente emparedadas... falsamente protegidas. Depois, dedicam-se a fechar todas as frestas por onde entre uma réstia de luz doirada, uma brisa matinal, o sal de uma onda fugitiva, o brilho prateado do luar... E ficam sozinhas. Os construtores de muros são seres solitários, magoados. Voltados para dentro de si, lambem as próprias feridas e empurram o vento com as mãos, o vento teimoso que lhes invade as fissuras e penetra por todos os poros... Isolam-se. Para que nunca mais ninguém os magoe, estes arquitectos da solidão refugiam-se no escuro de um poço que os arrasta para o vazio, para o buraco negro da velhice e da tristeza infinita. Apodrecem sozinhos, numa escolha consciente e determinada, porque perderam a fé nos homens e no amor, no riso e no pranto, no perder e ganhar quotidiano que nos engrandece na estrada da vida...
Mas os muros derrubam-se. Os muros caem. O muro de Berlim é prova disso. E no entanto, não é desses muros que falo, esses são frágeis e transformam-se em pó debaixo dos golpes fortes de um qualquer gesto libertador. Os muros mais difíceis de destruir são feitos de pele fria, de bocas que não conhecem sorrisos, de mãos que não se abrem num abraço, de vozes que se calam em mil silêncios, de olhos parados numa quietude baça...
Apesar de tudo... acredito que também esses podem cair. Basta querermos. Basta deixarmos.

domingo, 8 de novembro de 2009

Palavras fundas


Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética

sábado, 7 de novembro de 2009

Cá dentro


Hoje, se ainda estivesses connosco, teria sido um dia feliz. A família estaria reunida em volta de um bolo, tu apagarias as velas e pedirias um desejo com os olhos fechados... depois rasgarias o papel do embrulho dos teus presentes com um brilho no olhar e verias os livros que eu teria escolhido para ti... Brindaríamos com champanhe, as taças tinindo alegres na limpidez do cristal e desejaríamos uns aos outros muitos anos de vida, por entre abraços e sorrisos. Depois, como se tivesse outra vez quatro anos, eu procurava o teu colo e aninhava-me no calor do teu casaco de lã enquanto te contava ao ouvido a minha nova vida... E tu brincarias com as pontas do meu cabelo e ouvirias tudo atentamente, o teu olhar de médico clinicamente pousado no meu, à procura das minhas emoções...
Mas o dia não foi assim. Foi um dia gelado e triste. O coração pesou-me e aquele aperto no peito que sinto às vezes, esteve comigo o tempo todo. Acalmou um pouco quando te deixei uma flor na lápide branca onde o teu nome aparece já esbatido, escorrendo saudade e tristeza por entre as gotas de chuva fria. Acalmou um pouco, agora que te escrevo e conto quantos anos farias se não tivesses partido, agora que tento imaginar os teus cabelos negros salpicados de fios brancos e rugas no teu rosto bonito. Acalmou um pouco, enquanto relembro o teu colo, as mãos acarinhando-me, os braços apertando-me junto a ti...
Hoje seria o teu aniversário. E eu passei-o contigo, papá.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Da poesia


Se a tua dor te aflige, transforma-a num poema.

Autor desconhecido

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Ela


Às vezes passa-lhe pela cabeça desistir. E é nessas alturas que dobra o medo em pedaços muito pequeninos e o esconde debaixo da pele, para ninguém ver. Mas de nada adianta. O medo agarra-se-lhe aos poros como um perfume intenso e causa-lhe vertigens, fá-la vacilar... É então que vai buscar o sorriso. É um sorriso bonito, nascido da timidez e da humildade de quem não se apercebe da luz que carrega consigo e que, no entanto, ilumina tudo em derredor... Respira fundo. E sorri. Naquele sorriso que lhe veste o rosto como uma máscara, julga esconder finalmente o medo. Sempre o medo. Mas não adianta. Um observador atento lê os gestos inseguros, o brilho inconfundível da lágrima insistente, o silêncio súbito que denuncia a ausência para um qualquer lugar distante onde ninguém a alcance... E ela não sabe. Não sabe que o medo não se mata, não se vence, não se esconde. Aprende-se a viver com ele... e é só. Por isso, quando lhe passa pela cabeça desistir, render-se ao medo, fica ainda mais frágil... o coração batendo no peito à desfilada, desejando poder voar como as aves e cruzar os céus infinitos do desassossego, até a coragem erguer novamente a voz... Os muros de silêncio que ergue à sua volta, são grades feitas do frio aço do medo que lhe amordaçam a vontade e lhe pedem para desistir.
Mas de nada serve.

Vox populi, vox Dei


Se tem remédio, porque te queixas?
Se não tem remédio, porque te queixas?

Provérbio oriental

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Palavras...


Morrer é apenas não ser visto. Morrer é a curva da estrada.

Fernando Pessoa