quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Ó Stora...


Há alguns dias que não aparecia, mas hoje chegou cedo. Vem sempre só, senta-se no sofá do canto e fica uma hora quieto, a olhar as estantes carregadas de livros, só de vez em quando atirando os olhos pela janela, talvez para espreitar as aves. Registei a entrada: nome, número, turma, objetivo da ida à biblioteca. Foi desnecessário ouvir a resposta, pois que eu já a sabia - passar o tempo. Não gosta de conversar e responde-me com monossílabos, embrulha-se naquele estranho silêncio e ali fica, olhando vagamente as prateleiras, tamborilando os dedos ao som das teclas do meu computador. Descobri que chega todos os dias à escola uma hora antes da aula porque aproveita a boleia do pai. Estamos sempre sós àquela hora da manhã e hoje perguntei-lhe, mais uma vez, se não queria ler um livro. Como sempre, a resposta saiu veloz - Eu não, detesto ler! Detesto livros! São uma seca...!
Não comentei. Esperei alguns minutos e perguntei-lhe se não gostaria de me ajudar... Eu tinha tantos livros para arrumar, tantas requisições da véspera... E depois, ele era mais leve do que eu, poderia subir mais facilmente os degraus do escadote, sem tonturas, e arrumar tudo mais rapidamente... Levantou-se lentamente, curioso, seduzido. Subiu o escadote, num misto de surpresa e agrado, e agarrou o primeiro livro que eu lhe estendia, para o colocar na prateleira indicada. Com os braços cheios de livros, eu ia dizendo - Este é na da esquerda,  estes dois vão lá para cima, os dicionários ficam ao lado dos outros, na prateleira do meio... 
Depois dos livros arrumados, já não regressou ao sofá. Ficou a rondar-me disfarçadamente e disparou a pergunta: Ó Stora, já leu estes livros todos? Nunca mais parámos de conversar. Respondi-lhe que não - Cruzes, Deus me livre!- expliquei-lhe que nem sequer gostava de todos, só de alguns, a maior parte era uma seca...! Levei-o à estante da banda desenhada, depois à da poesia, fiquei a vê- lo passar o dedo pelas lombadas, a folhear as páginas, num quase afago... - Um dia talvez comece a ler um livro... Talvez um de poemas... - sussurrou meio envergonhado. 

A campainha tocou e ele sobressaltou-se. Pegou na mochila, despediu-se e antes de sair, perguntou a medo: Amanhã posso ajudar outra vez a arrumar os livros?
Vi-o correr para as aulas: uma criança estouvada no seu caminhar, um passarinho a conquistar o mundo... Um futuro leitor apaixonado - aposto eu, com toda a segurança.

6 comentários:

Lídia Borges disse...


Hoje devias estar aqui para eu te abraçar.

Bj.

Lídia

Anna disse...

Eu estou aí. E abraço-te, Lídia.

Anónimo disse...

Pena estar Lá, junto da Lídia Borges, porque se estivesse aqui seria eu quem a abraçaria. Respeitosa mas muito sentidamente... ;)

Anna disse...

Um abraço, Caríssimo.

© Piedade Araújo Sol disse...

andando por aqui a ler, e colocar em dia a leitura daqui.
entro e saio, quase sempre em silêncio.
mas, hoje, fiquei ler e reler este texto.
e como diz a Lídia , também gostava de dar um abraço.
comovida estou....

:(

Anna disse...

Abraço retribuído, Piedade :)

Muito obrigada!!!!

Beijinhos :)