segunda-feira, 9 de abril de 2012

A Vertigem do Abismo


Quando há muito tempo apenas via
mil vezes repetida a tua imagem
num écran do passado, talvez fosse
feliz. A minha alma
nascera de si mesma nesse abismo
e obedecia desde sempre ao lume
do teu rosto - relâmpago
tão de súbito aceso nos meus olhos.

Atravessei contigo, sem saberes,
a música dos dias sem ninguém,
o naufrágio dos anos submersos
pela vida real irreal,
por falsas euforias que pareciam
acender outra chama na febre das noites,
inventar mil desejos onde só havia
um coágulo de luz adolescente
e um coração de cinza, o meu, adormecido
no fundo desse poço onde brilhava
o assombro mortal do teu olhar.

Agora que regresso por um sonho
às sonâmbulas ruas da cidade
sou eu e não sou eu
esta sombra sem nome que estremece
ao selar esse pacto
ao encontrar o último refúgio
na flor da tua boca. Não há lágrimas
que nos calem o peito? Não há vidas
que nos salvem da vida?




Fernando Pinto do Amaral, in Poemas Escolhidos

4 comentários:

Lídia Borges disse...

"Poemas escolhidos"

Obrigada por teres escolhido este por mim, hoje.
Gosto tanto!

Beijinho

Daniel Silva (Lobinho) disse...

Belíssimo!

Mar Arável disse...

Ser e não ser

nas urnas

Anónimo disse...

Essa foto tem um "je ne sais quoi" que lembra Lloret del Mar...