sábado, 21 de abril de 2012

Terra. Chão. Raízes.


Havia um perfume adocicado muito intenso que se desprendia da cesta das maçãs e que eu não sei escrever... Nos degraus de pedra ancorava um raio de sol onde se aninhavam quietos os lagartos e nas asas das aves, inundadas de azul, estavam gravadas todas as rotas... Tudo estava certo, o mundo desdobrava tardes infinitas de pés descalços na terra tão seca, que era a alegria suprema desenhar no pó da pele enigmas secretos com o dedo molhado de saliva. E ríamos... O mundo era tão grande, o mundo era enorme...! Encostávamos as costas à cal das paredes para lhes sentir o calor e lambíamos as mãos pegajosas de compota vermelha e de sumo de laranja... No velho tanque, cheio sempre de água gelada, mergulhávamos o rosto e parávamos de respirar o máximo que pudéssemos, a ouvir o som distorcido das gargalhadas que só sabemos dar na infância... Éramos peixes, éramos pássaros. E não tínhamos medo. 

5 comentários:

Lídia Borges disse...

A infância! O mito da perfeição a ela associado adquire aqui, marcas de presente, vestígios de verdade que se podem cheirar, que se podem tocar e sentir.

Muito, muito bonito!

Beijo meu

Anónimo disse...

Duma beleza que eu não sei escrever.

;)PG

Maria João disse...

"Éramos peixes, éramos pássaros. E não tínhamos medo."

... por isso, talvez seja por isso, que recorremos à memória para não esquecermos o quanto é vasto o céu e o mar se ousarmos. Afinal, na infância, já habitava em nós a verdadeira essência.

Um beijinho grande, tão grande quando a beleza do que escreveste.

Mar Arável disse...

Uma bela viagem

dos tempos da inocência
quando o munda cabia nas nossas mãos

Gostei muito
Bj

Hanaé Pais disse...

Revivi, por uns momentos a minha infância.
Eu ainda continuo a soltar as mesmas gargalhadas.
Dizem-me que trago sempre comigo, a mesma criança.
Um texto repleto de sensibilidade.