segunda-feira, 25 de julho de 2011

Silêncio

Pousava as palavras no papel como se fossem andorinhas alinhadas nos beirais ao entardecer. Depois elas ganhavam vida, rodopiavam no céu do texto e conseguiam pintar a cor das sombras escorrendo pelos umbrais, ou o silêncio de um raio de sol refulgindo em volteios de luz no calcário das estradas. Gostava da escrita difícil, onde prendia o instante único de um sorriso que ilumina o rosto inteiro, a vertigem dentro do peito, o desabar de uma lágrima serena e secreta, que se prende e esmaga entre os lábios... Escrevia como amava, num impulso que arrasta o coração e o deixa por fim rasgado e aos pedaços, espalhado pelas frases, derramado nas palavras, tingindo com o seu sangue as linhas dos dias... Gostava da música das palavras, da água das palavras, do brilho das palavras.

Um dia decidiu deixar de escrever e calar-se para sempre. Porque um dia percebeu que as palavras também matam e ferem, arrasam e reduzem a pó...

Percebeu finalmente que as andorinhas são difíceis de apanhar também na escrita e que nenhum dos seus textos, por muito que tentasse, faria voar um coração humano.

E foi então que algo dentro de si escureceu e se silenciou para sempre.

4 comentários:

Anónimo disse...

Simplesmente belo!
LeChateau

De Profundis disse...

Obrigada, LC :)

Beijo

Anónimo disse...

Porque o fizeste calar?
:(

De Profundis disse...

:))