domingo, 17 de abril de 2011

Sem chão


Lembro-me sempre do Rui, quando tenho que viajar. Era o rapaz mais feio da escola, alto e magrinho, o cabelo sempre revolto e frequentemente gorduroso, um rosto triangular cheio de espinhas infectadas e amarelas... Nunca sorria e andava sempre só, arrastando o corpo desengonçado pelos jardins da escola, sentava-se à chuva e falava sozinho, num solilóquio que só ele sabia e onde não deixava entrar ninguém. O Rui gostava de mim, não és peneirenta como as outras, dizia-me sem saber que me atordoava aquele isolamento, aquela estranha loucura que os colegas olhavam de soslaio e respeitavam muito pouco...

O Rui adorava aviões. Atirava os olhos para o céu e ali ficava, a ver as estradas de fumo riscando o azul, desenhando rotas e setas, por vezes o brilho incandescente de algum avião incendiado pelo sol, e dizia-me como se me confiasse um segredo: Vou morrer no ar. A primeira vez aquilo assustou-me mas depois, aos poucos, habituei-me e brincava com ele, ouvia-o falar de explosões de motores, de falhas de combustível, de asas destruídas por raios, de tempestades e ventos que atiravam os aviões para o fundo dos oceanos, de piratas do ar e pilotos que sofriam ataques cardíacos... Ria-me da loucura dele e ele ria-se do meu terror de voar. Era uma estranha partilha que hoje reacordo após tantos anos... Nunca mais vi o Rui, nem sei se ele é piloto de aviões como sempre sonhou... Não sei se ainda acredita que vai morrer no ar... Se o encontrasse hoje, contava-lhe do medo que ainda não venci... Contava-lhe que amanhã, quando subir as escadas do avião, vou ter o coração descompassado e as mãos frias... Contava-lhe que não me conformo que não haja no céu áreas de serviço onde se possa parar para caminhar um pouco e respirar fundo, que as janelas dos aviões sejam hermeticamente fechadas e seja impossível baixar o vidro e respirar ar puro, sentir o vento... O Rui entenderia, porque sabia que eu gosto de vento a bater-me na cara, que não gosto de me sentir prisioneira num espaço fechado, que morro de medo de andar no ar...

Olho a mala fechada junto à porta de entrada e respiro fundo... Lá dentro, muito pouco do que tenho viajará comigo... mas dentro do peito, todos os medos, todos os terrores que (ainda) não consegui vencer... E quando pisar o chão e olhar em volta a cidade, sei que vou respirar por fim e esquecer de novo o Rui e os seus estranhos disparates...

3 comentários:

Oficial e Cavalheiro na Reserva disse...

Obrigado Ana Paula. Fez-me bem a leitura deste texto.Há muito do Rui em mim. Também eu era "o rapaz mais feio da escola, alto e magrinho, o cabelo sempre revolto e frequentemente gorduroso, um rosto triangular cheio de espinhas infectadas e amarelas..." quanto ao resto do texto para ser franco não prestei atenção... Vais ao mercado comprar cerejas?...

;)

De Profundis disse...

Oficial, ainda bem que te reviste nas minhas palavras... Não te preocupes por não teres prestado atenção ao resto do texto, são apenas inquietudes menores...
Também fui ao mercado, sim. Mas comprei uvas e morangos, as cerejas eram a preços proibitivos... com imensa pena minha! (Sou louca por cerejas, sabias?)

Um beijo e uma óptima Páscoa :)

Anónimo disse...

Sabia Anna que o ar pode ser chão?

Talvez necessite de tempo, o tempo do ar em movimento.

Gosto de si Anna, sim gosto de si!
É tão Profundis, como uma carta de amor, que não escreveu, mas que está por ser escrita.