quarta-feira, 28 de abril de 2010

Face lunar


O cansaço deixa-me as mãos mais lentas sobre as palavras...
Procuro o poema, o silêncio - nada.
Regresso à primeira linha, aos contornos do teu rosto...

E entre os meus dedos, as memórias dançam devagar...
Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Inquietudes


Hoje tenho muitas imagens dentro de mim. É assim às vezes. Surgem do nada, no segundo de um silêncio, partem as vidraças da memória, pousam na mesa e nas cadeiras e aqui ficam... ondulando, abraçando-me. São muitas. Como ondas de um mar inquieto, agitam-se e batem-me contra o peito, vão e vêm, na areia molhada do coração... Hoje tenho muitas imagens dentro de mim, flutuando na maré de um tempo que não sei se vivi e que no entanto sinto como meu... São imagens macias, douradas, que falam comigo e dizem coisas, muitas coisas, tantas coisas que se agarram à minha pele, que esvoaçam com as asas abertas e ficam presas a um sopro qualquer do meu coração...

terça-feira, 20 de abril de 2010

Palavras pensadas


Dizer o que pensamos é um prazer caro.

Anatole France

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O meu sangue à procura do teu coração


Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome - essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração.

Fernando Pinto do Amaral

quinta-feira, 15 de abril de 2010

A espuma dos dias


Nos dias tristes trincamos os frutos devagar, abandonados nas mãos caídas e geladas.
Nos dias tristes não há aves e olhamos os minutos com indiferença, sem palavras na voz. Nos dias tristes telefonamos aos amigos e eles não estão. Caminhamos ao acaso, com os olhos vazios, e não nos cruzamos com ninguém. Nos dias tristes faz frio. E está sempre escuro. Às vezes dói-nos muito a alma, num dia triste... mas nem nisso reparamos.

domingo, 11 de abril de 2010

No coração da cidade


Deixei a cidade ao meio-dia. E sentada no avião, naquele preciso momento em que as rodas se descolam da pista e um frio no estômago nos cola ao assento, não era só de Londres que eu partia. Para trás, não era só a cidade que ficava, respirando o seu ritmo único e eternamente igual, como se eu não tivesse passado por ali... Para trás, quero contar-te, deixei partes de mim que não voltarei a reencontrar... Porque as perdi. Deixei coisas minhas em cada passo, em cada pegada, em cada olhar derramado sob as luzes irreais, em cada pedaço de chão onde me sentei a fotografar, nos degraus de cada escada que subi, em cada sorriso que me roubava a paisagem e até nos silêncios inesperados de quem se sente terrivelmente só no meio de tanta gente... Deixei pedaços de mim na alegria de ser invisível, na sensação inusitada de compreender que no mar de gente com quem me cruzava, ninguém sabia o meu nome, ninguém conhecia os meus sonhos, os meus medos, a minha cor preferida, o cheiro da minha pele, o tom da minha voz... Como se eu não existisse. E no entanto, a lua é a mesma e as estrelas também nascem no céu de Londres, como na minha cidade... Pareceu-me por isso um bom sítio para me abandonar, para me perder, numa cidade onde eu não existia...
Não sei se voltarei a Londres. Eu gostava de levar-te a conhecer a cidade onde fiquei aos pedaços, estilhaçada em tantas emoções que não saberia dizer-te, porque não conheço as palavras que traduzem o que está dentro do coração, no avesso da pele e dos sentidos... Talvez elas não existam. E talvez, também por isso, Londres me tenha parecido um bom sítio para recomeçar... Talvez por isso, já sobrevoando a cidade, eu tenha procurado vestígios da minha viagem, restos de sonhos que abandonei nas ruas, pedaços de mim que deixei perdidos no findar de cada dia. Emoções minhas, a que não regressarei e nas quais ninguém reparará, emoções cravadas nas pedras, nas águas do rio, no verde dos jardins, na luz que abraça a cidade... mas invisíveis aos passantes. Os restos de mim que ficaram. No coração de Londres.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Até sempre


Rasgo as palavras a meio e deixo o silêncio pratear a noite. As estrelas, muito azuis, caem devagar... e nas esquinas do tempo há fantasmas que me encontram para onde quer que eu vá. Fecho todas as portas e encerro capítulos inacabados. Arranco páginas do livro da vida. E são sempre assim, afinal, as partidas: deixamos tudo o que temos... e levamos connosco tudo o que somos. Nas partidas, como na morte.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Cá dentro


Guardamos, nas palavras, tão pouco do que mora dentro de nós.

domingo, 4 de abril de 2010

Páscoa


Não gosto da Páscoa. E no entanto, lembro-me que não foi sempre assim. Havia um tempo em que a Páscoa era roxa, as buganvílias vergadas com o peso das flores explodiam em perfume à porta da casa da minha avó. Abraçavam-me enquanto eu subia as escadas e derramava o olhar sobre os montes castanhos que ladeavam o rio... Sempre achei que aquelas buganvílias me conheciam e me sorriam... Havia um tempo em que a Páscoa cheirava a folar de presunto com ovos caseiros, pingado de azeite nascido no nosso quintal, cheirava a mel e a compotas coloridas... Era um tempo em que eu calçava sandálias novas e vestia vestidos de manga curta, um tempo em que ainda ninguém tinha morrido e a casa sorria, lavada com esmero, refulgia no seu brilho cheiroso... Havia um tempo em que as Páscoas se passavam na larga varanda de cima, onde eu me pendurava para escalar a velha figueira, tão perto do céu... e onde as conversas se demoravam pelas noites mornas, as cigarras enlouquecendo num cantar infinito, e as estrelas tão perto de mim... Lembro-me que estendia os braços, estendia as mãos com os dedos abertos, e nas pontas dos pés, tentava agarrar as estrelas...
Desse tempo só me ficou a saudade, uma saudade colada a mim... e esta mania doida de tentar agarrar as estrelas...

sábado, 3 de abril de 2010

Post Secret


Não queiras saber o que guardo na alma. Não queiras ver que é profunda tristeza o que no olhar finjo ser calma. Não procures palavras dentro de mim, aceita-me os silêncios apenas, ou o que deles ainda restar.