domingo, 4 de abril de 2010

Páscoa


Não gosto da Páscoa. E no entanto, lembro-me que não foi sempre assim. Havia um tempo em que a Páscoa era roxa, as buganvílias vergadas com o peso das flores explodiam em perfume à porta da casa da minha avó. Abraçavam-me enquanto eu subia as escadas e derramava o olhar sobre os montes castanhos que ladeavam o rio... Sempre achei que aquelas buganvílias me conheciam e me sorriam... Havia um tempo em que a Páscoa cheirava a folar de presunto com ovos caseiros, pingado de azeite nascido no nosso quintal, cheirava a mel e a compotas coloridas... Era um tempo em que eu calçava sandálias novas e vestia vestidos de manga curta, um tempo em que ainda ninguém tinha morrido e a casa sorria, lavada com esmero, refulgia no seu brilho cheiroso... Havia um tempo em que as Páscoas se passavam na larga varanda de cima, onde eu me pendurava para escalar a velha figueira, tão perto do céu... e onde as conversas se demoravam pelas noites mornas, as cigarras enlouquecendo num cantar infinito, e as estrelas tão perto de mim... Lembro-me que estendia os braços, estendia as mãos com os dedos abertos, e nas pontas dos pés, tentava agarrar as estrelas...
Desse tempo só me ficou a saudade, uma saudade colada a mim... e esta mania doida de tentar agarrar as estrelas...

4 comentários:

Kleine Hexe disse...

...então partilhamos da mesma mania doida =)

Beijos e é Pascoa!

De Profundis disse...

Um beijo, Kleine.
E um :)

Emoções disse...

Estás a falar da tua avó Ana.
Eu também gostava muito dela.
Tenho uma vaga ideia que na parte detrás da casa havia um quintalzinho.
Estou enganada?
Beijinhos da Dina.

De Profundis disse...

Dina, é da minha avó Olímpia que falo e das Páscoas em Trás-os-Montes, há muitos, muitos anos atrás...

Um beijinho :)