domingo, 11 de abril de 2010

No coração da cidade


Deixei a cidade ao meio-dia. E sentada no avião, naquele preciso momento em que as rodas se descolam da pista e um frio no estômago nos cola ao assento, não era só de Londres que eu partia. Para trás, não era só a cidade que ficava, respirando o seu ritmo único e eternamente igual, como se eu não tivesse passado por ali... Para trás, quero contar-te, deixei partes de mim que não voltarei a reencontrar... Porque as perdi. Deixei coisas minhas em cada passo, em cada pegada, em cada olhar derramado sob as luzes irreais, em cada pedaço de chão onde me sentei a fotografar, nos degraus de cada escada que subi, em cada sorriso que me roubava a paisagem e até nos silêncios inesperados de quem se sente terrivelmente só no meio de tanta gente... Deixei pedaços de mim na alegria de ser invisível, na sensação inusitada de compreender que no mar de gente com quem me cruzava, ninguém sabia o meu nome, ninguém conhecia os meus sonhos, os meus medos, a minha cor preferida, o cheiro da minha pele, o tom da minha voz... Como se eu não existisse. E no entanto, a lua é a mesma e as estrelas também nascem no céu de Londres, como na minha cidade... Pareceu-me por isso um bom sítio para me abandonar, para me perder, numa cidade onde eu não existia...
Não sei se voltarei a Londres. Eu gostava de levar-te a conhecer a cidade onde fiquei aos pedaços, estilhaçada em tantas emoções que não saberia dizer-te, porque não conheço as palavras que traduzem o que está dentro do coração, no avesso da pele e dos sentidos... Talvez elas não existam. E talvez, também por isso, Londres me tenha parecido um bom sítio para recomeçar... Talvez por isso, já sobrevoando a cidade, eu tenha procurado vestígios da minha viagem, restos de sonhos que abandonei nas ruas, pedaços de mim que deixei perdidos no findar de cada dia. Emoções minhas, a que não regressarei e nas quais ninguém reparará, emoções cravadas nas pedras, nas águas do rio, no verde dos jardins, na luz que abraça a cidade... mas invisíveis aos passantes. Os restos de mim que ficaram. No coração de Londres.

4 comentários:

Sonhadora disse...

Minha querida
Adorei o seu texto...pedaços de mim que deixei nas ruas...é lindo.
Fala do meu sentir.

beijinhos
Sonhadora

Lídia Borges disse...

Os teus olhos vêem o que poucos vêem...
Percebo a sensação de invisibilidade e de abstracção do real que nos deixa nus, à luz de uma interpretação nova de nós próprios.

Um beijo de saudades

De Profundis disse...

Sonhadora, por vezes é necessário destruir... para ser possível renascer. É disso que falo nas minhas inquietudes. Obrigada pelo carinho.
Um beijinho

De Profundis disse...

Lídia querida, os meus olhos traem-me tantas vezes... sobretudo quando quero achar o invisível, o punhado de emoções que só se vê bem com o coração...

Um beijo enorme

(Fazes-me falta!)