quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Inquietudes


À hora marcada eu lá estava e encontrava-a invariavelmente na mesma posição, sentada à janela numa cadeira de baloiço, daquelas que já ninguém tem, as mãos abraçando com delicadeza uma chávena de chá que fumegava brandamente em espirais brancas de aroma a laranja. Enquanto esperava, observava fascinada aqueles olhos negros, negros, brilhantes como luas, mas estranhamente quietos. Nunca tinha visto uns olhos assim e não conheço mais ninguém com olhos negros. Cumprimentava-me com um sorriso meigo, um sorriso que fazia nascer inesperadas covinhas infantis no rosto impenetrável, e dizia sempre a mesma coisa: "Estou a escrever histórias". Eu acreditava. Acreditava que ela era capaz de se embrulhar para dentro, e escrever histórias sobre um mundo onde era livre, longe daquela casa que a prendia como garras, que a algemava à tristeza dos dias infinitos de solidão. Soube há pouco que ela morreu hoje. Vou recordá-la sempre... Afinal, foi com ela que percebi que podemos escrever para dentro, histórias que ninguém lerá, mas que nos transportam aonde quisermos ir. Foi com ela que entendi que escrevemos para nos livrarmos de alguma coisa, de um peso qualquer que mais ninguém sente e mais ninguém compreende. Coisas nossas, cá dentro, que por vezes nos pesam como chumbo, mas têm ao mesmo tempo um perfume a laranja que nos aquece o coração viajante.

2 comentários:

Anónimo disse...

Mi gusta tus palabras. Son de una sensibilidad muy grandiosa. Mi gustaria mantener contato. Soy de Andaluzia, España.
Mi correo es: juansalles37@hotmail.com
Puedes escribirme.

De Profundis disse...

Juan,obrigada pela visita e pelas palavras tão generosas.
Consigo ler bem o espanhol mas escrever... é outro assunto, infelizmente, porque é uma língua que adoro!
Volta sempre que queiras.
:)