sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Crónicas do Vento Salgado


A luz enorme desta tarde quente escorria da clarabóia do bonito centro comercial, pousava-lhes meiga nos ombros levemente curvados, nos corpos inclinados sobre a mesa. As duas mulheres conversavam baixinho, o mundo dava voltas devagar e a água que uma delas bebia ia aquecendo lentamente no calor das horas. Bonitas, as duas. Ainda jovens. Visuais cuidados mas discretos. Numa cadeira entre ambas, dois sacos da Fnac donde espreitavam as capas da Antologia Poética do Miguel Torga e d'Os poemas possíveis do Saramago. Não ouvi o que partilhavam... Talvez conversassem sobre Poesia. Talvez fosse só sobre a vida. Uma delas tinha lágrimas nos olhos, as da outra não se viam, mas traíam-na mesmo assim, atravessadas na garganta. Não sei o que unia as duas, eram provavelmente amigas, envoltas no consolo que vem de um reencontro há muito esperado... Indiferentes ao ruído, à música, à multidão e às montras apetecíveis, as duas mulheres eram uma ilha rodeada de mundo por todos os lados e, no entanto, estranhamente sós. E eram uma muralha contra a solidão dos dias, a nota dissonante neste quotidiano indiferente às fragilidades do outro, onde cada um de nós desfila máscaras e afivela sorrisos instantâneos... Naquela mesa do canto, percebia-se o mágico intimismo que só conseguem ter as pessoas que se reconhecem como iguais, que se escolhem para sempre entre as centenas com que nos cruzamos diariamente. 
As duas mulheres eram irmãs - concluí. Percebi-o só quando se levantaram e saíram, quando se estreitaram num abraço sentido antes de tomarem rumos diferentes. E eu, que não tenho irmãs, percebi a força de um elo assim: indiferente ao tipo de sangue, à herança genética, aos laços familiares, a amizade límpida é um antídoto contra o medo, contra a asfixia, contra o silêncio e a solidão. E talvez não houvesse compatibilidade sanguínea entre as duas mulheres, mas ambas eram dadoras e recetoras universais na amizade honesta que lhes adivinhei. 
Sim... Agora que penso nisso, definitivamente, elas eram irmãs.    

6 comentários:

Lídia Borges disse...


Abraço-te!... Muito.

Lídia

Luís M.Castanheira disse...

Um conto poético e maravilhoso.

A adivinhada luz sobre dois seres
(e mais um terceiro a observar) fisicamente unidos no momento, mas
eternamente ligados e onde a poesia
entra - mesmo disfarçadamente - nas suas vidas.

Com Um Abraço

Anna disse...

Eu também te abraço...
:)

Beijo, bom fds

Anna disse...

Obrigada, Luís!
A poesia está sempre nos instantes mais improváveis... Só tento encontrá-la e fazê-la palavra...
Grata pela generosidade do seu comentário :)

Bom fds :)

heretico disse...

delicado "perfume" de Mulher...
quem se atreve a romper tão intimo circulo?

beijo

Anna disse...

Eu cá saí de mansinho...

Beijo :)