sexta-feira, 16 de março de 2012

Da morte


De novo a morte. Inesperada, brutal, derrubando os pilares da felicidade, esventrando até sangrar as paredes do coração. Não, tens razão, não consigo lidar com a morte... Talvez isso tenha um nome, talvez os psiquiatras saibam, li algures que a não aceitação da morte é apenas imaturidade emocional. Seja. Crescerei, algum dia? Deixarei alguma vez de os sonhar, aos meus mortos, de lhes ouvir os passos e os risos, de os encontrar na rua, subitamente, ao virar de uma esquina? De lhes sentir o cheiro, como uma brisa suave que passa ao de leve sobre a pele despida? Alguma vez deixarão de regressar numa fotografia esquecida, numa música que irrompe de repente, na silhueta de alguém parecido, numa palavra que só eles diziam...? A morte é um murro no estômago que nos obriga a continuar a caminhar curvados porque há uma dor que nos parte a meio e que só nós vemos, só nós sabemos. É só nossa e não sabemos contá-la. Odeio-a, sabes? Porque rouba sonhos e muda vidas, num instante, no derradeiro instante da batida do coração que desiste. Odeio-a porque é definitiva. Irreversível. Porque leva os que amamos mas leva-nos a nós também, aos pedaços, destruídos, seres humanos em farrapos que têm que continuar de pé, a caminhar mais vazios, mais sós e mais tristes. A morte é nunca mais. A morte é o fim definitivo. O último ato, o ponto final, a porta que se fecha, a luz que se apaga, a nota final da melodia da vida. O escuro. E o silêncio. A eterna saudade. E dói. A morte dói-nos no coração apertado que parece querer rebentar, dói na garganta, no sítio onde nascem as palavras... Talvez seja por isso que cala, que para sempre silencia tanta coisa dentro de nós... 

7 comentários:

Lídia Borges disse...

«Comovo-me? Enterra os teus mortos e a terra será fértil com novas flores»

Em epígrafe in "Alegria Breve" de Vergílio Ferreira

Uma oblíqua recusa à lágrima que chega.

Beijo meu

Anna disse...

Abraço-te, Lídia...

Maria João disse...

Incompreensiveis são, todas as coisas que nos doem.
Mas partir, pode não ser morrer. Quando alguém, verdadeiramente, morre, é porque não há memória desse último e, aparentemente último,instante de vida.

LIndo o que escreveste, Paula. Vejo-me, partida ao meio... e a dor é insuportável!

Um beijinho grande, grande

Anna disse...

As minhas palavras são só tristes, Maria João. E às vezes a única forma de exorcizar a tristeza é olhá-la nos olhos... e esperar que passe.

Beijo, bom fds e até quarta-feira :)

Rosa Carioca disse...

As pessoas só morrem quando deixam de ser amadas, lembradas...
(Como entendo este seu texto!)

Anna disse...

E às vezes recordar dói...

Um beijinho, Rosa. Obrigada pelas palavras.

Anónimo disse...

ola, será possível saber o nome da musica de fundo?