terça-feira, 31 de janeiro de 2012

No fundo de janeiro

Fecho suavemente a porta deste mês que termina... Janeiro é o mês em branco em que acreditamos que tudo é possível... Mas foi o mês que me arrancou as palavras, me silenciou e me roubou a luz. Janeiro atirou-me para dentro de mim, da minha solidão, foi em janeiro que baixei a guarda e pesei abandonar a escrita para sempre. Porque às vezes não temos forças... E sentimos medo... Muito medo. Mas isto da escrita é como um vício, uma dependência agridoce difícil de abandonar, as palavras assaltam-me de sopetão, montam-me uma cilada e sufocam-me até que as liberte das grades que existem algures, cá dentro... Elas ganham, e eu rendo-me sempre. 
Em janeiro percebi que está tão longe o meu sonho azul de comprar um moinho, não um moinho qualquer, é aquele moinho velho que se ergue sobre as dunas claras à saída da curva apertada de uma solitária estrada de paralelos... De lá de cima vê-se o mar  e ao entardecer o sol aninha-se meigamente para morrer nos céus incendiados... O mundo é um lugar mais belo visto das janelas do meu moinho de pedra...
Neste longo janeiro, rezei para que um cirurgião fosse guiado pela mão de Deus e pusesse novo o coração dentro do peito de uma pessoa que amo muito... Ela sobreviveu. Eu também. Só por isso, janeiro valeu a pena. 
Faço as pazes com os dias... Impossível não ver a luz inesquecível que brilha no fundo deste janeiro que termina.

6 comentários:

Anónimo disse...

"Porque às vezes não temos forças...".

Mas, para escrever basta insidir um dedo de cada vez nos quadradinhos do teu teclado... não cansa assim tanto...

Quanto ao moinho...sou incapaz de os imaginar sem velas cata-vento, uma mó de pedra maciça, cereais para moer e um burro para os transportar...


Quanto ao catavento, à mó e aos cereais, nada poderei fazer, mas quanto ao burro, quero que saibas que podes contar comigo...

Quanto à história do "coração novo", faço votos Ana Paula que seja sempre janeiro na tua vida.


PS: Então os lucros das "Histórias do Mar Salgado" ainda não deram para comprar um moinho??? O Miguel Sousa Tavares, só com os lucros do "Equador" comprou um monte alentejano...

;)

Anna disse...

Encherei o meu moinho de livros e de música. E encherei os olhos de mar. Nada mais.

O meu livro "Sete estórias do Vento Salgado" foi um prémio literário e o regulamento do concurso obrigava, justamente, à renúncia dos direitos de autor. Não recebo um tostão por cada livro vendido.

Obrigada pelo carinho e pelas palavras :)

Beijo

Lídia Borges disse...

Como se janeiro fosse (e é!) um tempo original, onde tudo recomeça, uma nova oportunidade de desenhar os caminhos que conduzem aos moinhos que temos no nosso horizonte.


Beijinho

Anna disse...

Um beijo, Lídia.
Bom fds :)

Maria João disse...

Há tanto tempo que não te escrevo, meu Deus!
Que coisa imperdoável!!

E Janeiro foi, o vento levou-o enquanto bordava na orla dos dias, as tuas incertezas e medos e as tuas preces.
De mansinho, voltaram os dias abertos, a sorrir de dentro das palavras que, afinal, apenas se tinham aninhado dentro de ti, amedrontadas com a tua necessidade de adormecer sob a alma.

Ler-te, é simplesmente uma delicia!!

Um beijinho

Anna disse...

Tinha saudades tuas, Maria João!

Abraço-te...