quinta-feira, 24 de junho de 2010

Com as mãos


Com as mãos
construo
a saudade do teu corpo
onde havia

uma porta,
um jardim suspenso,
um rio,
um cavalo espantado à desfilada.

Com as mãos
descrevo o limiar,
os aromas subtis,
os largos estuários,

as crinas ardentes
fustigando-me o rosto,
a vertigem do apelo nocturno,
o susto.

Com as mãos procuro
(ainda) colher o tempo
de cada movimento
do teu corpo em seu voo.

E por fim destruo
todos os vestígios (com as mãos):
Brusca-
mente.

Eduíno de Jesus, Com as mãos

domingo, 20 de junho de 2010

Pedaços de lua


Entram devagar, sem fazer ruído... Sacodem os pedaços de lua que trazem agarrados aos passos lentos e instalam-se no silêncio da noite funda e tardia. Falam-me de ti. Penteiam-me os cabelos com dedos de ternura, aconchegam-se no meu peito e envolvem-me com braços mornos de alegria como medusas transparentes dum mar salgado ainda por desvendar...
Entram sem avisar, sem pedir licença... Numa maré mansa, dançam à roda do meu quarto, escorrem pelas paredes em rastos de sal que ondulam com a serenidade dos peixes e sorriem-me em conversas sussurradas noutros tempos, noutros lugares, em rotas que fizemos só nossas...
Entram em silêncio e devagar - as tuas saudades - e ficam comigo. Tu comigo. Aqui. Agora.

sábado, 19 de junho de 2010

Até sempre


Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as palavras
que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la
nas mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se conhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma
até aos ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

José Saramago, "Na ilha por vezes habitada" in Provavelmente Alegria

A voz que nos disse tudo


Termino. A voz que leu estas páginas quis ser o eco das vozes conjuntas das minhas personagens. Não tenho, a bem dizer, mais voz que a voz que elas tiveram. Perdoai-me se vos pareceu pouco isto que para mim é tudo.

José Saramago, in Discurso perante a Real Academia Sueca: De como a Personagem foi Mestre e o Autor seu Aprendiz

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Tempo em que se morre


Agora é Verão, eu sei.
Tempo de facas,
tempo em que se perdem os anéis
as cobras à míngua de água.
Tempo em que se morre
de tanto olhar os barcos.

É no Verão, repito.
Estás sentada no terraço
e para ti correm todos os meus rios.
Entraste pelos espelhos:
mal respiras.
Vê-se bem que já não sabes respirar
que terás de aprender com as abelhas.

Sobre os gerânios
te debruças lentamente.
Com o rumor de água
sonâmbula ou de arbusto decepado
dás-me a beber
um tempo assim ardente.

Pousas as mãos sobre o meu rosto
e vais partir,
sem nada dizer,
pois só quiseste despertar em mim
a vocação do fogo ou do orvalho.

E devagar, sem te voltares
pelos espelhos entras na noite acesa.
Eugénio de Andrade

domingo, 13 de junho de 2010

Um nada que arde


- Que se passa?
E a pergunta, feita num tom muito baixo, muito suave, rasgou o silêncio, bateu as suas asas de pássaro, elevou-se nos céus do meu desassossego e ficou a flutuar encostada ao fogo do meu peito. Quase tive medo que o visses, que o pressentisses, que o adivinhasses, que o teu olhar acompanhando a pergunta tão simples, me fizesse desmoronar... Ficámos de novo em silêncio, quanto tempo não sei... E depois escondi o que me ardia, suportei o teu olhar infinitamente triste com os meus olhos secos e pousei calmamente a resposta em cima da mesa, entre nós:
- Nada.
O silêncio de novo. O teu olhar de novo, atravessando-me o coração, encontrando as chamas, a devastação no meu peito, lendo-me o medo, o cansaço e a solidão, rasgando a máscara em mil pedaços... E percebi que sabias, que vias para além das vidraças das palavras, que descias ao poço mais fundo do meu coração e adivinhavas o invisível que eu trazia escondido debaixo da pele, errando nos labirintos do meu desnorte... Depois respiraste fundo e disseste - Vai passar. Esse nada vai passar - e disseste-o como só tu o sabes dizer, com a simplicidade e segurança que sempre me dá a tua presença discreta, com o respeito pelas minhas emoções que nunca invades, pelas portas fechadas que nunca tentas arrombar... Assim, simplesmente - Vai passar - os teus olhos sempre segurando os meus, não me deixando cair... Sorriste. E repetiste - Vai passar.
E eu acreditei que sim. Eu soube que sim.

sábado, 12 de junho de 2010

To the very end


First we feel. Then we fall.

James Joyce

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Hoje não


Hoje não escrevo.
A chuva cai fria num abandono triste e um cansaço doído cresce dentro de mim, agiganta-se, trepa pelas paredes do meu corpo como uma serpente maligna... Ouço-o, sibilante... parecendo o portador de notícias más... Ondula, resvala num silêncio traiçoeiro... e brilham na madrugada os seus olhos frios e impiedosos que me derrubam as palavras, que me atiram para os oceanos do meu peito, fundo, tão fundo, que nem me restam forças para vir respirar, à tona de mim...
Talvez seja por isso. Talvez seja só por isso, que hoje não escrevo.

sábado, 5 de junho de 2010

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Teimosia


No fundo da minha memória há um baloiço pendurado no sotão da casa velhinha da minha avó. Foi nele que aprendi a voar. O meu sonho era chegar com os pés às velhas traves de madeira carcomida que seguravam o telhado antigo, mas o meu corpo pequenino precisava de crescer... Eu não percebia isso e todos os dias a minha meta era tocar o tecto do sotão, ficar tão próximo das clarabóias por onde espreitavam as estrelas, tão próximo, que fosse possível tocar-lhes... Mas um dia, no velho baloiço percebi que não adianta desejarmos desesperadamente uma coisa, é preciso crescermos, é preciso sabermos esperar... Aprendi que por vezes a nossa força, a nossa vontade, não chegam para chegarmos às estrelas... Que precisamos de tempo. Nunca desisti. Nem quando a minha avó morreu e a casa ficou vazia, nem assim desisti. E sempre que passo à porta das ruínas, do abandono, do cheiro da casa da minha avó, vem-me à memória o velho baloiço de grossas cordas cheias de nós, que nunca me levou a tocar as estrelas... Vem-me à memória o sabor delicioso do vento que me despenteava os caracóis, me levantava os vestidos de folhos, a bofetada de liberdade que sentia no rosto quando voava no baloiço, mais alto, cada vez mais alto... até aterrar de um salto, os pés firmemente cravados no chão. Ouço ainda o velho ranger da tábua de madeira onde me sentava, a música cadenciada que me acompanhava os voos e as gargalhadas de pura alegria...
Hoje o meu baloiço é outro... mas o desafio é o mesmo, o sonho não mudou. Hoje o meu corpo cresceu tudo o que podia... mas nunca hei-de desistir. Conservo a alegria insana da infância e a dose de loucura, a persistência de quem teima no voo... E um dia destes, tenho a certeza, eu vou conseguir tocar e agarrar todas as estrelas do meu céu. Só tenho que esperar.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O Amor é uma droga


Causa elevada dependência... E enfraquece-nos. Fragiliza-nos.
Mas isso não interessa nada.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Sumo de lua, na madrugada


Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso,
para a minha ilusão do Paraíso.

David Mourão-Ferreira, Paraíso