quinta-feira, 17 de junho de 2010

Tempo em que se morre


Agora é Verão, eu sei.
Tempo de facas,
tempo em que se perdem os anéis
as cobras à míngua de água.
Tempo em que se morre
de tanto olhar os barcos.

É no Verão, repito.
Estás sentada no terraço
e para ti correm todos os meus rios.
Entraste pelos espelhos:
mal respiras.
Vê-se bem que já não sabes respirar
que terás de aprender com as abelhas.

Sobre os gerânios
te debruças lentamente.
Com o rumor de água
sonâmbula ou de arbusto decepado
dás-me a beber
um tempo assim ardente.

Pousas as mãos sobre o meu rosto
e vais partir,
sem nada dizer,
pois só quiseste despertar em mim
a vocação do fogo ou do orvalho.

E devagar, sem te voltares
pelos espelhos entras na noite acesa.
Eugénio de Andrade

2 comentários:

Lídia Borges disse...

Eugénio de Andrade e... Toda a minha sede se faz água.

Adoro, tu sabes!

Obrigada!

Beijo

Até amanhã :)

De Profundis disse...

Sim, eu sei. E tu também sabes...

Um beijo, Lídia :)