sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O voo do coração


Sento-me no chão do escritório com as pernas à chinês e encosto-me à cal branca, agradavelmente fria. Demoro os olhos pelas estantes carregadas de livros que agora, depois de horas de arrumação e limpeza me sorriem felizes, espreguiçando-se nos seus espaços. Tudo está em ordem, à espera de um novo ano de trabalho. Só faltam as fotografias. Olho as pilhas que já fiz e que esperam pacientemente a minha organização. O chão está coberto de montinhos que me envolvem e me chamam... Decido-me finalmente pelas fotos a preto e branco. Vou separando devagar, por anos, chamando a memória, recuando dentro de mim. E de repente, páro. Entre as minhas mãos, a mais bela foto que possuo olha-me sorrindo, cheia de brilho que o peso dos anos não matou. É uma ampliação em tamanho A4, de grande qualidade, em papel brilhante. Na imagem todos sorriem: os meus pais, que se olham ternamente nos olhos, eu e os meus irmãos, os três de mãos dadas com olhos felizes e expressões inocentes, deliciosas. O meu pai segura no colo um lindíssimo cão branco de pêlo longo e macio, cujo nome eu não recordo... E de repente regresso a Luanda e sou pequenina de novo, brinco todo o dia quase sem roupa num jardim muito verde carregado de palmeiras e estrelícias gigantes, às escondidas e em loucas correrias com os meus irmãos e tenho o quarto cheio de bonecas e como frutos das árvores e sinto o cheiro do cacimbo e tenho medo das trovoadas, dos relâmpagos e dos trovões que parecem destruir o meu pequeno mundo onde sou tão feliz... De repente, o meu pai não morreu e eu sento-me no colo dele que brinca com os caracóis dos meus cabelos até que eu adormeça, cansada de brincar...
Coisa estranha, o coração da gente... Às vezes foge-nos, sai-nos do peito num alvoroço que faz doer e corre veloz por cima dos anos, sem se cansar... Mas quando regressa, vem diferente. Traz feridas que sangram e cicatrizes que não fecham, testemunhas fiéis de que as emoções humanas são impossíveis de comandar. Por isso o respeito tanto, o meu coração. Por isso o deixo em voo livre pelos labirintos do tempo, levantando as pedras da memória, arranhando o musgo gelado da saudade... E quando ele regressa, verifico que pulsa ainda, num bater aflito e descompassado... Recolho-o com carinho e aninho-o dentro do peito, encaixo-o entre os meus seios...
Sorrio. E limpo a fotografia com a palma da mão para que o sal das lágrimas não a manche para sempre.

14 comentários:

quicas disse...

Mesmo entre lágrimas, é bom o regresso do coração, amiga! deixado à solta, ele não descansa enquanto não volta a repousar "entre os ... seios", trazendo "notícia" das vivências, afinal, nunca esquecidas!
Texto que li cheio de ternura.
Beijinho

Lídia Borges disse...

Sempre corremos atrás do que já não alcançaremos porque o nosso coração também se engana e vai como um cego em busca da matéria que o constrói.
Tonto coração, que tem nele o que mais deseja e nem percebe.
Flores, é o que tens na memória!

Beijinho querida!

L.B.

Maria Campos disse...

DI-VI-NAL !

Henrique disse...

É um privilégio conhecer e poder ler uma pessoa tão linda como tu. por dentro... e por fora.

Um beijo, Princesa :)

Emoções disse...

Devemos recordar as coisas boas.
Essas lembranças perduram no tempo, Paula.

Muito bonito o que escreveste aqui.

beijo

ORPHEU disse...

Um texto lindíssimo anna.
beijinho

De Profundis disse...

Sim, Quicas. É bom quando o coração regressa ao lugar onde pertence.

Beijinho

De Profundis disse...

Tenho flores na memória, sim, Lídia. Mas por vezes até elas fazem doer...

Um beijo, amiga :)

De Profundis disse...

Obrigada, Maria Campos. Tinha saudades tuas...

Beijinho

De Profundis disse...

Henrique, obrigada pelas tuas palavras...

Beijo grande :)

De Profundis disse...

Eu recordo sempre as coisas boas, Dina. E o meu maior medo é não conseguir fazê-lo um dia.

Beijinho

De Profundis disse...

Obrigada, Orpheu :)

Volta sempre. Beijinho.

ishia disse...

As memórias... deixam-nos tão felizes, mas deixam-nos tão tristes!

De Profundis disse...

Pois é, Ishia. Uma só moeda, duas faces. Como tudo na vida.

Obrigada pela visita, beijinhos.