terça-feira, 28 de abril de 2009

As mães não têm fome...


Quando se sentou na minha frente, notei imediatamente as mudanças: as olheiras fundas, o rosto mais marcado, envelhecido por uma dor qualquer e a magreza evidente que o casaco denunciava, deixando espaço vazio nos ombros descaídos. Apesar disto, mantinha um ar cuidado e limpo.
E depois falou. Nervosamente, a princípio, mais calma à medida que eu a escutava com atenção... Falou da vida que mudara, mudara tanto nestes três anos em que nos conhecemos...! Falou da separação, do marido que saíra de casa para ir viver com uma jovem brasileira... do salário por receber há dois meses, do pouco dinheiro que sozinha fazia entrar em casa... Falou da indiferença do pai e da revolta do filho, da impossibilidade de diálogo... da medicação para uma depressão... da morte de ambos os pais, porto de abrigo e de ternura, amparo incondicional em todas as horas... Falou de solidão e de sonhos desfeitos... de medo e de angústia... de vazio e de dor. Já no fim, deixou escapar umas lágrimas que disfarçadamente limpou com as pontas dos dedos e pediu-me que tomasse conta do filho, ela já não se sentia capaz...
Acompanhei-a à saída com um estranho aperto no peito, uma sensação de raiva e impotência... e durante o resto do dia, ouvi martelarem-me o pensamento como um eco, as últimas palavras que proferira quando comentei a sua magreza e a necessidade imperiosa de se cuidar e tratar: "A Senhora Professora sabe, também tem filhos. Quando a comida não é muita, uma mãe nunca tem fome..."

3 comentários:

WOLKENGEDANKEN disse...

Há pessoas que passam mesmo FOME ? Num pais da Uniao Europeia ? E nao ha forma de ajudar numa situacao assim ?? Que tristeza .....

De Profundis disse...

Olá WOLKENGEDANKEN :)
Em Portugal há fome, há desemprego, há pessoas endividadas que vivem no limiar da pobreza... Há desesperança, descrença, tristeza... Aqui, e tanto quanto sei, em qualquer outro país da União Europeia. Às vezes as situações são visíveis e a ajuda é possível. Mas frequentemente, sobretudo nas escolas, a vergonha inibe qualquer grito de socorro...
Um beijinho

WOLKENGEDANKEN disse...

Ola de profundis! E que me emocionou o teu post. Claro, eu nao vivo na lua,sei que há crisis, há pobreza, há situacoes de desesperanca, mas fome e ainda por cima de criancas deveria de ser inaceitavel !!
E penso que o dever duma mae e de qualquer pessoa tambem seria gritar a injustica e nao aguentar, aguentar e aguentar o que nao é aguentavel e ensinar a proxima geracao que o caminho é aguentar é nao gritar !!

beijinho :)))