sexta-feira, 27 de junho de 2014

Palavras por dizer

 
Se não há nada para dizer
Onde se acumulam as palavras
Que não foram ditas?

Casimiro de Brito, in Labyrinthus

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Porque partem as aves?

 
Foi numa aula de Ciências da Natureza de um ano qualquer, talvez o 9º ano, mas já não estou certa... O professor era muito jovem, estudante ainda, e nós éramos a sua primeira turma. Lindíssimo e naturalmente inseguro, deixara crescer um bigodinho na tentativa de conseguir um ar mais velho e experiente, como nos confessou na última aula... Nós achávamo-lo ridículo mas a rigidez do sistema não admitia sequer que possibilitássemos que ele o suspeitasse. Entre nós, ficou "O Bigodinho".
A aula era sobre a migração das aves e nesse dia nasceu o meu fascínio por estes seres misteriosos. Durante algum tempo, "O Bigodinho" expôs a matéria, tentou fazer-nos entender o mais fascinante e incompreendido de todos os fenómenos da natureza... Eu ouvia-o encantada, sem pestanejar. No entanto, o professor não soube prender-me porque não tinha respostas para me dar (Ó Stor, porque partem as aves...?) e percebi que tinha que estudar sozinha. Num mundo sem internet, consultei enciclopédias e dicionários temáticos na biblioteca da cidade, vasculhei os livros do avô e passei a pente fino a estante do meu pai à procura de respostas para as minhas perguntas (Como é que as aves sabem para onde têm de ir? Como sabem que é hora de partir?)
No final do ano entreguei, com a sensação de dever cumprido, o trabalho de pesquisa obrigatório e de tema livre, a que tinha dedicado tantas horas de investigação: o meu estudo sobre a migração das aves. Uma semana depois, na aula de avaliação, "O Bigodinho" entregou e comentou o desempenho de todos os alunos, saltando o meu número. Fiquei aterrada. Gelada. Será que o tinha perdido? Será que estava assim tão mau? O professor fez uma pausa e tirou finalmente as minhas páginas (muitas!) de dentro da pasta. Chamou-me e eu levantei-me a tremer, caminhando até à secretária como se para o calvário, os olhos de todos os colegas cravados em mim como punhais... O Stor sorriu, hesitou, depois deu-me os parabéns e disse-me, humildemente, que tinha aprendido muito comigo... Que não sabia, nunca tinha visto as pinturais murais onde há mais de 4.000 anos os egípcios tinham registado o fenómeno; que desconhecia que Aristóteles defendia que as andorinhas hibernavam na lama e que no outono os Rabirruivos se transformavam em Piscos; que nunca tinha estudado as aves noturnas, viajantes solitários que utilizam a noite para viajar... Tinha aprendido comigo, repetiu-o várias vezes perante uma turma assombrada, que me conhecia apenas a predileção e as excelentes notas à disciplina de Português.
Nesse dia, também eu aprendi muito com o Stor de Ciências. Percebi que seja qual for o lado em que estivermos, só faremos as coisas bem se entregarmos o coração; se amarmos o que fazemos; se formos humildes para reconhecer a nossa ignorância e assumirmos as nossas falhas... Como "O Bigodinho" fez.
Nunca mais o vi, nunca mais ouvi falar dele, nunca me cruzei com ele em lugar ou escola alguma. Talvez hoje ele nem seja professor... De mim não terá, de certeza absoluta, qualquer memória. Mas esteja ele onde estiver, nunca o esquecerei. E é sempre ele quem evoco quando olho o céu e me pergunto (ainda): Porque partem as aves?

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Palavras roubadas



Entre nós e o mundo há
quinhentos metros
de grito.

Vasco Gato, in Cerco voluntário

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Tríplice

 
Aninham-se no teu rosto mutilado
sombras incomuns que Cronos talhou
com a negra faca da dor

sábado, 21 de junho de 2014

Verão


Lembro-me das gargalhadas e das cócegas na planta dos pés quando chegávamos à praia, tirávamos as sandálias e caminhávamos pela primeira vez sobre a areia. Eu levava um saco grande cheio de baldes, pás, forminhas, a toalha e o fato de banho para mudar depois do banho... Tu levavas as sandes de tulicreme e a fruta descascada e cortada aos pedacinhos, no tupperware verde que ainda hoje guardo, apesar de partido... Entrançavas-me o cabelo e fazias-me as recomendações do costume, antes de me deixares partir em loucas correrias que sabiam a pura felicidade (Não tires o chapéu e não vás para o mar, olha as horas da digestão... E não saias da minha vista!). Era um dia diferente de todos os outros, a praia com poucas barracas oferecia ainda silêncios que permitiam, quando fechávamos os olhos, ouvir o marulhar das ondas... Eu procurava beijinhos, construía castelos e cobria as pernas com algas, num desejo secreto e inconfessável de me transmutar em sereia...
Na hora de partir, quando o vento norte se fazia mais frio, embrulhavas-me numa toalha e aquecias-me o corpo que tremia enquanto tentavas domar as tranças desfeitas, enodoadas de sal. Sentávamo-nos abraçadas a comer um gelado e eu perguntava-te se podíamos ficar um pouco mais... Tu sorrias e adiávamos até ao último momento a hora de regressar.
Era o primeiro dia de verão.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Horas de água

 
Gosto de Lisboa. Da luz de Lisboa. Do casario derramado pelas colinas e do corpo majestoso do rio... Gosto da Lisboa antiga, das minúsculas ruas empedradas, inclinadas, com uma nesga de céu azul, esborratado pela roupa desfraldada, como bandeiras, a secar nas sacadas que quase se tocam... Gosto da Lisboa moderna, do seu cosmopolitismo, cidade cais de partida para todas as partes do mundo. Gosto do cheiro. Da cor de Lisboa.
Gosto de voltar a Lisboa, cidade onde fui sempre tão feliz. Domingo é o dia e a Maria João não podia ter escolhido melhor ocasião para apresentar o seu livro. Não podia ter escolhido uma cidade mais bonita. Horas de Água é a sua segunda publicação e eu, que gosto muito dela e gosto muito dos versos que faz, quero abraçá-la no domingo, quero desejar-lhe muita sorte e sorrir-lhe entre os que lá estarão.
Regressar a Lisboa para abraçar uma amiga que apresenta um livro de poemas, é o melhor dos motivos...  
Se estiver por perto, venha ter connosco. A autora merece.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Saramago - Quatro anos de silêncio


Ainda agora é manhã, e já os ventos
Adormecem no céu. Pouco a pouco,
A névoa antiga e baça se levanta.
Ruivamente, o sol abre uma estrada
Na prata nublada destas águas.
É manhã, meu amor, a noite foge,
E no mel dos teus olhos escurece
O amargo das sombras e das mágoas.



José Saramago, in Provavelmente Alegria

 

terça-feira, 17 de junho de 2014

A suave mão da tua ausência


A casa está cheia de ti
Não apenas os retratos os recantos
Os quadros
Não apenas os objectos onde
Roça ao de leve
A suave mão da tua ausência.
Mas aquela luz que trazias dentro
E deixavas de passagem
Nos seres e nas coisas.
Talvez agora mores entre as estrelas
Mas brilhas
Intensamente brilhas dentro de casa.


 
Manuel Alegre, in Dispersos e Inéditos

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Querido Facebook


Olha, não estou a pensar em nada... Ou se calhar as coisas em que penso de nada interessarão aos meus amigos... Não, não quero atualizar o meu estado, nem pesquisar pessoas, coisas, tão pouco lugar algum... Quero só o silêncio de domingo à noite, a agenda aberta, os dias passados a pente fino. Quero acreditar que os meus alunos se vão sair bem na terça-feira, que não esquecerão as coisas que lhes ensinei o ano todo, o Pessoa e os heterónimos, a Mensagem e Os Lusíadas, o Sttau Monteiro e o Saramago... Por isso, não quero gostar de páginas nem ser amiga do Sabão Clarim ou da Bolacha Maria... Quero estar por aqui a ler poemas e a responder às mensagens privadas dos estudiosos de última hora (Ó Stora, a deixis, as orações subordinadas adjetivas relativas restritivas, o modificador apositivo, as funções sintáticas...) Tantas dúvidas a queimar a madrugada desta semana que agora começa...
Um aluno faz uma pausa no estudo, desafia a turma para irem ver jogar Portugal amanhã, no ecrã gigante junto ao mar. Cliquei no "Like", talvez vá ter com eles e aproveite para tomar um café em frente ao porto de pesca, os olhos derramados nos barcos e no farol, nas gaivotas e no corpo dos rochedos... (Ó Stora, o que é a Aurea Mediania...??).
Estou cansada, Facebook. Não posso assistir ao evento que me sugeres na quarta-feira, tenho que ir ao Agrupamento de Exames levantar as sessenta provas para correção... E não, também não vou a nenhum dos outros, há os Conselhos de Turma, os relatórios de autoavaliação, de diretora de turma, dos apoios educativos, a escolha dos Manuais para o próximo ano letivo, a reunião com os Encarregados de Educação e as matrículas...
Desculpa, Facebook. Sinto um peso no peito, é sempre assim antes dos exames nacionais (lembrar-se-ão do Tempo, Aspeto, Modalidade do verbo? Dos atos ilocutórios? Das três fases do Campos...? Terão feito os exercícios de revisão...? Será que os preparei bem...?) Deixa-me tranquila, Facebook. Não me perguntes nada. Diz-me que me entendes, que amigos como dantes, e se quiseres, podes só fazer-me um "Like"... Talvez amacie a minha angústia...  

sábado, 14 de junho de 2014

Cabelos de Chuva

 
Antes de sair de casa, ela guardava as lágrimas no bolso mais fundo. Depois andava o dia todo a desembrulhar sorrisos abertos e quando lhe fugiam as forças, metia discretamente a mão no bolso e empurrava as lágrimas mais para dentro, sentia-as atravessarem-lhe o tecido da roupa, humedecerem-lhe a pele morna do peito. Com os dedos molhados, ajeitava então os cabelos em desalinho, naquele gesto tão dela que todos lhe conhecíamos, e sorria de novo. Chamavamos-lhe cabelos de chuva.
Nunca a vimos chorar. Nunca a veremos chorar porque ela partiu hoje, a mulher que guardava as lágrimas no bolso mais fundo.
Quando me fui despedir dela, fiquei muito tempo a olhar-lhe os dedos entrelaçados, cruzados sobre o peito finalmente seco de lágrimas. No rosto cadáver, um teimoso ponto de luz iluminava-a toda: o mais belo sorriso aberto que jamais lhe conheci.

Ser uma casa


Não abras a porta,
se for o sublime diz que não estou,
já temos palavras de mais, sentimentos de mais

A glicínia não floriu este ano,
antes floria à volta de
tudo o que resta de azul à nossa volta,
envelheceu, anima-a só o desejo de voltar a casa, de ser uma casa.



Manuel António Pina, in Como se Desenha uma Casa

 

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Procuro-te


Porém eu procuro-te.

Antes que a morte se aproxime, procuro-te. Nas ruas, nos barcos, na cama, com amor, com ódio, ao sol, à chuva, de noite, de dia, triste, alegre

Procuro-te. 

Eugénio de Andrade, in Obra Poética

segunda-feira, 9 de junho de 2014

O peito às balas

 
O peito às balas... E é assim que quero, hoje. Cai o sol em estilhaços, desfaz-se em cacos de luz à altura dos meus ombros, tens-me na mira certa, um grande plano, para não falhares. Matar ou morrer, tantas vezes na vida. Eu não sei matar, não farei essa jogada, nunca tive essa carta na penumbra dos meus olhos.
Dispara. Atira-me a palavra que guardas escondida nos gestos, que disfarças, para que eu não a veja na dobra da luz caída. Não temas - não falharás o meu peito iluminado por um sol de vidro.
Dispara. É assim que quero morrer: na ponta da palavra que me lanças neste entardecer áspero.
Só depois poderei sair voando, de asas abertas, pela janela dos teus olhos.   

sábado, 7 de junho de 2014

Aqui

 
Um lugar onde somos esperados. Um peito onde somos amados.