segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Quando os homens choram

 
Gosto de futebol. Gosto muito. Para desespero do meu filho, que me considera uma traidora, não me deixo levar por histerias, sou indisciplinada no amor clubístico e torço por uma série de equipas... Gosto do Varzim, do Porto, do Braga, do Benfica e até da Briosa... Entendo o fenómeno do futebol como uma derrocada de emoções, uma catarse que leva um adepto ferrenho do riso às lágrimas, do desespero à alegria, da fúria à loucura, da excitação ao desalento, numa fração de segundos... Capaz de mobilizar multidões, o futebol é um dos espetáculos mais emotivos para a maioria das pessoas que, infelizmente, se deixa dominar pela irracionalidade e se transforma numa besta agressiva, sectária e violenta, atacando os rivais, arrancando cadeiras ou queimando bancadas, rasgando cartões de sócio e acenando com lenços brancos ao treinador incompetente... É o lado mais negro de um desporto que envolve uma pesada máquina de fazer milhões, da qual os passes dos jogadores, cheios de números, são apenas a ponta do iceberg... 
Hoje o Cristiano Ronaldo ganhou a Bola de Ouro 2013. Presa ao ecrã, vi um jovem emocionado e humilde, despretensioso, subir ao palco para receber o seu lindíssimo troféu. No momento do discurso, Ronaldo surpreendeu-me e falou em Português, a mais bela de todas as línguas. Descontrolado pela emoção, deixou que as lágrimas lhe corressem pelo rosto e foi breve nas palavras que usou, sem se preocupar se seria entendido pela plateia que o escutava na Suiça, até porque palavras como "mãe", "filho", "Eusébio" e "Madiba" são universais... Se dúvidas houvesse, falariam por ele os seus olhos rasos de água, a voz que tremia, as feições contraídas num misto de felicidade e dor tão intensas, que são muito poucos os seres humanos que alguma vez experimentaram um minuto assim ao longo de uma vida inteira... São momentos inesquecíveis que a memória grava e guarda para a eternidade. Sempre gostei do Cristiano Ronaldo, do futebol bonito que joga, do seu profissionalismo, das raízes humildes que nunca negou ou tentou esconder, do amor incondicional à família... Hoje, por alguns minutos, com toda a justiça, o mundo rendido aplaudiu-o de pé, reconhecendo-lhe o enorme valor. E Ronaldo soube agradecer com humildade, ciente da sua pequenez, da efemeridade da juventude do seu corpo perfeito que um dia o há de trair e envelhecer, como todos os corpos... Em lágrimas, despudoradamente, homenageou os seus mortos e os vivos que ama, revelando a fragilidade em que se transforma todo o homem capaz de viver um momento único e indescritível. Cresceu e foi ainda maior, entre os maiores. 
Parabéns, CR7. E não mudes nunca, miúdo.  

4 comentários:

Lídia Borges disse...



Parabéns ao CR7!...
Gostamos de ver os nossos vencer, nem que seja a feijões.

Muito boa, a tua crónica!

Um beijo



Jorge Lopes disse...

Bonita "moldura" do evento!

Anna disse...

Obrigada Lídia :)
Desta vez não foi a feijões... Parece que o "feijão" pesa 7 quilos!!!

Beijo :)

Anna disse...

Obrigada Jorge!
:)