sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Há outros Natais


Nem percebia que caminhava na direção errada, subindo contra a multidão que descia, o casaco desapertado no frio do inverno que não sentia na pele nua. Um passo a seguir ao outro, sem firmeza, numa lentidão triste de quem perdeu o rumo certo ou não tem para onde ir, os braços pendendo tristemente, a mão direita segurando com firmeza a trela de um cão. O homem chorava. As lágrimas, duas a duas, aninhavam-se no rosto sulcado de rugas profundas, morriam apertadas nos lábios cheios de cortes que sangravam. A menina não viu um cão?  Não viu o meu Rex? Não, eu não vira, só a dor dilacerante daquele homem era visível e doía... Meteu a mão no bolso e mostrou-me os biscoitos dietéticos e o medicamento, contou-me da diabetes e da dependência de insulina, do tanto que gastava para lhe comprar os remédios, da casa desesperantemente fria e silenciosa há dois dias, das horas vazias de sono e de fome, do cansaço da busca imparável, de como desaparecera num minuto pequenino enquanto ele dormitava num banco de jardim... A menina sabe, ele só me tem a mim!  Sem mim, ele morre...! Eu acreditei. Acreditei porque há amores assim, amores eternos e infinitos, alma de cão e alma de gente, almas apenas, afinal. Acreditei que algures na cidade, um cão  sem rumo perguntava também aos passantes pelo dono perdido, talvez sentindo o desespero do coração que se rasga e se parte, sim, coração de bicho também dói, também sangra, e tenho a certeza que o Rex explicaria, se pudesse, que tinha de encontrar o dono, um velho  que só o tem a ele, que precisa tanto dele, e que sem ele, com toda a certeza, antes do Natal, morre de tristeza, de desespero e de solidão.

10 comentários:

Lídia Borges disse...

Hoje, que andei às voltas com um texto sobre o dezembro das ruas, chego aqui e encontro tudo o que procurava sem ter de escrever uma única palavra.

Comoveu-me tanto!...

Obrigada.

Um beijo

Maria João disse...

As viagens mais belas, aquelas que realmente perduram, são as que fazemos por dentro da alma. Da nossa e de todas as outras com quem nos cruzamos. Nelas, nas almas, encontramos afectos, uma rede que se constrói em momentos de vida e silêncio e nos ampara, como um abraço, de toda a solidão.
Este texto, escrito com o talento e a sensibilidade de quem não receia mergulhar no coração do que quer que seja, é uma tocante e comovente viagem para dentro do que está à nossa volta e onde, longe do brilho das luzinhas, das mesas fartas e do sentir palpável das ofertas, reside o verdadeiro Natal.

Obrigada, Paula!

Um beijinho grande

Anna disse...

Eu é que agradeço, Lídia... É tão bom sentir que as palavras chegam ao coração de quem lê... :)

Beijo, saudades imensas!

Anna disse...

Maria João,

O Natal, por inúmeras razões, é uma época em que ando mais sensível... Olhar os outros, em vez de espreitar para dentro de mim, oferece-me emoções às vezes difíceis de gerir... Mas também isso deve ser matéria de escrita, merece ser matéria de escrita!

Beijo, saudades!

Rosa Carioca disse...

Triste, reflexivo, sensível...
Sim, há outros Natais e há outros "amores"...

Anna disse...

Há sim Rosa, tantos Natais e tantos amores...
Obrigada pela visita e pelas palavras :)

Anónimo disse...

Cão como nós...

Anna disse...

Exatamente, cão como nós...

Nilson Barcelli disse...

A perda de um cão pode ser bastante dolorosa.
Eu que o diga...
Anna, desejo-te um Feliz Natal e um ano de 2012 cheio de coisas boas para ti e para a tua família.
Beijos.

Anna disse...

Nilson, muito obrigada! Desejo-te o mesmo, do fundo do coração.

Beijo