sexta-feira, 27 de julho de 2012

Crónicas do Vento Salgado



Na minha cidade há uma rua íngreme e triste onde não passa quase ninguém. É uma rua estreita sem lojas ou cafés, com os passeios desfeitos e velhas casas de traça antiga que o tempo foi esboroando com lentidão, encostadas umas às outras como presas acossadas à espera do abate. É a rua mais feia que conheço e desde miúda que a atravesso porque ela rasga o ventre da cidade e vai ter ao centro, onde pulsa cheio de vida o comércio local. Sempre gostei dessa rua feia e triste, como se fosse uma nota dissonante no bulício da cidade, onde se ouvem os nossos próprios passos e a solidão se faz sentir pesada como uma pedra. É nessa rua que vive a D. Julinha. Hoje lá estava, como sempre, debruçada na janela do seu quarto que se abre sobre a rua, mendigando sorrisos e palavras aos passantes. Toda a gente a conhece mas ela não conhece ninguém, prisioneira de uma demência que a faz regredir à primeira infância. O tempo corre como um rio e ela lá está, sempre no mesmo sítio, embrulhada na mesma estranha alegria, presa na mesma esmagadora solidão que sempre lhe conheci. Há anos que fica sozinha em casa enquanto a família sai para trabalhar e quando começou a piorar, decidiram fechá-la à chave para não fugir e se perder na cidade. E depois, quando um dia resolveu cozinhar e acendeu todas as bocas do fogão e abriu todas as torneiras para lavar a louça que não tinha usado, a família, para evitar acidentes, decidiu deixá-la fechada à chave no quarto, limitando-a à janela onde se debruça, talvez para respirar... Quando entrei na rua, de imediato vi o seu vulto familiar e ouvi os risos que sempre ouço... Na janela de sempre, a D. Julinha ria feliz, enrolada nos cortinados brancos, e só sobressaíam os seus olhos de um azul surpreendente, enevoados pelas cataratas... São olhos de criança, puros e serenos, inocentes e prisioneiros do seu mundo... E foi então que ela me contou, feliz, que estava noiva e ia casar hoje. Abraçada ao imaginário véu branco que só lhe deixava o rosto a descoberto, dançava presa na sua loucura, no seu sonho, pendurada na janela triste daquela rua feia. Pediu-me rebuçados, atirou-me beijos e ficou a cantar uma estranha melopeia que dentro de si talvez fizesse tanto sentido como a marcha nupcial que só a sua mente ouvia... E quando descia a rua, algo se rasgava em mim, uma dor qualquer, ou talvez fosse uma revolta muda, enquanto as gargalhadas felizes da D. Julinha abafavam o som dos meus passos e tornavam mais triste e mais feia, mais pesadamente solitária e esmagadora, a rua mais estreita da minha cidade.       

1 comentário:

Lídia Borges disse...

Digna de admiração esta crónica que situo, algures, entre o belo e o horrível... A vida!

Beijinho