terça-feira, 25 de setembro de 2012

Palavras tristes



Mãe, eu quero ir-me embora — a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram —
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora — os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim — tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora — nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique —
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito
como uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora — esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua — a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste que um dia chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.
 
Maria do Rosário Pedreira, in O Canto do Vento nos Ciprestes
 

10 comentários:

Daniel C.da Silva (Lobinho) disse...

Comovente e belo...

Anna disse...

Como a vida...
Um beijo, Daniel.

Lídia Borges disse...


Belo, sim! Mas triste, de uma tristeza sem fim.

Um beijo

Anna disse...

Sim Lídia, uma tristeza que dói devagar... e fundo...

Um beijo, saudades mil!

Anónimo disse...

Imensamente triste...
Le Chateau

Anna disse...

Um beijo, LC...

:(

Mar Arável disse...


Abra as janelas

portas escancaradas

permita que o vento sopre
porque tudo se move

Anna disse...

Sim, tudo se move... Mesmo que por vezes não entendamos o rumo que a vida toma...

Um beijo, Eufrázio.

Anónimo disse...

Poderia dizer:
- Extremamente belo...
- Extramamente triste
- Extremamente...
Seria mais eloquente, mas fico-me pelo "Extramamente lobgo" e assim serei mais genuino.

;)É bom vê-la de novo a responder aos comentários.

Anna disse...

Caríssimo Anónimo,
Obrigada pela genuinidade... e pelo carinho :)
Bom fds!

Um beijo