quarta-feira, 13 de junho de 2018

Fernando Pessoa - 130 anos de labirinto

Imagem: "Velho guitarrista cego", Pablo Picasso
Cheguei à janela,
Porque ouvi cantar.
É um cego e a guitarra
Que estão a chorar.
Ambos fazem pena,
São uma coisa só
Que anda pelo mundo
A fazer ter dó.
Eu também sou um cego
Cantando na estrada,
A estrada é maior
E não peço nada.
Fernando Pessoa, in Poesias Inéditas (1930-1935) 

Cá dentro


Conto a idade dos meus velhos: 90, 88, 83, 82 anos. Conto-lhes as rugas dos rostos, as fraldas que mudo, as vezes que faço nestum com mel ou cerélac, em quantos pedacinhos parto a pêra, a maçã, a laranja, o kiwi. Conto os banhos que dou, os medicamentos que coloco ao lado dos pratos: 17, 13, 9, 7 comprimidos. Conto as pomadas. Conto as voltas que dou à chave do relógio da sala de jantar para que a corda não pare: uma, duas, três, quatro... Conto as colheres de sopa, as camisas de dormir, os pijamas molhados e os vomitados, as babetes. Conto os sorrisos, quando chego ao fim do dia: um, dois. Conto os olhos vazios à minha volta, as tremuras das mãos engelhadas, os cabelos brancos ralos, cada vez mais ralos. Conto os terços, os pai-nossos, as avé-marias. Conto os sacos de compras. Conto as batidas do meu coração quando chego lá acima a correr, porque estou atrasada: pum-pum, pum-pum, pum-pum. Conto-as para saber se ainda estou viva. Para acreditar que ainda estou viva.
Às vezes também conto cansaços. E insónias. E solidões. E tantas tristezas, que lhes perco a conta se tento somá-las - arreganham-me os dentes e mordem-me a memória... E deixam rastozinhos de sangue. Já não conto lágrimas - a soma seria só um lago muito fundo, de águas paradas negras, negras, negras. 

terça-feira, 29 de maio de 2018

Crónicas do Vento Salgado


Soube hoje, finalmente, todos os pormenores. É uma daquelas histórias que preferimos que não nos contem, que gostamos de ignorar para que não nos roube o apetite, a alegria de cantar em tom desafinado uma canção da moda enquanto esperamos, no meio da cidade, que o sinal fique verde para arrancarmos finalmente, para irmos às nossas vidinhas - o salto rápido à peixaria, à frutaria, à lavandaria, antes de entrarmos no conforto dos nossos pequenos mundos. É uma história que nos esbofeteia e faz com que o café de repente se torne amargo, que desvaloriza o facto de a nossa equipa de futebol ter ganho o campeonato, de termos acertado três números no totoloto, de o preço da gasolina ter baixado e de o detergente da roupa estar com uma promoção imbatível. Dura, esta história que hoje transformo em crónica, pôs-me uma pedra no coração. E é uma pedra pesada, pesada, pesada.
Soube hoje que afinal de contas, ele não era russo, mas sim moldavo. De uma cidade cujo nome ninguém consegue pronunciar. Um nome, apenas. Distante. Um nome de cidade cheio de consoantes fricativas sibilantes. Ele, pelo contrário, tinha um nome simples: Yuri. Tinha um rosto redondo e uns olhos azuis tímidos, mas cheios de uma luz bondosa. Trinta e tal anos, cabelos louros quase brancos. Toda a gente gostava do "russo". Sabia-se que tinha vindo para Portugal há pouco mais de um ano, numa primavera cheia de promessas. O "russo" só tinha um objetivo: ganhar dinheiro para trazer para cá a mulher e acabarem juntos os dias neste cantinho à beira-mar. Trabalhava como um mouro a aceitava tudo o que lhe davam - roupa, comida, mobílias velhas que recuperava com esmero e mestria. Toda a gente o adorava - repito - e chamavam-no frequentemente para arranjar uma torneira que pingava, para cortar relva num jardim, para arranjar uma persiana, para mudanças e bricolage de toda a espécie. O "russo" sabia fazer tudo. E o tudo que sabia fazer, fazia-o sorrindo e cantarolando, respondendo num português claro, num tom de voz suave, como se pedisse desculpa a todo o instante. 
Foi a vizinha do lado que deu o alerta, num dia de chuva ao fim da tarde. Na casa do "russo", o rádio tocava ininterruptamente desde a noite anterior e ele ainda não tinha saído à rua nem atendia a campainha. Entraram os bombeiros depois da porta arrombada, mas já não havia nada que alguém pudesse fazer por ele. Na banheira cheia de água, o corpo do "russo" estava azul e, preso ao chuveiro, havia um cinto a esganar-lhe a garganta. Os olhos maravilhosos estavam escancarados e fitavam um céu que já só ele via.
Soube hoje os pormenores. O "russo" tinha juntado um dinheirinho e tinha chamado a mulher. Mas um ano e tal é muito tempo e ela tinha-lhe dito que não, que não viria. Ela tinha-lhe dito que já não queria ser a mulher dele. 
Quem o conheceu, não se conforma com esta partida silenciosa e solitária do "russo". Quem o conheceu, gostou daquela doçura, daquela timidez de quem vive clandestinamente num país que não lhe deu um cartão de cidadão. Em Portugal, o Yuri não existia. Era apenas mão de obra barata, pau para todo o serviço, e agora é um corpo na morgue que ninguém reclama. O Yuri merecia um pedaço de terra onde o seu corpo se deitasse. Merecia saber que no país onde sonhou envelhecer e onde escolheu morrer, todos o adoravam. Merecia que lhe contassem que não fazia mal se a mulher já não o queria - o mundo está cheio de mulheres que sabem amar, que saberiam amá-lo. O Yuri merecia saber que os vizinhos estão inconsoláveis e quase juram que ainda ouvem o rádio tocar dentro da casa dele pela noite dentro. O Yuri não contou quase nada da vida dele e o que contou não foi o suficiente para se perceber a sua dor, a sua solidão, o desespero do túnel negro em que entrara. E com a sua partida, enegreceu os olhos de muita gente boa que lhe queria bem - disse-me o dono do café, que me contou tudo isto. 

(Deixo-lhe flores... estas flores. Ao que sei, eram as que ele achava as mais belas).

quarta-feira, 7 de março de 2018

E quando tu depois


E quando tu depois
chegaste, surpreso
e dobraste as esquinas do tempo
como quem chega sem contar
a uma rua cheia de sol
era ainda o vento áspero
das marés vivas.
Mas nós sabíamos

Era já tão tarde nos teus olhos
era tão tarde já dentro dos meus.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Crónicas do Vento Salgado


Mudei de casa há pouco mais de um ano. Foi amor à primeira vista, esta casa pequena, cheia de sol, encravada num bairro tranquilo e moderno. Não conheço os meus vizinhos. Nem os da frente, nem os de cima, nem os de baixo. Temos horários diferentes e nunca nos cruzamos no elevador ou nas garagens. O meu conhecimento dos meus vizinhos resume-se a sons, coisas que oiço e que, um ano depois, me vão sendo familiares. Sei que por cima de mim vive um casal com duas filhas, é o pai quem dá banho às crianças enquanto a mãe faz o jantar. Ouço-lhes as vozes, os risos, as correrias com os pés descalços, os brinquedos que caem ao chão, a banheira a encher-se de água ao fim do dia, a televisão no canal Panda. Mas não lhes conheço os rostos. 
O apartamento por baixo de mim está fechado durante a semana. Só à sexta-feira à noite se enche de vozes, duas, por vezes três vozes diferentes. Ao fim de semana há portas a bater, persianas que se levantam ruidosamente, muito barulho com as louças na cozinha por baixo da minha. Quem são estas pessoas que chegam à sexta e partem ao domingo à tarde, permanece um mistério para mim, neste ano em que cá vivo. No entanto, noto-lhes a ausência se em algum fim de semana o apartamento permanece silencioso, como a boca negra de uma gruta fria.
E depois há o vizinho da frente, aquele sobre quem eu sei mais coisas, de todos os meus vizinhos. Chega tarde, muito tarde, e compensa o ruído do elevador com um bater a porta de mansinho. Vive só. Janta quando chega, mas está pouco tempo na cozinha, e não vê televisão. O meu vizinho da frente ouve música clássica, baixinho, sem interrupção. Está muito tempo na varanda encostada à minha, e sinto-lhe o cheiro do cigarro. Ouço as mensagens que lhe entram no telemóvel e muito raramente, fala ao telefone - conversas rápidas e tardias. O meu vizinho da frente faz-me sempre evocar o poema "Regras do Esquecimento", em especial o verso Não esqueças sobretudo de olhar devagar. Não sei porquê. Talvez porque o ache uma ilha distante, ou um náufrago numa ilha distante, não sei bem... Talvez porque o meu vizinho da frente é misterioso no seu viver, sempre igual, mesmo aos fins de semana quando os de cima cantam a quatro vozes e os de baixo abrem janelas com vigor. 
Todos os dias eu tento, como no verso do Vasco Gato, ouvir devagar o que me chega para além das minhas paredes pintadas de amarelo clarinho: às vezes escrevo histórias sobre os meus vizinhos. Mas ao vizinho da frente dei um nome que não sei se ele tem, um rosto com rugas que talvez não existam; aprisionei-o numa estória bonita, por onde ele anda com passos lentos e serenos, ao som de uma música suave e com o luar pousado nos ombros, como o homem eternamente preso na lua - das histórias que a minha avó me contava como segredos.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Teu Nome


(...)
A cidade está deserta,
E alguém escreveu o teu nome em toda a parte:
Nas casas, nos carros, nas pontes, nas ruas.
Em todo o lado essa palavra
Repetida ao expoente da loucura!
Ora amarga! ora doce!
Pra nos lembrar que o amor é uma doença,
Quando nele julgamos ver a nossa cura!


(A ouvir até à exaustão) Ornatos Violeta, "Ouvi Dizer" (excerto)

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Palavras maravilhosas

Bem podias
trazer-me uma flor,
uma fatia de lua ainda morna,
algumas notas afinadas 
de violino ou piano…
Não me saem bem os versos
sem estas coisas
reservadas aos sonhos.
Bem podias
entrar no poema, agora
antes que seja tarde
e me encontres acordada.

Lídia Borges, in Seara de Versos (http://searasdeversos.blogspot.pt/)

domingo, 28 de janeiro de 2018

Um minuto


Dizia-te do minuto certo. Do minuto certo do amor. Dizia-te que queria olhar para os teus olhos e ter a certeza que pensavas em mim. Que me pensavas por dentro. Que era eu a tua fantasia, o teu banco de trás. O teu desconforto de calças caídas, de pernas caídas, da rua que não estava fechada porque nenhuma rua se fecha para o amor.
Na cidade do meu sono, havia palmeiras onde alguns repetiam putas e charros e atiravam pedras ao rio. Mas eu nunca gostei de clichés. Nem de quartos de hotel. Nem de camas que não conheço. Eu nunca abri as pernas, entendes? Nunca abri as pernas no liceu. Nunca abri as pernas aos dezassete anos, de cigarro na mão. Eu nunca me comovi com o sonho de ser tua. Eu nunca quis que ficasses, entendes? Que viesses. Queria que quisesses de mim esse minuto certo, essa rua húmida de ser norte. Queria que me quisesses certa, exacta, como o minuto onde me pudesses encontrar. Eu nunca quis de ti uma continuidade, mas um alívio, uma noção de ser gente, entendes? Eu nunca quis de ti o sonho do sono ou da viagem. Nunca te pedi o pequeno-almoço, a ternura. Nunca te disse que me abraçasses por trás, que adormecesses. Eu nunca quis que me desses casa e filhos e lógica. Que me convidasses para dançar. Queria os teus olhos a fecharem-se comigo por dentro e tu por dentro de mim.
Queria de ti um minuto. Um minuto.

Filipa Leal, "O Minuto Certo" in, «Egoísta n.º 32», Setembro 2007

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Espelho meu


Há-de haver um espelho onde os meus olhos voltem a ser os meus olhos. Onde o brilho espelhado seja o da minha alegria, tão igual à de quando era menina e corria para a escola com a pasta apertada contra o peito para sentir o cheiro do pão com queijo e marmelada, que haveria de comer no recreio de todas as ilusões. Há-de haver um espelho que me devolva o norte e a luz. Não sei onde, talvez atrás dos montes da minha infância, com as tangerineiras carregadas de frutos inchados, rubros, que me manchavam as mãos e as perfumavam de sumo para todo o dia. Há-de haver numa noite, um espelho onde eu não faça contas à vida nem às rugas. Um espelho redondo, sem princípio nem fim, como os dias de esperas eternas. Há-de haver um espelho onde eu não escreva o teu nome com o dedo, devagar, como só devagar se pode falar das profundezas do mar sem fim, de poesia e de sonhos, de castelos e de deuses. Há-de haver um espelho, algures, um qualquer dia, que responda. Que não me mostre os meus fantasmas. Um espelho de água que engula o rasto das minhas lágrimas. E me devolva o arrepio.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Na Mágoa Maior do Tempo


Fica ao menos o tempo de um cigarro, evita
comigo que este tempo ande. Lá fora são
as casas, vive gente à luz de um candeeiro,
o som que nos chega apagado pela distância
só denuncia o nosso silêncio interrompido.
Ajuda-me, faremos o inventário das coisas
menos úteis, mágoas na mágoa maior do tempo.
Fica, não te aproximes, nenhum dia
é menos sombrio, quando anoitecer vamos ver
as árvores cercando a casa.

Helder Moura Pereira, in Entre o Deserto e a Vertigem

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Fernando Pessoa, 13/06/1888 - 30/11/1935


As Vozes de Fernando Pessoa silenciaram-se há 82 anos.
E conheço poucos versos tão belos como estes, da estrofe final da "Ode Marítima":

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve com uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.

Fernando Pessoa, in "Ode Marítima"

terça-feira, 28 de novembro de 2017

(...)


E entreguei-me - Terás percebido isso? Deixei de saber quem era. Continuo a precisar de ti para existir. Para dormir.

Inês Pedrosa, in Fazes-me Falta

domingo, 5 de novembro de 2017

Cansaço...


Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

Adélia Prado, in Bagagem

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Nunca partias


Era de noite e nunca partias.
Deixavas o teu cheiro nos lençóis
o suor do teu corpo
sobre as minhas ancas mornas
e um cansaço feliz,
nessas noites em que ficavas.

Nunca mais partias.
Encostado à minha nudez,
até que o canto das aves
rasgasse a manhã,
o teu desejo ficava comigo,
a querer ser barco.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Do Tempo que passa


Perdemos repentinamente
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos conservar

mas levamos anos
a esquecer alguém
que apenas nos olhou.

José Tolentino Mendonça, in A Noite Abre Meus Olhos

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Ó Stora...


Há alguns dias que não aparecia, mas hoje chegou cedo. Vem sempre só, senta-se no sofá do canto e fica uma hora quieto, a olhar as estantes carregadas de livros, só de vez em quando atirando os olhos pela janela, talvez para espreitar as aves. Registei a entrada: nome, número, turma, objetivo da ida à biblioteca. Foi desnecessário ouvir a resposta, pois que eu já a sabia - passar o tempo. Não gosta de conversar e responde-me com monossílabos, embrulha-se naquele estranho silêncio e ali fica, olhando vagamente as prateleiras, tamborilando os dedos ao som das teclas do meu computador. Descobri que chega todos os dias à escola uma hora antes da aula porque aproveita a boleia do pai. Estamos sempre sós àquela hora da manhã e hoje perguntei-lhe, mais uma vez, se não queria ler um livro. Como sempre, a resposta saiu veloz - Eu não, detesto ler! Detesto livros! São uma seca...!
Não comentei. Esperei alguns minutos e perguntei-lhe se não gostaria de me ajudar... Eu tinha tantos livros para arrumar, tantas requisições da véspera... E depois, ele era mais leve do que eu, poderia subir mais facilmente os degraus do escadote, sem tonturas, e arrumar tudo mais rapidamente... Levantou-se lentamente, curioso, seduzido. Subiu o escadote, num misto de surpresa e agrado, e agarrou o primeiro livro que eu lhe estendia, para o colocar na prateleira indicada. Com os braços cheios de livros, eu ia dizendo - Este é na da esquerda,  estes dois vão lá para cima, os dicionários ficam ao lado dos outros, na prateleira do meio... 
Depois dos livros arrumados, já não regressou ao sofá. Ficou a rondar-me disfarçadamente e disparou a pergunta: Ó Stora, já leu estes livros todos? Nunca mais parámos de conversar. Respondi-lhe que não - Cruzes, Deus me livre!- expliquei-lhe que nem sequer gostava de todos, só de alguns, a maior parte era uma seca...! Levei-o à estante da banda desenhada, depois à da poesia, fiquei a vê- lo passar o dedo pelas lombadas, a folhear as páginas, num quase afago... - Um dia talvez comece a ler um livro... Talvez um de poemas... - sussurrou meio envergonhado. 

A campainha tocou e ele sobressaltou-se. Pegou na mochila, despediu-se e antes de sair, perguntou a medo: Amanhã posso ajudar outra vez a arrumar os livros?
Vi-o correr para as aulas: uma criança estouvada no seu caminhar, um passarinho a conquistar o mundo... Um futuro leitor apaixonado - aposto eu, com toda a segurança.

sábado, 21 de outubro de 2017

10 anos...!


O De Profundis faz hoje 10 anos...!
Também há dez anos chovia - lembro-me bem -, a tarde estava escura e eu estava triste. Pensei - Porque não? - e comecei a medo: a escolha do modelo, a definição das cores, das imagens, do texto de abertura, o preenchimento dos dados do perfil... A medo, sempre. 

Dez anos depois, não sou a mesma mulher, nem poderia sê-lo. Nem quereria sê-lo. Para além das trivialidades que não me fazem sofrer (tenho mais rugas, mais peso, pinto mais vezes o cabelo), sinto-me hoje mais bela do que há dez anos atrás. Não mais bonita. Mas mais bela. E já não luto contra fantasmas - deixo que eles me visitem, se sentem do outro lado da mesa enquanto escrevo e me olhem com os seus olhos de pedra.  

Dez anos depois, sou mais doce, tenho menos pressa, deixei de esmurrar os muros que me emparedam, deixei de tentar subir com os pés nus as paredes lisas do poço onde caí. Estou mais serena... e menos dramática. 
E por outro lado, dez anos depois, tanta coisa está igual...! O motivo que me levou a criar este blogue, por exemplo, é o mesmo motivo que me leva a mantê-lo vivo e ativo. Nestes dez anos tive outros blogues, encerrei outros blogues, só o De Profundis continua comigo, um navio alado carregado de fantasmas de olhos negros, sem fundo, que navegam ao meu lado e não me atrapalham o marear. Só o De Profundis continua a ser o cais de partida e de chegada, o par de asas escondido no avesso da pele, o lugar seguro ancorado no meu peito.

A si que me visita, que comigo viaja há uma década, o meu muito obrigada!
Hoje demore-se mais um pouco, é meu convidado, dê-me a honra de uma dança e brinde comigo de olhos fechados, enquanto pede um desejo inconfessável.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Meu Amor-Perfeito


O tempo seca a beleza,
seca o amor, seca as palavras.
Deixa tudo solto, leve,
desunido para sempre
como as areias nas águas.

O tempo seca a saudade,
seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.

O tempo seca o desejo
e as suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco,
vestígio do musgo humano,
na densa turfa mortuária.

Esperarei pelo tempo
com suas conquistas áridas.
Esperarei que te seque,
não na terra, Amor-Perfeito,
num tempo depois das almas.

Cecília Meireles, "Canção do Amor-Perfeito", in Retrato Natural

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Coisas simples


Na carta que nunca te escrevi, conto-te tudo: eu sempre quis só coisas simples - escrever o teu nome na casca de uma árvore, na areia da praia, no embaciado de um vidro, no quadro negro da minha sala de aulas, na terra de um canteiro do jardim público. Eu sempre quis só contar o teu nome a toda a gente, gravá-lo em todo o lado, cantá-lo alto, a meio de uma música adolescente. Eu quis a pérola dentro da ostra, a túlipa negra, a lua vermelha dos meses de agosto. Coisas simples, como vês - só manhãs claras e céus abertos, o ruído e o silêncio, o mergulho no mar frio e a vertigem do voo em queda livre.
Na carta que nunca te escrevi, despeço-me de ti. Sem lágrimas, mas com os olhos vazios, como ficam vazias as ruas quando nenhum passante as percorre. Tu gostavas de ruas vazias, eu lembro-me. Gostavas de esquinas batidas de vento. Gostavas de relógios parados. Gostavas de corneto de morango e de café forte. Gostavas de entrar pela solidão da madrugada enquanto escrevias.
Mas, perdi-me... eu confessava-te a simplicidade das coisas que sempre quis: uma manta quente, um livro na mão, a música sussurrando baixinho e um cão aos nossos pés. Quis a tua pele e a tua boca; quis correr contigo debaixo da chuva, atravessar a cidade abraçada a ti, um sumo de laranja numa esplanada cheia de sol; o teu corpo, pela noite dentro. Acordar entre os teus sonhos e acordar-te do teu sono. Sim, eu sei: quis o tudo e quis o nada.
Na carta que nunca te escrevi há uma confissão: agora, finalmente, já sei envelhecer longe de ti - porque escrevi finalmente a nossa história, como me pediste para escrever um dia. Tem o teu nome no título e é uma história bela e simples - como todas as coisas que eu sempre quis.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Palavras Roubadas


(...)
E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

Mia Couto, in Idades, Cidades, Divindades (Texto com supressões)