Provérbio latino
Que dias há que na alma me tem posto/ um não sei quê, que nasce não sei onde,/ vem não sei como, e dói não sei porquê. - Luiz Vaz de Camões
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
Da Vida
- É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas.
Antoine de Saint-Exupéry, Le Petit Prince
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
Palavras roubadas
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade.
Carlos Drummond de Andrade
Carlos Drummond de Andrade
Nas tuas mãos
Nas tuas mãos começava
O mundo
E nada
Nem o dia
Podia ser mais perfeito...
Nem o dia
Podia ser mais perfeito...
Ana Paula Tavares, in Manual Para Amantes Desesperados
Não hei-de pesar-te nunca na memória
Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto
e a luz é fraca e treme e eu tenho medo
das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas
da casa e de tudo aquilo com que sonhes.
Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava
no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha
a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi
de quatro folhas; e das ervas húmidas e chãs
com que em casa se cozinham perfumes que ainda hoje
te mordem os gestos e as palavras.
O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai
demorar-se a regressar. Há tempo para uma história
que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,
serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,
como na minha pesará para sempre a pedra do teu sono
se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.
das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas
da casa e de tudo aquilo com que sonhes.
Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava
no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha
a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi
de quatro folhas; e das ervas húmidas e chãs
com que em casa se cozinham perfumes que ainda hoje
te mordem os gestos e as palavras.
O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai
demorar-se a regressar. Há tempo para uma história
que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,
serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,
como na minha pesará para sempre a pedra do teu sono
se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.
Maria do Rosário Pedreira, "Não Adormeças" in A Casa E O Cheiro Dos Livros
domingo, 5 de agosto de 2012
Norma Jean: 1Junho1926 / 5 Agosto1962
Nao me alimento de "quases", nao me contento com a metade! Nunca serei sua meio-amiga, ou seu meio-amor.. é tudo ou nada.
Marilyn Monroe
O Amor, coisa cintilante
Pois de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente.
Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando.
Carlos Drummond de Andrade
Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando.
Carlos Drummond de Andrade
sábado, 4 de agosto de 2012
Da Felicidade
Pela flor pelo vento pelo fogo
Pela estrela da noite tão límpida e serena
Pelo nácar do tempo pelo cipreste agudo
Pelo amor sem ironia por tudo
Que atentamente esperamos
Reconheci tua presença incerta
Tua presença fantástica e liberta.
Pelo nácar do tempo pelo cipreste agudo
Pelo amor sem ironia por tudo
Que atentamente esperamos
Reconheci tua presença incerta
Tua presença fantástica e liberta.
Sophia de Mello Breyner Andresen, "Felicidade" in Obra Poética
Bastava não ter medo do escuro
Eu dizia-lhe que podíamos ver o resto do mundo. Daqui de onde estávamos, sem ninguém nos ver. Bastava não ter medo do escuro. Bastava esperar que fosse noite.
Clara Pinto Correia, in No Pó Da Bagagem
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
Palavras de seda
A vestir-te
o corpo
nu
ou a sede
que é minha
ou a seda
que és tu
David Mourão-Ferreira, in Música de Cama
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
No fundo de nós
Vergílio Ferreira
Do Amor
Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.
Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.
Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.
Herberto Helder, in O Amor em Visita (excerto 4)
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
No Coração... Talvez...
Uma ferida rasgada de navalha,
Por onde vai a vida, tão mal gasta.
Na total consciência nos retalha.
O desejar, o querer, o não bastar,
Enganada procura da razão
Que o acaso de sermos justifique,
Eis o que dói, talvez no coração.
José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"
terça-feira, 31 de julho de 2012
Anjos ou deuses
Neste palco de sol,
de repente:
os teus lábios:
anjos caídos mas abençoando
Cada curva e tremura
dentro do nervo exacto
da memória
Por esses lábios
eu faria tudo:
rasgava-me de sangue
e inocência,
partia com as mãos vitrais
e estrelas,
desintegrava o sol
Já não anjos caídos
os teus lábios,
mas deuses transportados
pelos meus
Ana Luísa Amaral, "Anjos Caídos" in Imagias
segunda-feira, 30 de julho de 2012
A vida não cabe numa teoria
A vida... e a gente põe-se a pensar em quantas maravilhosas teorias os filósofos arquitectaram na severidade das bibliotecas, em quantos belos poemas os poetas rimaram na pobreza das mansardas, ou em quantos fechados dogmas os teólogos não entenderam na solidão das celas. Nisto, ou então na conta do sapateiro, na degradação moral do século, ou na triste pequenez de tudo, a começar por nós.
Mas a vida é uma coisa imensa, que não cabe numa teoria, num poema, num dogma, nem mesmo no desespero inteiro dum homem.
A vida é o que eu estou a ver: uma manhã majestosa e nua sobre estes montes cobertos de neve e de sol, uma manta de panasco onde uma ovelha acabou de parir um cordeiro, e duas crianças — um rapaz e uma rapariga — silenciosas, pasmadas, a olhar o milagre ainda a fumegar.
Miguel Torga, in Diário
domingo, 29 de julho de 2012
O fogo do teu sol
Que os teus dedos não fiquem
sem rumo
à superfície da sede
Que a tua boca não seque no sal
de um mar inútil
de memórias
Pedras e lágrimas
Procura-me
na terra mais fértil
ou na aridez do caminho
Lê-me
no silêncio dos dias sem idade
sem destino
Sou eu o fogo do teu sol
Edgardo Xavier, "Decifra-me" in Corpo de Abrigo
sábado, 28 de julho de 2012
Semiventos e meias verdades
Não deixe portas entreabertas. Escancare-as ou bata-as de vez. Pelos vãos, brechas e fendas passam apenas semiventos, meias verdades e muita insensatez.
Cecília Meireles
sexta-feira, 27 de julho de 2012
Crónicas do Vento Salgado
Na minha cidade há uma rua íngreme e triste onde não passa quase ninguém. É uma rua estreita sem lojas ou cafés, com os passeios desfeitos e velhas casas de traça antiga que o tempo foi esboroando com lentidão, encostadas umas às outras como presas acossadas à espera do abate. É a rua mais feia que conheço e desde miúda que a atravesso porque ela rasga o ventre da cidade e vai ter ao centro, onde pulsa cheio de vida o comércio local. Sempre gostei dessa rua feia e triste, como se fosse uma nota dissonante no bulício da cidade, onde se ouvem os nossos próprios passos e a solidão se faz sentir pesada como uma pedra. É nessa rua que vive a D. Julinha. Hoje lá estava, como sempre, debruçada na janela do seu quarto que se abre sobre a rua, mendigando sorrisos e palavras aos passantes. Toda a gente a conhece mas ela não conhece ninguém, prisioneira de uma demência que a faz regredir à primeira infância. O tempo corre como um rio e ela lá está, sempre no mesmo sítio, embrulhada na mesma estranha alegria, presa na mesma esmagadora solidão que sempre lhe conheci. Há anos que fica sozinha em casa enquanto a família sai para trabalhar e quando começou a piorar, decidiram fechá-la à chave para não fugir e se perder na cidade. E depois, quando um dia resolveu cozinhar e acendeu todas as bocas do fogão e abriu todas as torneiras para lavar a louça que não tinha usado, a família, para evitar acidentes, decidiu deixá-la fechada à chave no quarto, limitando-a à janela onde se debruça, talvez para respirar... Quando entrei na rua, de imediato vi o seu vulto familiar e ouvi os risos que sempre ouço... Na janela de sempre, a D. Julinha ria feliz, enrolada nos cortinados brancos, e só sobressaíam os seus olhos de um azul surpreendente, enevoados pelas cataratas... São olhos de criança, puros e serenos, inocentes e prisioneiros do seu mundo... E foi então que ela me contou, feliz, que estava noiva e ia casar hoje. Abraçada ao imaginário véu branco que só lhe deixava o rosto a descoberto, dançava presa na sua loucura, no seu sonho, pendurada na janela triste daquela rua feia. Pediu-me rebuçados, atirou-me beijos e ficou a cantar uma estranha melopeia que dentro de si talvez fizesse tanto sentido como a marcha nupcial que só a sua mente ouvia... E quando descia a rua, algo se rasgava em mim, uma dor qualquer, ou talvez fosse uma revolta muda, enquanto as gargalhadas felizes da D. Julinha abafavam o som dos meus passos e tornavam mais triste e mais feia, mais pesadamente solitária e esmagadora, a rua mais estreita da minha cidade.
quinta-feira, 19 de julho de 2012
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