Do outro lado da rua - num 1º andar soalheiro -, mora uma velha cega. Daqui só consigo ver a porta e talvez metade da cozinha, através dos vidros da varanda marquizada onde há uma janela que nunca se fecha.
À tarde, a velha senta-se numa cadeira baixa e, durante horas, sega as couves que alguém lhe deixa ficar dentro de enormes alguidares de alumínio. E, de alguidar em alguidar, mecanicamente, as couves são segadas devagar, por mãos engelhadas cujo tino não é ditado pelo rumo dos olhos. Quando termina um alguidar, a velha cega enche saquinhos de plástico com as tirinhas finas de couve que alguém comprará apressadamente no mercado da cidade e servirá depois, à mesa de um restaurante ou talvez em casa, transformadas em caldo verde saboroso. Findas as couves, a velha cega lava as mãos na torneira de um pequeno tanque, debruça-se sobre a janela que nunca se fecha, bate palmas e chama: "Faísca! Faísca...!". E se ele se demora, bate palmas de novo, de novo volta a chamar: Ó Faíscaaaaa...!". Mas quase nunca ele tarda, aparece correndo, salta os telhados e as varandas e entra pela janela que nunca se fecha. Então a velha recebe-o com sorrisos, senta-se na cadeira pequenina e fica com o gato no colo, passando-lhe a mão pelas costas, demoradamente, com os olhos cegos atirados para o sol do dia que se põe, os lábios movendo-se em prece, ou quem sabe, cantarolando uma canção triste...
Na semana passada, quando cheguei a casa, reparei na janela fechada. Reparei na cadeira vazia. Reparei no silêncio da varanda... E era um silêncio tumular. Depois apareceu o Faísca, negro como breu, e durante horas miou desconsoladamente no peitoril da varanda do lado, chamando talvez a sua velha cega, reclamando da janela fechada.
Hoje contaram-me na padaria que a velha cega não voltará mais. E não se fala noutra coisa, diz-se que há já muitas noites que o Faísca chora tristemente, ignorando a comida que lhe atiram os vizinhos apiedados, recusando responder ao chamado do seu nome, rejeitando outras janelas abertas na noite. Eu mesma o vi agora há pouco... Rondando o silêncio num choro triste, procurando a sua janela e o colo meigo, o Faísca brilhava na escuridão como uma centelha de dor imensa, chamando a sua velha, teimando entrar na casa que ainda não sabe que já não tem.


















