quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Arrependi-me sempre das palavras


Nunca me tinha apaixonado verdadeiramente. A partir dos dezasseis anos, conheci muitas mulheres, senti algo por todas. Quando lhes lia no rosto um olhar diferente, demorado, deixava-me impressionar e, durante algumas semanas, achava que estava apaixonado e que as amava. Mas depois, o tempo. Sempre o tempo como uma brisa. Uma aragem suave, mas definitiva, a empurrar-me os sentimentos, a deixá-los lá ao fundo e a mostrar-me na distância que eram pequenos, muito pequenos e sem valor. E sempre só a solidão. Sempre. Eu sozinho, a viver. Sozinho, a ver coisas que não iriam repetir-se; sozinho, a ver a vida gastar-se na erosão da minha memória. Sozinho, com pena de mim próprio, ridículo, mas a sofrer mesmo. Nunca me tinha apaixonado verdadeiramente. Muitas vezes disse amo-te, mas arrependi-me sempre. Arrependi-me sempre das palavras.

José Luís Peixoto, in Uma Casa na Escuridão

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Insomnia


Pregada no silêncio como uma estrela quieta, no céu escuro.
Dançam incêndios na insónia da minha noite e na praça o relógio bate as horas, lentamente.
Não as conto.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Feliz 2016!


O futuro está cheio de momentos impossíveis à espera de acontecerem.

José Luís Peixoto, in Galveias

(Em 2016, que todos os impossíveis sonhados nos aconteçam...
A si que me visita, obrigada por continuar por aqui, desejo-lhe um Feliz Ano Novo!)

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Palavras de sangue


Chegaste
com a tua tesoura de jardineiro
e começaste a cortar:
umas folhas aqui e ali
uns ramos
que não doeram...
Eu estava desprevenida
quando arrancaste a raiz.

Yvette Centeno, "A Árvore"

sábado, 12 de dezembro de 2015

Mar. Silêncio.


Naquela época eu tinha medo do silêncio e não percebia que não havia mal nenhum em ficar a meio de uma conversa, ou mesmo em não haver conversa entre duas pessoas que vão lado a lado. O silêncio é como o mar. Envolve-nos, e pode submergir-nos, se não soubermos lidar com ele, mas pode também embalar-nos, se perdermos o medo e nos deixarmos ir. Em ambos, mar e silêncio, nada pior do que esbracejar de pânico.

Rui Zink, in A Espera

domingo, 6 de dezembro de 2015

Às vezes


Aceitar o dia. O que vier.
Atravessar mais ruas do que casas,
mais gente do que ruas. Atravessar
a pele até ao outro lado. Enquanto
faço e desfaço o dia. O teu coração
dorme comigo. Agasalha-me as noites
e as manhãs são frias quando me levanto.
E pergunto sempre onde estás e porque
as ruas deixaram de ser rios. Às vezes
uma gota de água cai ao chão
como se fosse uma lágrima. Às vezes
não há chão que baste para a enxugar.

Rosa Alice Branco, in Soletrar o Dia

sábado, 28 de novembro de 2015

Resposta branca


De que me serve tudo quanto me aconteceu, se me não aconteceres tu?

Vergílio Ferreira, in Para Sempre

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

A mesma canção


A sensação que tens
é de que tudo
quanto dizes já o leste
noutros livros. Mas
depois consideras: também
o sol e os pássaros
repetem todos os dias
a mesma canção.

Albano Martins, in As Escarpas do Dia

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Palavras roubadas


Eras a razão do poema. Caminhavas sobre as águas e procuravas uma ilha. Talvez fosses uma metáfora, talvez soubesses o nome das árvores e o destino do mundo. Pode ser que fosses a sombra de um sonho. Ou serias um farol numa praia, uma imagem roubada ao começo dos dias?

Bernardino Guimarães, in Facebook - Página Pessoal

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Lisboa


Se está por Lisboa, venha conversar connosco... Prometemos fazer com que valha a pena :)

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Um adeus em setembro


Quebrou-se a máquina azul do tempo
a que por vezes trazia
por dentro das metáforas
as folhas de Setembro.
Não resta mais do que melancolia.
Os anjos não descem das árvores
nem há duendes nos minutos.
As aves de arribação começam a partir
e deixam nas névoas da manhã
as últimas penas do Verão.

Manuel Alegre, "Elegia de Setembro" in Bairro Ocidental

sábado, 26 de setembro de 2015

Mareantes do vento


Crescemos na nudez das rochas

crescemos e desmaiamos
conforme as marés

Vertemo-nos líquidos
em caudais de sons
ardidos no sal
no delírio da espuma
por todo o corpo

Crescemos na substância das pedras
com asas muito leves

Não somos barco de carregar velas
somos mareantes do vento


Eufrázio Filipe, in Mar Arável (mararavel.blogspot.pt)

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Da espera


Esperar que voltes é tão inútil como o
sorriso escancarado dos mortos na
necrologia dos jornais

e no entanto de cada vez que
a noite se rasga em barulhos no elevador e
um telefone se debruça de um sexto andar

sinto que ficou ainda uma palavra minha
esquecida na tua boca

e que vais voltar
para
a
devolver

Alice Vieira, in Os Armários da Noite

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

OUTONO


De que lado viste chegar
o Outono? Por que janela
o deixaste entrar? És tu quem
canta em surdina, ou a luz
espessa das suas folhas?
Em que rio te despes para sonhar?
É comigo que voltas
a ter quinze anos e corres
contra o vento até te perderes
na curva da estrada?
A quem dás a mão e confias
um segredo? Diz-me,
diz-me, para que possa habitar
um a um os meus dias.

Eugénio de Andrade, in Obra Poética

Palavras de água


Através do teu coração
passou um barco
Que não pára de seguir sem
ti o seu caminho.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Navegações

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Obrigada!




Foi uma noite cheia de uma magia inesquecível... Recebi beijos, abraços dados com lágrimas nos olhos e vontade de não largar, flores e poemas. Recebi os amigos que vieram cheios de risos e encheram a sala de perfume e de cor... Obrigada a todos os que estiveram presentes, e aos que queriam estar mas não puderam... Obrigada pela festa tão linda, em volta do meu livro.
Entrego-vos O Guardião do Silêncio, com todos os espaços em branco que eu quis deixar, com todas as entrelinhas para onde podem escorregar, onde podem aninhar-se a sonhar os vossos sonhos...
Os direitos de autor deste livro reverterão integralmente para o IPO do Porto. Porque sim.
O Guardião do Silêncio é vosso. Eu não tenho mais nada para oferecer.

Ana Paula Mateus

sábado, 12 de setembro de 2015

É hoje...!


Nunca um convite foi uma obrigação. Mas a sua presença será uma honra e uma alegria. 
As portas estão abertas, venha conversar connosco.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Ver por dentro


Nós temos olhos que se abrem para dentro. Esses que usamos para ver os sonhos.

Mia Couto, in Estórias Abensonhadas

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Às vezes aqui faz frio


Contar-te que a chuva parou, e deixou o chão da cidade submerso num brilho escorregadio... Parou de mansinho, no entardecer quieto e quase frio deste outono já encostado ao fim dos dias, cada vez mais breves. Contar-te que a luz rasgada do sol poente - o último raio de sol - rompeu a medo os céus escuros e chegou dourada, numa maciez que trouxe de volta os pássaros. Contar-te nadas, pequenos nadas, - como tu dizias. Como terias repetido, se eu te tivesse telefonado só para te contar a morte da chuva. E terias rido, e terias perguntado se eu me tinha molhado, se tinha andado à chuva como uma miúda irresponsável... 
Ainda não apaguei o teu número de telefone. Continuo a querer contar-te: os pequenos nadas. A chuva miudinha, fria, batida pelo vento norte - que me encharcou até aos ossos, que me gelou a pele e me entrou no coração... Uma chuva igual, tão igual, igualzinha à do dia em que morreste... 
E é sempre esta chuva fria e triste que me faz regressar a ti, nos dias em que não sei de mim.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Da Solidão



Porque eu trazia rios de frescura
E claros horizontes de pureza
Mas tudo se perdeu ante a secura
De combater em vão

E as arestas finas e vivas do meu reino
São o claro brilhar da solidão.


Sophia de Mello Breyner Andresen, "Poema Perdido" in Obra Poética