sábado, 31 de janeiro de 2015

É isto...


- É por essa janela que costuma voar?
Joana Ofélia sorriu.
- Qualquer janela serve. Foi Demérita que me ensinou. Basta olharmos através dos vidros e somos mais livres do que pássaros. As pessoas podem continuar a ver-nos, mas só nós sabemos que há muito que ali não estamos, que voámos com as aves, com o vento, com a poeira da estrada, com a água da chuva.

Alice Vieira, in Se perguntarem por mim digam que voei

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Palavras salgadas


Mesmo que não conheças nem o mês nem o lugar,
caminha para o mar pelo verão.

Ruy Belo

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Crónicas do Vento Salgado


Quando rasgaram a terra para construir a via rápida, a vivenda ficou a descoberto, com os dois andares erguidos orgulhosamente ao sol e as vidraças sempre imaculadas refulgindo, espelhando o azul... É uma moradia modesta com um quintalzinho delicioso que abriga, quase no fundo, um enorme estendal de roupa ladeado por duas oliveiras velhas, de tronco retorcido. Conheço os donos há muitos anos - desde criança - e a minha mãe contava que eles tinham vindo de Angola no mesmo avião que nós, que o homem me tinha pegado ao colo e conversado comigo durante todo o tempo que durou o meu ataque de pânico, que nunca me largou, mesmo quando lhe vomitei o peito da camisa, às golfadas. Na viagem de todos os terrores, a minha mãe descobriu ainda que em Luanda tínhamos vivido muito perto uns dos outros, apesar de nunca nos termos encontrado ou conhecido. A vida correu num sopro, ano após ano, e nunca me cruzei com eles na minha cidade... Somente a minha mãe os via, com intervalos de quase décadas, e de todas as vezes ele perguntava por mim, ria muito do meu terror e da camisa destruída pelo meu enjoo... Despedia-se sempre da mesma maneira, mandando beijinhos "à pequenita", desconsiderando as atualizações dos relatos da mamã: "a pequenita" formara-se, tinha casado, tivera um filho, outro filho... Hoje acredito que ele, por nunca mais me ter visto, aprisionara a imagem da criança frágil que nascera naquela viagem dantesca e nunca me deixara crescer... 
Passo diariamente na estrada que ladeia a casa onde eles moram. Aos sábados de manhã, o enorme estendal está carregado das camisas brancas a que sempre o obrigaram as exigências da profissão, imaculadamente brancas, orgulhosamente brancas, desfraldadas ao vento como bandeiras, parecendo aves gigantes de asas abertas... E eu sorrio e como um raio de luz entrando pela janela, vem, sem falhar, a lembrança da camisa que destruí, há tantos anos, quando era uma pequenita aterrorizada ao colo de um estranho que me cantava baixinho...
Soube que ele morreu hoje. Que morreu durante o sono, abraçado à mulher, na bonita moradia que construiu, grande de mais, vazia dos filhos que nunca pôde ter... E o frio que me gelou por dentro não é culpa deste inverno áspero, eu sei... É talvez porque me fará falta o bando branco de camisas voando no estendal enorme ao sábado de manhã... É talvez porque agora serei obrigada a crescer, agora não serei "pequenita" nos lábios de mais ninguém...         

domingo, 18 de janeiro de 2015

A música das palavras


Na música que é tua,
meus lábios torrenciais
caem pesados, duros.
E nunca mais.

Despenham-se a prumo:
vidros ou punhais.
Arrastam-te ao fundo.
E nunca mais.

Eugénio de Andrade, in Obra Poética

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Na espuma dos dias


E tu não sabes, 
os meus olhos morrem no mar. 
Deixam o teu nome escrito, 
num naufrágio de espuma. 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Mãos

Côncavas de ter
Longas de desejo
Frescas de abandono
Consumidas de espanto
Inquietas de tocar e não prender. 

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Vox populi, vox Dei


As porcelanas mais resistentes são as que vão ao fogo mais vezes.

(Provérbio chinês)

sábado, 3 de janeiro de 2015

As aves, como palavras...


As aves voltaram, como voltam todas as manhãs. Fico a olhá-las através das vidraças geladas num silenciado fascínio, as penas luzidias rebrilhando debaixo de um sol de vidro... Tão misteriosas, tão frágeis, cheias de inquieta vida, as asas abertas escrevendo o mundo... 
Com as aves aprendo. Me prendo. Às vezes sonho alto e são as aves que me levam. 
Se não fossem as aves, talvez morresse de medo.  

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Feliz Ano Novo!


O Homem é do tamanho do seu sonho.

Fernando Pessoa

Em 2015, seja gigante nos sonhos que sonha... Reinvente-se e permaneça indestrutível nas batalhas para os alcançar...
Feliz Ano Novo!

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Aguarela de Natal


Tento escrever o brilho deste dia. A calma. O céu baixo, naufragado em tons de cinza, o esvoaçar tranquilo das pombas e das rolas, a dança em contraluz dos melros no gramado entristecido do meu jardim. Tento escrever o velho azevinho que se ergue majestoso como um navio, os braços verdes apontando as nuvens, riscando um fio de sol... As flores tímidas pontilhando de roxo a terra negra dos canteiros... O musgo que amacia os muros. 
Tento escrever o Natal, o que existe dentro do meu peito, no coração preso às árvores derrubadas pelo tempo, tombadas de saudade... Mel e canela, na chama da minha memória. Risos e colo. Caramelos de nata com rótulo espanhol. Fotografias desfocadas em papel brilhante que nunca ninguém rasgou. Beijos, muitos beijos.
É Natal e eu não escrevo, nada digo. Prendo-te no silêncio dum abraço infinito, deixo que o meu coração de pássaro se ilumine nas linhas suaves dos versos que nunca serão e que encontre a força do fogo que me corre ainda, algures, dentro das veias...


A si que me visita, desejo um Natal cheio de paz.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Esboços


Como um barco, a cidade afunda-se na noite, vai escorregando lentamente para a escuridão que a engole no meio do silêncio.  Conduzo devagar na noite fria, deixo-me ir na estrada deserta... Há luzes incendiando as janelas dos prédios e espreito pedaços de vidas que moram dentro das casas - fugidias - nos escombros da noite. Imagino histórias. Banais e simples. Uma parede amarela, um quadro da Guernica, a cauda de um piano, uma gaiola redonda com um periquito encolhido... Os móveis brancos de uma cozinha, o rosto da apresentadora da noite numa tv ultramoderna, uma menina que dança com uma toalha na cabeça, um homem que fuma com os cotovelos apoiados no peitoril da janela escancarada, uma mulher lavando roupa na marquise de um prédio triste... Esqueço-me para onde vou. Não tenho pressa, demoro-me nesta ocupação de roubar imagens que contam histórias, de riscar versos tímidos que talvez venham a ser poema... Conduzo devagar, mais devagar. Por detrás dos prédios, a lua corre diante do meu carro, enorme, líquida de luz... Tão bela...! Tão cheia de silêncio e de gelo... Digo o teu nome dentro de mim e há uma montanha que se ergue no meu peito. Apago o poema... Ponho a música mais alto, canto baixinho a canção que adoro e deixo-me ir. Devagar.  Rasgando o ventre da cidade. 

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Enquanto os deuses dormem...



eu gostava de poder dizer
que entrei no teu corpo como um pássaro
espreitando de invisíveis ruínas
e que o som da tua voz bastava
para me salvar

mas de nada serve inventar palavras
quando as palavras que inventamos
não passam de frágeis lugares de exílio
dos gestos inventados fora de horas
delimitando o espaço de tantas mortes prematuras
de que jurámos ressuscitar um dia

- quando os deuses se lembrassem
de acordar ao nosso lado

Alice Vieira, "Amor e Outros Crimes Em Vias De Perdão" (excerto) in Dois Corpos Tombando Na Água

terça-feira, 11 de novembro de 2014

domingo, 9 de novembro de 2014

(...)


Something in me was born before the stars
And saw the sun begin from far away

Fernando Pessoa, "XXIV" in  35 Sonnets

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Crónicas do Vento Salgado


Ela chega sempre primeiro. Senta-se à mesma mesa, na mesma cadeira, repete com lentidão os mesmos gestos: despir o casaco, dobrá-lo cuidadosamente, pendurá-lo nas costas da cadeira, arranjar o cabelo com gestos indiferentes, abrir a carteira e tirar óculos e telemóvel... Depois liga-lhe e lê-lhe a ementa. Faz o pedido para os dois. E espera. Tem um olhar triste e envelhecido, a pele baça, as raízes do cabelo a precisar de retoque há muito tempo, o verniz das unhas estalado, em tons de ruína. 
Ele chega dez minutos depois. Apressado, não a beija, não a olha, senta-se em silêncio e destapa a tigela da sopa que ela cobriu amorosamente com um prato para que não arrefecesse. Come com os olhos colados na televisão sem som, responde com monossílabos às perguntas que ela lhe faz. Engole a comida como se cumprisse uma obrigação e no fim, levanta-se e repete sempre a mesma pergunta: Pagas isto? Ela, a meio de uma garfada, confirma - Sim, vai lá à tua vida - e sente-se o estalar da indiferença com que ele lhe vira as costas e sai...
Ela não sabe quem eu sou, eu nunca a esquecerei. Eu era uma adolescente sentada na mesa de um café que já não existe, entre um grupo ruidoso de amigos... Na parte do restaurante, ela era a noiva mais bela que já vi. Tinha os negros cabelos soltos, caindo pelos ombros, enfeitados com flores naturais e um maravilhoso vestido branco bordado a pérolas... A saia era voluptuosa, vaporosa, como se ela caminhasse dentro de uma nuvem... Estava feliz e ria, ria muito... Dançou nos braços do marido e juro que flutuava, os olhos brilhando mais do que as pérolas do vestido... Foi a primeira noiva que vi tão de perto e desejei muito poder vir a ser uma noiva assim tão feliz, assim tão bela...
Quando ele sai, a noiva outrora feliz fica sozinha a terminar vagarosamente a refeição. Enquanto espera pelo café, não tira os olhos dos dedos que, em gestos repetitivos e ritmados, enrolam e desenrolam o guardanapo de papel onde se nota o borrão do batom cor de cereja que faz parecer mais pálido o seu tom de pele.
Eu saio antes dela. Deito-lhe um último olhar discretamente e percebo que se mantém cosida consigo própria, refém da solitária dança dos dedos e parece-me mais do que nunca, uma ilha perdida no meio do mar, uma flor murcha, tombada no vidro estilhaçado dos dias... 
Às terças é mais triste o meu almoço no restaurante de sempre... Não sei bem se por causa da limpidez das minhas memórias, se por culpa da aspereza do presente...  

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Palavras roubadas


As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo
e se foram levando o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias
as minhas últimas palavras.

Manuel António Pina, "Todas as Palavras" in Poesia reunida

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Confissões


No dia da apresentação do livro, a vida lançou os dados ao contrário e, estrangulada por compromissos de trabalho inadiáveis, não pude estar presente. Talvez por isso, não tinha ainda sentido este projeto como sendo também meu nem tinha sorrido com a alegria de ter um trabalho publicado, eternizado na estante dos meus filhos, quem sabe, na biblioteca pessoal dos filhos dos meus filhos... É o lado maravilhoso da palavra escrita, o poder imenso de nos transportar através dos tempos, de nos eternizar como guardiões de instantes fugazes mas indeléveis... Através dos livros, ficamos sempre, mesmo após a nossa morte, como as árvores... E mesmo que ninguém nos compre, nos escolha ou requisite numa biblioteca de bairro, nós estaremos ali, numa solitária estante onde o pó do tempo se acumula, na sombria cave de um alfarrabista falido, vendidos ao desbarato numa qualquer feira de rua ou no porão de um navio que já não cruza os mares. Ficamos. Para sempre, somos um ISBN único, um código de barras que é como uma impressão digital, nos arquivos internacionais... E há um sabor especial e maravilhoso em tudo isto...
Os dois exemplares que tinha encomendado chegaram hoje pelo correio. Depois, foi o prazer lento e demorado de abrir o embrulho, de os ver pela primeira vez, de passar a mão pelo macio da capa, de cheirar o papel... Só então me procurei. Desta vez, a vida lançou os dados certos: encontrei-me na página 27, o primeiro número mágico da minha vida, um número que escolho sempre que posso. Com a página aberta, recuei até ao dia 27 de junho dos meus vinte anos, a um entardecer de calor sufocante que determinou a minha vida... Sim, o meu texto só podia estar na página 27...! Reli-o e encontrei-me outra vez... Este conto foi escrito de um único fôlego, mal tive conhecimento do tema... Corrigi muito pouco, mudei quase nada, era assim que o queria... Gosto tanto dele...!
É uma honra ter sido escolhida pelo júri da Lua de Marfim e ser co-autora da coletânea Confissões. E quando o editor elogiou a minha escrita e me perguntou quando publico uma obra só minha, não tive coragem de lhe confessar as minhas esperanças: talvez 2015 me traga um novo ISBN, a impressão digital que gravará a minha voz eternamente, que guardará para sempre as minhas palavras escritas, ainda que envoltas em silêncio.