segunda-feira, 10 de junho de 2013

Da inutilidade do sono


Nunca gostei de dormir. É uma luta antiga, que me leva a evocar as tardes quentes em Trás-os-Montes, o casarão da avó abraçado à imponente buganvília cor de sangue que ladeava o arco da entrada, os caminhos de terra cheios de bichos, as borboletas que quase conseguia agarrar, os figos tombados no chão apodrecendo num cheiro doce, o grande tanque onde a água gelada transbordava e onde eu lavava - cantando esganiçadamente - a roupa das bonecas... Tanta coisa para fazer, tão curtas as férias, e a minha mãe obrigava-me a dormir a sesta no quarto escurecido... E eu nunca dormia. Ficava de olhos abertos a ouvir os besouros e as cigarras, as vozes abafadas dos adultos na cozinha de pedra, o estalar das madeiras velhas, os cavalos tão perto de mim...
Nunca gostei de dormir. A minha adolescência foi um braço de ferro com a autoridade materna porque eu lia pela noite dentro, compulsivamente, até me arderem os olhos, até os braços e as mãos dormentes já não conseguirem segurar o livro... Sempre me pareceu uma perda de tempo este coma induzido a que o nosso próprio corpo nos vota, este desligar de fios, este apagão mental que nos fragiliza e nos expõe como uma nudez, este baixar das barreiras do pensamento que permite o assalto covarde dos sonhos... À queima-roupa, eles surgem dentro dos olhos fechados como imagens de um filme que não sabíamos ter vivido, recuperam fragmentos da memória que julgávamos perdidos, fazem-se presente, outra vez. É injusto. É injusto acordar quando os sonhos são bons. É injusto ter adormecido quando acordamos com os olhos molhados de lágrimas e um grito atravessado na garganta.
Não, nunca gostei de dormir. A noite não devia servir para isso, tão bela é a noite, tão fecunda, tão misteriosa é a noite! Gosto de conduzir de noite, de viajar de noite, do cheiro e do sussurro da noite... À noite vejo melhor, penso melhor, escrevo melhor, sinto melhor... Que inutilidade, ter de dormir...! E às vezes penso que deveríamos poder negociar com o corpo, reduzir as horas de imobilidade, é escandaloso e chocante o tempo perdido... Faço contas, outra vez: se eu viver até aos noventa anos, terei passado trinta anos a dormir, apagada, inconsciente, morta para a eterna novidade do mundo, como diz o Caeiro. Trinta anos! Tanto livro, tanto filme, tanto texto, tanta viagem se faz em trinta anos... Para uma vida que só nos é permitido viver uma vez, breve como o riscar de um fósforo, sinto o sono como uma perfeita e completa inutilidade, um desperdício de tempo. Por isso, já que amanhã é feriado, esta noite não vou dormir, vou ficar as escrever as palavras que andam cá dentro, como borboletas... Também elas não dormem, as borboletas. Também tão breve, tão veloz, a vida que vivem.     

domingo, 9 de junho de 2013

Palavras simples

 
A simplicidade é o último degrau da sabedoria.

Khalil Gibran

sábado, 8 de junho de 2013

O poema


O poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos, tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e incertezas.

José Luís Peixoto

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Rituais...


Acompanhar até ao portão os familiares e os amigos que vão saindo; sentir o arrepio da noite pousado nos ombros, como uma mão divina; ficar a acenar um adeus feliz até que o último carro desapareça na curva da estrada; bater suavemente a ruidosa porta da entrada; trocar os saltos altos pelo conforto da borracha das havaianas; carregar as pilhas de louça para a cozinha, fazer desaparecer rapidamente os vestígios da festa...; juntar todas as prendas; separar o lixo (tanto vidro, tanto cartão...!) e reparar sorrindo que como sempre, a caixinha dos comprimidos da avó ficou esquecida no braço do sofá; partir os restos do bolo em partes iguais e guardá-los em tupperwares que amanhã serão entregues aos que hoje não puderam estar presentes; pôr a máquina da louça a lavar; ajeitar com ternura os cortinados, alinhar milimetricamente a moldura de um quadro que descai; fumar um cigarro tranquilo, enquanto todas as fotografias tiradas vão passando devagar no visor cheio de luz; sorrir; rir; olhar em volta, confirmar a ordem retomada no meu mundo; demorar-me finalmente  debaixo do chuveiro na água muito quente; depois, só depois, apagar uma por uma todas as luzes; subir as escadas devagar, contando mentalmente os degraus, sorrir e atrasar o pé naquele que range; abrir silenciosamente as portas dos quartos, beijar os filhos adormecidos; acariciar o gato enrolado, sentir na mão o ronronar tranquilo; fechar os olhos, sentir-me a guardiã do meu pequeno castelo e pensar que perante esta paz, nenhum cansaço é capaz de rasgar-me o corpo.   

terça-feira, 4 de junho de 2013

Meu Amor de carne e sangue


Quando nasceste, puseram-te em cima de mim e ficamos a olhar-nos só os dois, como se nos conhecêssemos desde sempre. Ainda hoje trocamos esse olhar profundo e sabemos um do outro, sem precisarmos de falar... É um elo de amor puro, inquebrável, indestrutível, pois que é feito de carne e de sangue, de voz e de silêncio.
Vejo-te crescer e sei que tenho que te deixar ir... Mas sabes, tenho medo que a vida te magoe e que eu não possa proteger-te... Por isso dás comigo a olhar-te, de longe, e é ainda o mesmo olhar em que nos perdemos da primeira vez: o olhar de um imenso amor.
Hoje fazes anos. Dezoito. Deixo de ser a tua encarregada de educação e já podes fazer tudo sem mim: votar, casar, conduzir, sair do país, até ser preso, como me disseste a brincar! Vás tu para onde quiseres ir, que sejas feliz e que encontres os meus olhos para se cruzarem com os teus, no dialeto de todos os entendimentos. Eles revolverão o mundo à tua procura, se algum dia te perderes.
Parabéns meu filho! Amo-te tudo... sabias?

segunda-feira, 3 de junho de 2013

A Prova de Fogo


É uma espécie de pacto entre nós, antigo e secreto. Desde sempre, desde que me lembro de ter aprendido a escrever, eu entregava-te os textos e tu corrigias - o vocabulário, os erros, os acentos, a pontuação. Em português e em francês. Ao longo de todos estes anos, não me recordo de ter escrito um texto "branco", como tu dizias... Havia sempre uma falha que eu não tinha visto, uma incoerência que não tinha detetado, uma repetição vocabular que tu achavas ruidosa, um verbo desapropriado. Nunca mo disseste, mas eu sei que aguardavas esse texto sem mácula pelo qual me haverias de dar os parabéns, o poema ou a composição a que, na forma e no conteúdo, chamarias perfeita. Por vezes sentia-te desiludida comigo (Como é que não sabes isto?! Mas então não viste este erro???) e jurava a mim mesma que o próximo passaria o exame dos teus olhos de professora, exigente e perfecionista.
Hoje quando cheguei, entreguei-te um texto sem dizer nada e deixei-te a sós com ele, como sempre faço. Esqueci-me até do assunto, às voltas com a louça, com a roupa, com a vassoura e o pano do pó... Depois fui ter contigo e vi uma estranha luz nos teus olhos, uma emoção diferente a que não soube dar nome... Abraçaste-me durante muito tempo... Passaste-me as mãos pelo rosto, prendeste-me o cabelo atrás da orelha... falaste: Tens tantas coisas dentro de ti... Coisas tão belas, filha...
Ao fim de todos estes anos eu senti-me aprovada, passada com distinção, sem cábulas, sem ter copiado ou feito batota, na mais difícil de todas as minhas provas...  De mãos dadas, os corpos muito juntos, ficamos caladas a ver o sol incendiando as janelas, os gatos sobre os muros quentes, os cedros altivos paralisados na tarde sem vento, as roseiras já em flor trepando as varandas... Fingiste não me ver chorar, aninhada em ti... Sabias-me feliz por ter passado finalmente sem nódoas, a prova de fogo. No teu colo, o meu texto branco, silencioso,  sorria-te docemente. Dentro do meu peito, o meu coração tinha-se soltado e corria veloz para ti, como uma cascata de água pura, uma nascente de vida.     

sábado, 1 de junho de 2013

Pintar a vida e Brincar, sempre! :)


Brincar com crianças não é perder tempo, é ganhá-lo; se é triste ver meninos sem escola, mais triste ainda é vê-los sentados enfileirados em salas sem ar, com exercícios estéreis, sem valor para a formação do homem.

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Em segredo





E lhe passou a mão pelo rosto, desceu-lhe carícias pelo peito. Desabotoava-lhe o vestido? Seu gesto o convidou a mais se aproximar. Parecia que ela lhe queria entregar um segredo. Colocou-lhe os lábios sobre o ouvido mas, em lugar de palavra, ela imitou o mar numa concha.

Mia Couto, in Terra Sonâmbula

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Lá atrás


Deseja-se muitas vezes a repetição das coisas; deseja-se reviver um momento fugaz, voltar a um gesto falhado ou a uma palavra não pronunciada; esforçamo-nos por recuperar os sons que ficaram na garganta, a carícia que não ousámos fazer, o aperto no peito para sempre desaparecido.

Mathias Énard, in Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes

quarta-feira, 29 de maio de 2013

De argila, como eu...


Durante o sono retiraram-me uma costela
Ficou-me no peito um vazio que não consigo preencher
Custa-me a respirar
Eu quero de volta a minha costela
quero de volta todas as costelas
Quero de volta o paraíso
quero de volta o silêncio rumorejante
quero de volta as poluições noturnas
e diurnas
Quero uma mulher
feita de chuva
e vento
e fogo
e neve
e luz
e breu
e não de argila
como eu.

Jorge de Sousa Braga, in O Novíssimo Testamento e outros poemas

Palavras maravilhosas

 
- Que maravilhação este mundo.

Mia Couto, "O Cego Estrelinho" in Estórias Abensonhadas

Post secret


Tenho hoje tantas palavras a sufocarem-me, a apertarem-me por dentro... Amontoadas, desordenadas, dançam à roda de mim num vendaval inquieto... E sei que não as conseguirei dizer, que trairei tudo o que sinto...
É por isso que me sento aqui quieta, silenciosa, a esmagar versos... a desfolhar flores.
Passiva, como os espelhos.
Muda.
Secreta.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Lar


Lar é onde se acende o lume e se partilha mesa e onde se dorme à noite o sono da infância.
Lar é onde se encontra a luz acesa quando se chega tarde.
Lar é onde os pequenos ruídos nos confortam: um estalar de madeiras, um ranger de degraus, um sussurrar de cortinas.
Lar é onde não se discute a posição dos quadros, como se eles ali estivessem desde o princípio dos tempos.
Lar é onde a ponta desfiada do tapete, a mancha de humidade no tecto, o pequeno defeito no caixilho, são imutáveis como uma assinatura conhecida.
Lar é onde os objectos têm vida própria e as paredes nos contam histórias.
Lar é onde cheira a bolos, a canela, a caramelo.
Lar é onde nos amam.

 
Rosa Lobato de Faria

domingo, 26 de maio de 2013

VIDA!



Gostava de escrever hoje um belo poema, forte, quente, luminoso, escarolado, em louvor da vida. É que, sem saber porquê, respondi há bocado com palavras dum optimismo impressionante a um moço poeta que me exibia a sua decadência precoce. E doía-me a garganta nessa altura! Mas fui-lhe dizendo que qual morte ou qual cabaça! Vida! Vida conquistada em luta, como a do rebento do milho que empurra, e consegue levantar o torrão e ver o sol. - Qual morte, homem de Deus! Você já viu por um acaso um pinheiro suicidar-se?
Gostava de escrever isto num belo poema.

Miguel Torga, in Diário I

sábado, 25 de maio de 2013

Audaz Fantasia


O título apeteceu-me, nada a fazer, há palavras, há versos, há farrapos de prosa assim: leio-os e algo dentro de mim faz nascer o texto. Por isso concorri. "Audaz Fantasia" pareceu-me uma associação muito feliz, quer fónica quer semântica e por vezes isso basta para alinhar as palavras. Poesia, desta vez. E eu que não sou poeta nem tento sê-lo, concorri, mesmo assim.
O meu poema, intitulado "A Oratória do Silêncio", não venceu o concurso, também não ganhou uma menção honrosa, mas foi selecionado, entre quase quatrocentas participações, para integrar a obra que nasce amanhã. Audaz Fantasia é uma antologia poética onde figuram os sessenta e dois melhores trabalhos entre todos os participantes. Por isso, é para mim um motivo de orgulho poder ler o meu nome na contracapa, ao lado de tantos autores meritórios. E é também digno de mérito o facto de que pela venda de cada exemplar, dois euros revertam para a Mithós, Associação de Apoio à Multideficiência. 
O lançamento é amanhã, dia 26 de maio, no Museu João Mário, em Alenquer, pelas 15.30 horas. O convite é da Alencriativos e eu estarei lá, com um sorriso feliz. Muito feliz.

Ana Paula Mateus

A volta por cima


Especializei-me
em rotas de colisão.
Depois aprendi
a dar a volta por cima.

Luiz Pacheco, "Itinerários"

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Crónicas do Vento Salgado


Quase todos os dias, praticamente à mesma hora, passo pelo mesmo homem na estrada. Ele a pé, eu de carro, temos um percurso em comum e sei se estou atrasada ou adiantada conforme a rua em que nos cruzamos. Hoje ele atrasou-se... Apanhei-o antes de um cruzamento e percebi que ele tinha os passos mais lentos e que o peito empurrava com esforço o vento norte. Não sei porquê, reduzi a velocidade e pelo retrovisor fiquei a vê-lo afastar-se, devagar, o cabelo branco numa fúria revolta, as costas curvadas pelo peso da idade, as abas do casaco abertas como asas... Não sei quem é, não sei onde mora. E ele não sabe que nos une o relógio e a rotina, o itinerário riscado pela pressa nas ruas da mesma cidade. Aposto que ele nunca reparou em mim, que sou apenas mais um carro igual a todos os outros carros, rodando na estrada ao lado da qual ele caminha. Faz-me bem vê-lo. Cruzar-me com ele dá-me a sensação de que tudo está no seu lugar. Um dia vou parar ao lado dele e sorrir-lhe; talvez lhe pergunte o nome. E se ele fizer questão de saber, dir-lhe-ei apenas que lhe roubei a silhueta e que o prendi na pele do protagonista de uma história que ando a escrever. Tenho a certeza que não se ofenderá... E quase juro que acertei no seu nome.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Noite


A noite estende sobre a terra um manto de névoa, como uma poeira húmida, muito fina... Por baixo, na escuridão, há um murmurar antigo e indecifrável no rastejar dos bichos, no esvoaçar das asas das aves da escuridão. A noite tem peso, tem cheiro, tem cor. Ela traz o silêncio que guarda a memória de um abraço infinito e eu não sei, afinal, se amo a noite ou se tenho medo dela.  

Cá dentro

 
Há um tempo certo para partir,
mesmo quando não há um lugar certo para ir.

Tennessee Williams

quarta-feira, 1 de maio de 2013

(...)


morre-se, quando já não é necessário escrever
seja o que for.

Al Berto