sábado, 9 de março de 2013

Da perda



Enquanto me visto, penso que são tantas as vezes que tenho ido ultimamente a igrejas e a cemitérios... Penso nos abraços que tenho dado a pessoas que amo, desfeitas em dor, nas vezes em que a minha boca sem voz morde os lábios inúteis de palavras ou lambe um fio de lágrimas que já não vale a pena tentar secar. Penso nesta merda que é a morte, que de repente nos puxa o tapete debaixo dos pés e nos deixa assim, cegos e em queda livre, em direção ao vazio. Penso na raiva, na revolta que isto me dá, na minha impotência para enxotar a tristeza e a dor que desabam sobre nós. Penso nas casas que ficam subitamente vazias, as vidas de pernas para o ar que é preciso repensar de novo. Penso nos afetos que não cheguei a dar inteira, no tempo que nunca tive para dedicar, nas palavras que nunca disse aos que partem e que agora estão irremediavelmente perdidas. Penso que caminhamos cada vez mais sós, mais tristes, mais vazios, somando perdas eternas...
Penso em tudo isto enquanto me visto de negro e olho o meu rosto pálido e inconsolável, do outro lado do espelho. Penso em tudo isto e tenho frio. Tenho medo.  Penso em tudo isto e depois saio para mais um funeral. 

Sem palavras


As palavras aproximam:
prendem-soltam
são montanhas de espuma
que se faz-desfaz
na areia da fala

Soltam freios
abrem clareiras no medo
fazem pausa na aflição

Ou então não:
matam
afogam
separam definitivamente

Amando muito muito
ficamos sem palavras.


Ana Hatherly

terça-feira, 5 de março de 2013

Dançar de ramo em ramo



Não queiras transformar
em nostalgia
o que foi exaltação
em lixo o que foi cristal.
A velhice,
o primeiro sinal
de doença da alma,
às vezes contamina o corpo.
Nenhum pássaro
permite à morte dominar
o azul do seu canto.
Faz como eles: dança de ramo
em ramo.

Eugénio de Andrade, "De ramo em ramo" in Ofício de Paciência

segunda-feira, 4 de março de 2013

Ó Stora...


Íamos receber a Inês Pedrosa. Não, não sabiam quem era, nunca tinham lido nada dela... E então, porque a melhor maneira de apresentar um escritor é ler os textos que ele escreve, abri "A Instrução dos Amantes" na página que previamente marcara e disse-lhes que tinha escolhido um texto que falava do primeiro amor. O silêncio fez-se sepulcral, talvez porque o primeiro amor é sempre igual, sempre o mesmo tumulto, o mesmo desnorte, é segurar o universo nas mãos ou morder os dedos na solidão do escuro. É querer morrer. É não saber muito bem como viver. Tinha a atenção deles, por isso, comecei a ler:
 
A minha cabeça no teu ombro. A tua boca nos meus olhos. Os meus cabelos nos teus dedos. Qual era a canção? O meu corpo tremia tanto. Tinha medo que tu ouvisses o meu coração a bater. Qual era a canção?
A minha boca nos teus dedos. A tua cabeça no meu colo. Os teus olhos nos meus olhos. O sol do nosso tamanho pelas frinchas da persiana. Os teus pais tinham saído nesse fim-de-semana, lembras-te?
Os teus olhos nos meus olhos, através do vidro, no liceu. Compravas-me chocolates. Roubavas-me o saco dos livros. Rias-te de mim, e era tão bom.
Os teus pais tinham saído. Eram os primeiros dias de calor. Fizémos refrescos e pudim flan de pacote. Puseste o disco a tocar e baixaste as persianas. Lembras-te?
Eu olhava para ti e faltava-me o ar. Escrevia o teu nome na areia da praia. Ficava horas à janela só para te ver passar de bicicleta. Mesmo quando não olhavas para mim. Onde é que tu estás agora?
Lembras-te? Jogávamos à verdade e consequência. Ao quarto escuro. Aos namorados. Dávamos beijinhos às escondidas. Eu escrevia-te poemas e as minhas notas subiram. A minha mãe dizia que eu era uma rapariga sensata. Agora pergunta-me porque é que eu choro tanto.Toda a gente me diz que eu não tenho idade para chorar. E tu não vês. Tu já não me vês. (...) E as pessoas crescidas riem-se. Dizem que eu não tenho idade para desgostos de amor. Que eu vou ter muitos namorados. E eu não quero. Eu quero-te.
Só sei o teu nome. Já não escrevo poemas. Nenhum poema pode fixar a luz que havia debaixo da tua pele.
Contigo eu não precisava de imitar ninguém. O coração da terra batia ao ritmo dos teus passos. De repente tu foste-te embora e ficou tanta coisa por dizer.
Os teus braços na minha cintura. A tua boca na minha boca. Estava escuro. Havia só a luz do aquário ao lado do gira-discos. Como é que tu já te esqueceste?
Os teus pais tinham saído. Os peixes flutuavam por entre as algas. Fechei os olhos. Era capaz de morrer de amor por ti. Como é que tu já te esqueceste?
 
Continuaram em silêncio. Alguns mexeram-se com desconforto nas cadeiras. Uma aluna tinha lágrimas nos olhos. No fundo da sala, alguém se atreveu a quebrar o silêncio:
 
- Ó Stora, leia outra vez...
 

domingo, 3 de março de 2013

Para Sempre


A separação pode ser o ato de absoluta e radical união, a ligação para a eternidade de dois seres que um dia se amaram demasiado para poderem amar-se de outra maneira, pequena e mansa, quase vegetal.
 
Inês Pedrosa

De olhos fechados

 

Quantas horas te procurei
Neste escuro, nestas noites lunares.
Quantas vezes fechei os olhos
Para te poder ver
Na serenidade dos rios que enlouquecem.
Esquece-te de tudo,
Guarda apenas a certeza
Que o sol brilha
E que os pequenos pássaros de fogo estremecem
Quando os meus olhos se fecham
Para te lembrar.
 
Paulo Eduardo Campos, in Na Serenidade Dos Rios Que Enlouquecem

sábado, 2 de março de 2013

Palavras salgadas


Há palavras que não sei dizer. Palavras mudas, que me salgam os lábios com o seu corpo de música. Talvez não chegues nunca a ouvi-las porque ficam quietas, ardendo no silêncio como se não dissessem nada... E no entanto, dizendo o mar inteiro. 

sexta-feira, 1 de março de 2013

MARÇO...


é a visita do tempo nos teus olhos
é o beijo do mundo nas palavras
por onde passa o rio do teu nome;
é a secreta distância em que tocas
o princípio leve dos meus versos;
é o amor debruçado no silêncio
que te cerca e que te esconde:
como num bosque, lento, ouvimos
o coração de uma fonte não sei onde...

Vítor Matos e Sá, "Poesia" in Esparsos

Porque os meus leitores são os melhores do mundo e este é o  mês do meu coração, hoje ofereço palavras e flores...
Um março inesquecível para todos! (Sim, eu também guardo um para sempre...)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Vox populi, vox Dei

 

Deus deu ao Homem a chave certa mas ele usa-a na porta errada.

Provérbio libanês

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Um rio salgado


Quero contar-te do rio que corre debaixo da minha pele,  igual a todos os outros rios. A água aparentemente mansa esconde redemoinhos que me sugam o corpo para abismos profundos dos quais não sei voltar. Às vezes um poema salva-me, a pele das letras, os braços dos versos que se erguem como estátuas apontando um caminho rasgado ainda por um arranhão de luz, ou o corpo das estrofes, ao qual me agarro para não naufragar... E assim como um rio precisa de margens que o apertem para poder ser rio, também eu preciso dessa água imparável que me leva no seu curso tranquilo e me empurra para a foz onde desaguam os meus sonhos. Sabes, é de água salgada o rio que me percorre e quase se atreve a ter corpo de mar, tão bravo que derruba as comportas do sorriso, se agiganta e transborda, invencível... Assim me denuncia e me desnuda esse rio solto, devastador, que tudo arrasta à sua passagem, tudo destrói e só se detém submisso quando chega à foz. Aí morre finalmente no fogo aceso dos meus olhos que nunca, nunca conseguirá apagar ou vencer.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Do Amor



Amor será dar de presente um ao outro a própria solidão? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si.

Clarice Lispector, in Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

(...)




Cada vez nos temos mais apenas
um ao outro.

Joaquim Pessoa, "A Inflação" in Os Dias da Serpente

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

É Carnaval, dizem...

 
É Carnaval, dizem. E isso que importa às aves? Que importa ao vento e ao mar a máscara com que o mundo se desnuda? Neste Carnaval dizem que de folia, não quero ser outrém, nenhum rosto ambiciono que não seja o meu. Nenhuma outra pele quero vestir que não me pertença.
É Carnaval... E porque não posso ignorar o calendário, hoje (só hoje) não vou ser ave, dispo-me para ti e deixo-te todas as minhas penas... As asas, meu amor, estão presas ao coração. Levo-as comigo. 

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Do Medo



Ninguém me roubará algumas coisas,
nem acerca de elas saberei transigir;
um pequeno morto morre eternamente
em qualquer sítio de tudo isto.

É a sua morte que eu vivo eternamente
quem quer que eu seja e ele seja.
As minhas palavras voltam eternamente a essa morte
como, imóvel, ao coração de um fruto.

Serei capaz
de não ter medo de nada,
nem de algumas palavras juntas?



Manuel António Pina, "O Medo" in Nenhum Sítio

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Pranto

 


É o pranto
Que ninguém chora
Que eu agora
Canto.

E aquele amor constante,
Desenganado
Que nunca teve amante
Nem amado.

E o gesto cordial que se não fez,
Nem faz
E fica por detrás
Da timidez.

E o imortal poema
Por acontecer,
Irmão do vento, seu rival sem asas:
Lume a fugir das brasas
Antes de a lenha arder.

Miguel Torga, "Limbo" in Orpheu Rebelde

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Cá dentro

 
Olha, se te perguntarem por mim, diz que não estou. Diz-lhes que saí, que parti sem destino para parte incerta, que me evaporei, esfumei, dissipei, eclipsei. Diz-lhes que viajei, que mudei de cidade, de país, de continente, de pólo até... Se te perguntarem por mim, diz-lhes que me transformei, que me transmutei e que hoje sou camaleão, caracol, caranguejo, búzio, bicho-de-conta, um animal qualquer que se disfarce, se esconda, se recolha, que se enrole sem princípio nem fim... Se te perguntarem por mim, conta-lhes que estou fechada à chave, que enlouqueci, que me virei do avesso, que me cosi com as sombras, com o silêncio, que me perdi num labirinto qualquer, numa praia deserta, num beco sem saída, numa estrada que não vem no mapa... Se alguém perguntar por mim, inventa que mudei de casa, de nome, de religião, credos e crenças, de profissão, que estou dada como desaparecida...
Ou então não digas nada... Porque sabes, hoje não faço falta ao mundo. Hoje ninguém perguntará por mim. 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Mãe Mulher


Elas são as mães:
rompem do inferno, furam a treva,
arrastando
os seus mantos na poeira das estrelas.

Animais sonâmbulos,
dormem nos rios, na raiz do pão.

Na vulva sombria
é onde fazem o lume:
ali têm casa.
Em segredo, escondem
o latir lancinante dos seus cães.

Nos olhos, o relâmpago
negro do frio.

Longamente bebem
o silêncio
nas próprias mãos.

O olhar
desafia as aves:
o seu voo é mais fundo.

Sobre si se debruçam
a escutar
os passos do crepúsculo.

Despem-se ao espelho
para entrarem
nas águas da sombra.

É quando dançam que todos os caminhos
levam ao mar.

São elas que fabricam o mel,
o aroma do luar,
o branco da rosa.

Quando o galo canta
Desprendem-se
para serem orvalho.


Eugénio de Andrade, in Obra Poética


domingo, 3 de fevereiro de 2013

Dentro de ti ver o mar



Acordava no poço da noite com o coração enforcado naquela frase.
– Entrar em ti e dentro de ti ver o mar.
O ruído dos aviões já não a despertava. Habituara‑se. Gostava do som dos motores no céu, provocava‑lhe uma sensação de liberdade. Vivia no extremo onde nada evolui. Existe um momento em que o amor deixa de ser uma narrativa e se imobiliza. Tentara livrar‑se da frase apagando o homem que a proferira. Mas a água do amor foge e volta, pesada, carregada de restos.

Inês Pedrosa, Dentro de Ti ver o Mar

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Palavras de água

 
enrolar algodão
em laços de neblina
na praia do norte.

ao leme
das tuas mãos
o mar amansa
os ventos.

há um navio
sossegado nos
teus olhos.

suaves clarões
que silenciam
o estrondo
dos relâmpagos.

nos teus lábios
leio
a oratória do oceano.

acolhe-me assim
sem nome
nem história

em ti.
onde a foz
principia.

Alberto Serra, "praia do norte" in morrer de vagar

(Obrigada, Alberto!)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Balada de Fevereiro



Chove nas ruas como nas veias
cidade cheia de mágoas
e não há barcos ideias
que nos levem por sobre as águas
que tu vento despenteias.

Há só a chuva nos vidros
e este viver para dentro
há só minutos perdidos
e as caravelas do pensamento
naufragadas nos sentidos.

Manuel Alegre, "Balada de Fevereiro" in Canto da Nossa Tristeza