Íamos receber a Inês Pedrosa. Não, não sabiam quem era, nunca tinham lido nada dela... E então, porque a melhor maneira de apresentar um escritor é ler os textos que ele escreve, abri "A Instrução dos Amantes" na página que previamente marcara e disse-lhes que tinha escolhido um texto que falava do primeiro amor. O silêncio fez-se sepulcral, talvez porque o primeiro amor é sempre igual, sempre o mesmo tumulto, o mesmo desnorte, é segurar o universo nas mãos ou morder os dedos na solidão do escuro. É querer morrer. É não saber muito bem como viver. Tinha a atenção deles, por isso, comecei a ler:
A minha cabeça no teu ombro. A tua boca nos meus olhos. Os meus cabelos nos teus dedos. Qual era a canção? O meu corpo tremia tanto. Tinha medo que tu ouvisses o meu coração a bater. Qual era a canção?
A minha boca nos teus dedos. A tua cabeça no meu colo. Os teus olhos nos meus olhos. O sol do nosso tamanho pelas frinchas da persiana. Os teus pais tinham saído nesse fim-de-semana, lembras-te?
Os teus olhos nos meus olhos, através do vidro, no liceu. Compravas-me chocolates. Roubavas-me o saco dos livros. Rias-te de mim, e era tão bom.
Os teus pais tinham saído. Eram os primeiros dias de calor. Fizémos refrescos e pudim flan de pacote. Puseste o disco a tocar e baixaste as persianas. Lembras-te?
Eu olhava para ti e faltava-me o ar. Escrevia o teu nome na areia da praia. Ficava horas à janela só para te ver passar de bicicleta. Mesmo quando não olhavas para mim. Onde é que tu estás agora?
Lembras-te? Jogávamos à verdade e consequência. Ao quarto escuro. Aos namorados. Dávamos beijinhos às escondidas. Eu escrevia-te poemas e as minhas notas subiram. A minha mãe dizia que eu era uma rapariga sensata. Agora pergunta-me porque é que eu choro tanto.Toda a gente me diz que eu não tenho idade para chorar. E tu não vês. Tu já não me vês. (...) E as pessoas crescidas riem-se. Dizem que eu não tenho idade para desgostos de amor. Que eu vou ter muitos namorados. E eu não quero. Eu quero-te.
Só sei o teu nome. Já não escrevo poemas. Nenhum poema pode fixar a luz que havia debaixo da tua pele.
Contigo eu não precisava de imitar ninguém. O coração da terra batia ao ritmo dos teus passos. De repente tu foste-te embora e ficou tanta coisa por dizer.
Os teus braços na minha cintura. A tua boca na minha boca. Estava escuro. Havia só a luz do aquário ao lado do gira-discos. Como é que tu já te esqueceste?
Os teus pais tinham saído. Os peixes flutuavam por entre as algas. Fechei os olhos. Era capaz de morrer de amor por ti. Como é que tu já te esqueceste?
Continuaram em silêncio. Alguns mexeram-se com desconforto nas cadeiras. Uma aluna tinha lágrimas nos olhos. No fundo da sala, alguém se atreveu a quebrar o silêncio:
- Ó Stora, leia outra vez...