quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Vox populi, vox Dei

 

Deus deu ao Homem a chave certa mas ele usa-a na porta errada.

Provérbio libanês

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Um rio salgado


Quero contar-te do rio que corre debaixo da minha pele,  igual a todos os outros rios. A água aparentemente mansa esconde redemoinhos que me sugam o corpo para abismos profundos dos quais não sei voltar. Às vezes um poema salva-me, a pele das letras, os braços dos versos que se erguem como estátuas apontando um caminho rasgado ainda por um arranhão de luz, ou o corpo das estrofes, ao qual me agarro para não naufragar... E assim como um rio precisa de margens que o apertem para poder ser rio, também eu preciso dessa água imparável que me leva no seu curso tranquilo e me empurra para a foz onde desaguam os meus sonhos. Sabes, é de água salgada o rio que me percorre e quase se atreve a ter corpo de mar, tão bravo que derruba as comportas do sorriso, se agiganta e transborda, invencível... Assim me denuncia e me desnuda esse rio solto, devastador, que tudo arrasta à sua passagem, tudo destrói e só se detém submisso quando chega à foz. Aí morre finalmente no fogo aceso dos meus olhos que nunca, nunca conseguirá apagar ou vencer.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Do Amor



Amor será dar de presente um ao outro a própria solidão? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si.

Clarice Lispector, in Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

(...)




Cada vez nos temos mais apenas
um ao outro.

Joaquim Pessoa, "A Inflação" in Os Dias da Serpente

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

É Carnaval, dizem...

 
É Carnaval, dizem. E isso que importa às aves? Que importa ao vento e ao mar a máscara com que o mundo se desnuda? Neste Carnaval dizem que de folia, não quero ser outrém, nenhum rosto ambiciono que não seja o meu. Nenhuma outra pele quero vestir que não me pertença.
É Carnaval... E porque não posso ignorar o calendário, hoje (só hoje) não vou ser ave, dispo-me para ti e deixo-te todas as minhas penas... As asas, meu amor, estão presas ao coração. Levo-as comigo. 

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Do Medo



Ninguém me roubará algumas coisas,
nem acerca de elas saberei transigir;
um pequeno morto morre eternamente
em qualquer sítio de tudo isto.

É a sua morte que eu vivo eternamente
quem quer que eu seja e ele seja.
As minhas palavras voltam eternamente a essa morte
como, imóvel, ao coração de um fruto.

Serei capaz
de não ter medo de nada,
nem de algumas palavras juntas?



Manuel António Pina, "O Medo" in Nenhum Sítio

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Pranto

 


É o pranto
Que ninguém chora
Que eu agora
Canto.

E aquele amor constante,
Desenganado
Que nunca teve amante
Nem amado.

E o gesto cordial que se não fez,
Nem faz
E fica por detrás
Da timidez.

E o imortal poema
Por acontecer,
Irmão do vento, seu rival sem asas:
Lume a fugir das brasas
Antes de a lenha arder.

Miguel Torga, "Limbo" in Orpheu Rebelde

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Cá dentro

 
Olha, se te perguntarem por mim, diz que não estou. Diz-lhes que saí, que parti sem destino para parte incerta, que me evaporei, esfumei, dissipei, eclipsei. Diz-lhes que viajei, que mudei de cidade, de país, de continente, de pólo até... Se te perguntarem por mim, diz-lhes que me transformei, que me transmutei e que hoje sou camaleão, caracol, caranguejo, búzio, bicho-de-conta, um animal qualquer que se disfarce, se esconda, se recolha, que se enrole sem princípio nem fim... Se te perguntarem por mim, conta-lhes que estou fechada à chave, que enlouqueci, que me virei do avesso, que me cosi com as sombras, com o silêncio, que me perdi num labirinto qualquer, numa praia deserta, num beco sem saída, numa estrada que não vem no mapa... Se alguém perguntar por mim, inventa que mudei de casa, de nome, de religião, credos e crenças, de profissão, que estou dada como desaparecida...
Ou então não digas nada... Porque sabes, hoje não faço falta ao mundo. Hoje ninguém perguntará por mim. 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Mãe Mulher


Elas são as mães:
rompem do inferno, furam a treva,
arrastando
os seus mantos na poeira das estrelas.

Animais sonâmbulos,
dormem nos rios, na raiz do pão.

Na vulva sombria
é onde fazem o lume:
ali têm casa.
Em segredo, escondem
o latir lancinante dos seus cães.

Nos olhos, o relâmpago
negro do frio.

Longamente bebem
o silêncio
nas próprias mãos.

O olhar
desafia as aves:
o seu voo é mais fundo.

Sobre si se debruçam
a escutar
os passos do crepúsculo.

Despem-se ao espelho
para entrarem
nas águas da sombra.

É quando dançam que todos os caminhos
levam ao mar.

São elas que fabricam o mel,
o aroma do luar,
o branco da rosa.

Quando o galo canta
Desprendem-se
para serem orvalho.


Eugénio de Andrade, in Obra Poética


domingo, 3 de fevereiro de 2013

Dentro de ti ver o mar



Acordava no poço da noite com o coração enforcado naquela frase.
– Entrar em ti e dentro de ti ver o mar.
O ruído dos aviões já não a despertava. Habituara‑se. Gostava do som dos motores no céu, provocava‑lhe uma sensação de liberdade. Vivia no extremo onde nada evolui. Existe um momento em que o amor deixa de ser uma narrativa e se imobiliza. Tentara livrar‑se da frase apagando o homem que a proferira. Mas a água do amor foge e volta, pesada, carregada de restos.

Inês Pedrosa, Dentro de Ti ver o Mar

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Palavras de água

 
enrolar algodão
em laços de neblina
na praia do norte.

ao leme
das tuas mãos
o mar amansa
os ventos.

há um navio
sossegado nos
teus olhos.

suaves clarões
que silenciam
o estrondo
dos relâmpagos.

nos teus lábios
leio
a oratória do oceano.

acolhe-me assim
sem nome
nem história

em ti.
onde a foz
principia.

Alberto Serra, "praia do norte" in morrer de vagar

(Obrigada, Alberto!)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Balada de Fevereiro



Chove nas ruas como nas veias
cidade cheia de mágoas
e não há barcos ideias
que nos levem por sobre as águas
que tu vento despenteias.

Há só a chuva nos vidros
e este viver para dentro
há só minutos perdidos
e as caravelas do pensamento
naufragadas nos sentidos.

Manuel Alegre, "Balada de Fevereiro" in Canto da Nossa Tristeza

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Mar Mulher


Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes
e calma


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Tudo o que não digo

 
Não me leias as palavras... Lê antes os meus silêncios, a voz suspensa no avesso dos lábios, os gestos que me escorregam das mãos quando me julgo a sós comigo... Lê os meus passos lentos, subindo e descendo as escadas sem ruído, no fim de um pesadelo que me deixa o coração sufocado de terror... Lê a minha alegria quando ouço as aves ao amanhecer, ou adivinha-a nas mãos cheias de terra negra e molhada das raízes das azáleas que plantei no jardim... Lê-me no rosto cheio de chuva, nos caracóis dos cabelos desalinhados pelo vento quando recolho a roupa do varal, no brilho dos meus olhos sempre que abro a porta do forno e rego o assado com vinho tinto, no doce de maçã com canela da receita da minha avó... Lê-me na ternura das mãos tranquilas quando acaricio o gato, enroscada na música do ronronar tão calmo... Lê-me nos caminhos por onde ando, nas conchas e nos búzios que roubo ao mar, nas danças dos meus pés ao cair da noite antes da casa adormecer suavemente... Lê-me na saudade inconsolável dos meus mortos e na forma como amo os vivos, lê os meus erros e as minhas derrotas, as esperas pacientes e infinitas, lê as minhas pequenas vitórias... Lê-me quando eu tombo, derrubada, e também de todas as vezes que me reergo ferida...
Não me leias nos poemas, na prosa, nas frases riscadas à pressa na lista das compras, nas folhas que deixo ao abandono, nos desenhos que o meu dedo traça nas vidraças embaciadas... Lê o meu corpo, quando me encosto às sombras de olhos fechados, lê o rasto do meu perfume no corredor da casa ... Lê o que não digo, todos os dias. Lê o que não escrevo, meu amor.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Trono de luz e sombra


É nesse ponto
de tuas coxas
que o meu pescoço
implora a forca

Mas dás-lhe o trono
da luz da sombra
num sorvedouro
de rosas roxas

Agreste gosto
de húmida polpa
o que dissolvo
dentro da boca

Eis num renovo
mágica força
Rei me coroo
em tuas coxas

David Mourão-Ferreira, "XXII" in O Corpo Iluminado

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A tarde a chegar ao fim

 

Deixa que seja uma criança
a inclinar a tarde.
Dizem que é verão: não acredites.
O verão tem os pés iluminados pela lua,
o verão tem os nomes todos do mar,
não é o deserto
da cama aberta ao frio,
o prazer imitando a neve.
O que se vê daqui não é a dança
da claridade com o trigo,
o rio onde os cavalos bebem
a tarde a chegar ao fim.

Deixa que seja uma criança.

Eugénio de Andrade, in Contra a Obscuridade

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Ó Stora...

 
Era uma aula de oficina de escrita. Eles escreviam concentrados, tentando fazer nascer nas folhas dos cadernos um texto que correspondesse às indicações de trabalho. Era uma proposta difícil, reconheço, mas gosto de puxar por eles, gosto de ver até onde conseguem ir nas suas asas, motivados por mim e pela fasquia que elevo sempre um pouco demais... Escreviam presos à sua própria imaginação, cada um no seu mundo silencioso, debruçados sobre si próprios, perdidos no surpreendente universo das palavras. Mas não havia silêncio na sala. Nunca há silêncio numa sala de aula, mesmo que ninguém fale, e isso só um professor sabe. Eu andava no meio deles, atenta ao que faziam e à maravilhosa música que só conhece de cor quem é professor: uma caneta que cai, um lápis aguçado apressadamente, o roçagar das folhas dos cadernos, as mãos que limpam os restos da borracha que apagou o erro, o fecho de um estojo que se abre e o tilintar das canetas debaixo dos dedos que buscam a esferográfica que fará a caligrafia perfeita, uma cadeira que se arrasta subitamente, um breve tossir, um nariz que funga, o rasgar nervoso de uma folha para recomeçar tudo de novo, um rascunho amassado com frustração... Sons como música que conheço de olhos fechados e que se repetem ano após ano, desde o primeiro dia em que comecei... E gosto desta música sempre igual, sempre diferente, sempre familiarmente melodiosa e ritmada... Gosto de andar no meio deles, de me debruçar sobre os seus ombros, de lhes desenhar nos cadernos um sorriso quando trabalham bem, de corrigir e refazer frases, de repontuar, de acentuar, de substituir palavras... Gosto de passar por eles e de os acarinhar, de os incentivar, de lhes provar que afinal era fácil o que eu tinha pedido. E então eles chamam-me constantemente, querem ser os primeiros a mostrar os textos, pedem para depois os deixar ler em voz alta, é sempre assim, sei-o antes de mo perguntarem. Sei quando estão a terminar, que tudo será como sempre: "Ó Stora, já acabei, pode chegar aqui?" e que terá sido o fim da música que só eu ouço e estará para sempre rasgado o silêncio quando alguém resmungar "Ó Stora, mas eu chamei primeiro...!".

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Da partida



Mandei para o largo o barco atrás do vento
Sem saber se era eu o que partia.
Humilhei-me e exaltei-me contra o vento
Mas não houve terror nem sofrimento
Que à praia não trouxesse,
Morto o vento.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Coral

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O lugar das memórias

 


Guardava alguns silêncios e também as coisas
que não dissera por acaso. Guardava agora também
esses acasos, brancos recados entre as palavras
que lhe sobravam nas gavetas. E ainda assim guardaria
para sempre essas palavras, ou a imagem de lábios a
dizê-las ― um rosto ainda sem ser triste lembrando o verão.

Teria aguardado esse verão, o cheiro quente dos morangos
à beira os dedos. E tê-lo-ia sobretudo guardado,
como guardava agora, sem nunca o ter ouvido, o som
das espigas, na planície, à passagem do vento.

Mas agora só podia aguardar a passagem do tempo
sem palavras; ou um vento de feição, um acaso
que tudo justificasse. E no silêncio em que se ia guardando
buscava apenas um lugar mais sereno para as memórias.

Maria do Rosário Pedreira, in A Casa e o Cheiro dos Livros

domingo, 20 de janeiro de 2013

Agora

 

Não penses para amanhã. Não lembres o que foi de ontem. A memória teve o seu tempo quando foi tempo de alguma coisa durar. Mas tudo hoje é tão efémero. Mesmo o que se pensa para amanhã é para já ter sido, que é o que desejamos que seja logo que for. É o tempo de Deus que não tem futuro nem passado. Foi o que dele nós escolhemos no sonho do nosso absoluto. Não penses para amanhã na urgência de seres agora. Mesmo logo à tarde é muito tarde. Tudo o que és em ti para seres, vê se o és neste instante. Porque antes e depois tudo é morte e insensatez. Não esperes, sê agora.
 
Vergílio Ferreira, in Escrever